segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ser parte da solução

Fala-se de crise, já ninguém a discute tão instalada a tem o país. Chega então a maré de lembrar que a quantidade de dinheiro em circulação não diminuiu (será até mais abundante), nenhum incêndio reduziu a cinzas as notas maiores deixando nas caixas do multibanco as de dez e vinte. As maiores desapareceram das mãos da arraia-miúda segundo uma lógica nada democrática; mas por essa lógica se avalia como sabe falar quem diz que são precisos milhares de pobres para fazerem um único rico.
Os pobres, hoje, são os que trabalham por quinhentos ou seiscentos euros mensais executando tarefas de escassas qualificação durante horários e sob exigências disciplinares de crescente severidade. Repetem-lhes que têm que produzir mais para poderem ganhar mais, como se tal fosse viável com tais patrões e directores a dar-lhes ordens. E agora, nesta crise geral (não apenas económico-financeira) que se expande, apenas falta pedir aos pobres - que já vivem com o mínimo ou ainda menos - para baixarem o nível de vida a fim de reduzir os desperdícios do consumismo…
Na verdade, é isto mesmo que anda a ser apregoado pelos media, que aconselham a poupar água, a poupar luz, a poupar dinheiro para aforro. Com o apelo a uma maior produção, temos  a consigna emblemática da Ditadura restaurada: «Produzir e poupar, é o que manda Salazar!» Estarão a coincidir meras aparências?!
Seja como for, os problemas da nossa época, além de sociais, são também ecológicos. Uma sociedade nacional reclama regulações cruzadas em diversos sentidos a fim de obviar a graves rupturas, mas a conservação da natureza, isto é, da biosfera, já surge como condição de sobrevivência planetária. Para todos os efeitos, chegámos ao momento de compreendermos que dependemos vitalmente de recursos naturais finitos, como a água ou o ar respirável.
Somos pessoas cultas e civilizadas, hoje, na medida em que alcançarmos essa compreensão. Este grupo de pessoas será por certo «parte da solução».
Sabe-se, pois o facto é incontroverso, que aumentou desmesuradamente a diferença entre o que ganham uns quantos privilegiados, a minoria, e o que ganham as classes populares. Então, vendo de relance, as classes populares serão muito menos a «parte do problema» (podem querer consumir mas faltam-lhes os meios), do que os poucos que ganham muito e consomem nessa escala. Entre as nações, os Estados Unidos são disso um exemplo eloquente. Impõe-se agora a conclusão: não basta ter dinheiro para ter direito real a consumir certos bens de qualquer maneira (lembrete: menos de 1% das coisas compradas nos Estados Unidos no dia-a-dia não estarão no lixo dentro de seis meses).
As circunstâncias obrigam-nos a questionar o nível de vida da minoria abastada e também os seus modos de vida, lazeres incluídos. Obrigam-nos a não confundir consumismo e qualidade de vida, indo ao ponto de pôr na mesa da discussão o modelo de desenvolvimento vigente. Este bendito «crescimento» tem que ser contido, apenas os incorrigíveis teimarão em supor que iria ser imparável.
Oiçam o padre Fanhais: «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar».

8 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

O padre Fanhais tem razão mas a maioria, estou incluído, continua a "assobiar para o lado" e não ignora.
Ou há bom censo, agora, ou o futuro será de grande sofrimento para os nossos descendentes a começar pelos nossos filhos e netos. Que, raio de herança, estamos a preparar para deixar às gerações futuras. Progresso!? Tenho muitas dúvidas...
Um grande abraço
Carlos Rebola

Anónimo disse...

Não, não há coincidências! Respondo modestamente à sua questão. Mas, pergunto eu, a quem se dirigem as palavras do padre Fanhais? É que possibilidades para comprar óculos ou consultar otorrinos já quase não vão existindo e no que respeita ao “ler”, informativo/reflexivo, pressuposto da intervenção, esse apenas servirá, e cada vez mais, os interesses de uma minoria. Aos outros, ficam-lhes reservadas as “reciclagens” do pouco que podem consumir…Como tal, nem chegam ao ponto de “ignorar”!
Cumprimentos,
Manuela

Arsénio Mota disse...

Amigo Carlos:
Sou filho de agricultor. Vi, no decurso da minha vida (e tanta rapidez é de pasmar neste mundo pasmado), alterarem-se os comportamentos na agricultura e gerais da maneira que sabemos. Penso nos automóveis, também, e em tudo o mais. Desde o fim dos anos 50 se repete: esta Terra não é nossa, recebêmo-la dos nossos pais emprestada para a transmitirmos em boas condições aos nossos filhos. Porém, desde a minha geração, é o que se vê. O que falta para se declarar a loucura total? Isto é, como vai a gente do futuro ajuizar o que deixou feito gente como nós?
Abraço.

Arsénio Mota disse...

Cara amiga Manuela:
Seja bem aparecida! E obrigado pelo seu comentário, penetrante e certeiro como sempre.
Penso que as palavras de Fanhais se dirigem a toda a gente, tal como toda a verdadeira luz. Quem não quer, ou não sabe ver-ouvir-e-ler fará «parte do problema» - que havemos de fazer? Cada um de nós responde por si. E eis, amiga, fiquei de olhos postos, comovido, naquela sua frase: «Aos outros, ficam-lhes reservadas as “reciclagens” do pouco que podem consumir…» Pois é!
Aceite um abraço.

Manel disse...

caro amigo Arsénio,
Decrescimento não será, obrigatóriamente, o contrário de crescimento. Viver melhor com menos será, também, parte na solução, e a da solução está contra o actual estado de coisas, esta confusão entre consumir e ter qualidade de vida, além de ir contra a corrente esmagadora que a economia global apresenta.
Um abraço
Manel

Arsénio Mota disse...

Olá, amigo Manel!
Creio que, falando de decrescimento, estaremos a aludir e a contrariar a falaciosa ideia de um «progresso» infinito. Tal como, ao falarmos de consumismo louco, estaremos a aludir e a contrariar um real desperdício e ruína final. A questão essencial reside, quanto a mim, no conceito correcto de uma qualidade de vida autêntica, com satisfação plena das necessidades vitais de cada comunidade. Isto apesar de ser ingente uma eventual definição do que seriam as necessidades vitais de uma comunidade com vista ao seu bem-estar. Ingente por se perceber desde logo que isso resultaria impraticável numa sociedade de mercado, pois decerto exigiria alguma planificação da economia...
Mas isto é a gente aqui a conversar à pressa, porque são conversas longas!
Enfim, amigo Manel, obrigado! E volte sempre.
Abraço apertado.

PC disse...

Caro Arsénio Mota:

Não resisti, relendo o seu texto e respectivos comentários, a deixar aqui duas notas.

1. Permita-me, discordar, pelo menos em parte, daquela que me parece a tese principal do texto: o problema ecológico, ligado ao consumismo, provém mais da meia dúzia de privilegiados do que das classes populares. Esta tese será correcta se falarmos em termos de aferição de responsabilidade, pensando talvez numa lógica de países ricos e países pobres. Mas ela claudica em termos absolutos. Se por «classes populares» entendemos também a classe média, convém lembrar que esta consome e consome muito. A minha experiência profissional tem mostrado que uma das formas de afirmação social passa precisamente pelo consumo de produtos caros (os alunos mais pobres não são, por exemplo, os que possuem telemóveis mais baratos). Mas ainda que isto não seja tão simples, há que contar que os tais milhares de pobres, em números absolutos, consomem fatalmente sempre muito mais que um único rico. Se por «privilegiados» entende aqueles que têm poder de decisão, aí sou obrigado a concordar consigo. Talvez tenha querido denunciar somente o requintado estratagema dos poderosos que, obscenamente, acenam a bandeira da ecologia, quando eles nada fazem para solucionar o problema. Porém, como sabe, a ecologia não é uma questão de classes sociais. Vamos todos na mesma barca, barca que, a ser de Caronte (e pode bem ser), não reconhece classes sociais.

2. Diz também: «Isto apesar de ser ingente uma eventual definição do que seriam as necessidades vitais de uma comunidade com vista ao seu bem-estar. Ingente por se perceber desde logo que isso resultaria impraticável numa sociedade de mercado, pois decerto exigiria alguma planificação da economia...
Mas isto é a gente aqui a conversar à pressa, porque são conversas longas!»
Pois é precisamente a «definição do que seriam as necessidades vitais de uma comunidade com vista ao seu bem-estar» e a exigência de uma replanificação da economia global, que passaria por instrumentos de regulação de mercado transnacionais, que eu acho que valeria a pena discutir. (É o que tento, de resto -ingenuamente, admito -, no texto «Tempo livre e felicidade» no blogue que lhe indiquei.) Conversas longas, sim, mas que valem a pena, e sem pressa, porque, como o Manuel disse aqui por outras palavras, o que este mundo acelerado precisa é de lentidão...

Abraço,

Paulo

Arsénio Mota disse...

Caro PC:
Apreciei devidamente o seu comentário. As questões abordadas são diversas e de carácter «inesgotável»! Assim, apenas repetirei, agora consigo, que 1 - «o problema ecológico, ligado ao consumismo, provém mais da meia dúzia de privilegiados do que das classes populares» (foi o que escrevi); 2 - falo na crónica de quem ganha hoje 500 ou 600 euros para sugerir que estes consumidores decerto poluem pouco. Classes médias consumidoras de «marcas» é outra conversa. Mas abordo as dificuldades do nosso tempo que o amigo comenta. Porque então não poderia mais longe, limitei-me a apontar que as desejáveis correcções para as dificuldades actuais implicarão sem dúvida uma reconsideração séria e radical de muita coisa, a começar pelos modelos vigentes de produção e de consumo, isto para não ir mais longe...
Obrigado e volte sempre.