sábado, 27 de setembro de 2008

Tanta ausência, amiga!

Porque gosto de vir a este café e escolho sempre este lugar? E porque teimo em manter os olhos fitos na entrada?! Em outras ocasiões esperava-te sem dúvidas, ias surgir num instante para o encontro combinado, mas hoje, eu sei, não irás aparecer e, no entanto, continuo atento à porta - tanta é a minha saudade, amiga!
Lembro-te sentada na cadeira do outro lado desta mesinha tão pequena que nos permitia a proximidade de mãos nas mãos, o olhar mergulhado até ao fundo no outro olhar, a intimidade da conversa sussurrada, cúmplice. Por vezes uma expansão de alma, uma recordação dolorida, uma lembrança a sangrar em carne viva soprava nuvens, a chuva batia e punha a pingar as tuas lindas janelas antes luminosas. E quantas vezes me emocionei também eu, contigo, sentindo-te mulher inteira e de verdade?!
Mas eram nuvens passageiras aquelas no céu que nos cobria. Em breve sorrias, de rosto erguido para mim, envolvida pelo beijo especial desta amizade que nos comove. Sei, sabemos, que em volta nos verão certamente como dois amantes apanhados num encontro furtivo, pois é atraente a tua figura de mulher madura, só não vêem que tenho anos que chegariam para ser teu pai…
…E nunca provei dos teus lábios, sabendo todavia que neles poderia colher o mel dos pólens das mais bonitas flores do mundo. Respeito, amiga, a tua condição de mulher cônjuge, o teu pudor de mãe. E rimo-nos de todas as suspeições, de todas as torpezas, hipocrisias e fealdades do decoro corrente, meras fachadas, que miram de soslaio uma amizade como a nossa e se põem a imaginar.
Ainda reina o preconceito: será digna a casada que tem um amigo e com ele se encontra e conversa? Serão realmente limpas as intenções de um tal homem? Enfim, poderá existir uma amizade pura entre homem e mulher e, para mais, casada?!
Ai, amiga, se esta gente soubesse que a nossa amizade é ternura estreme, amizade e ternura que vêm da sinceridade dos corações! A comunhão é, entre nós, plena e sem disfarces. Damo-nos um ao outro em entrega imaterial, felizes por existirmos sendo como somos e nos encontrarmos em perfeita sintonia.
Talvez esta nossa amizade seja amor, uma qualquer forma de amor, porque eu continuo atento à entrada e, momento a momento, vejo a tua cadeira vazia. A divagar, pergunto-me: alguém poderá sentir-se preenchido por uma mesma pessoa durante todo o tempo? Lembro, de Florbela Espanca, dois versos: «Quem disser que se pode amar alguém / durante a vida inteira é porque mente!» Porque a pessoa amada e a pessoa amante se transformam, deixam de ser as mesmas.
Querida amiga, confirmas-me neste ponto preciso: é normalmente nova, isto é, diferente, cada experiência de amor ou de amizade que cada pessoa empreenda, pois que a pessoa envolvida em cada caso é diferente. O que trocamos, amiga, não foi expropriado a ninguém. Avalia nesta base a falta que me fazes, aqui, para, como disseste, beber um café, nos ouvirmos ou abraçarmos, nos olharmos em silêncio, a sonhar com viagens ou a filosofar futilmente, soltando as imaginações no ar livre!
[Ilustração: escultura de Benson Park, Loveland, Colorado, jardim desde 1985 com mais de cem obras.]

6 comentários:

Isabel disse...

A amizade, a verdadeira, é uma forma de amor tão completa e sublime como o próprio amor. Disso não tenho dúvidas, meu caro!

Isabel Domingues.

Arsénio Mota disse...

Olá, Isabel!
Acho que vale a pena enaltecer os sentimentos em geral e o da amizade em particular. Sinto, sentimos um definhar da envolvência geral afectiva (logo, do cimento agregador da humanidade). Foi isso, decerto, que me impeliu para escrever essa apologia da amizade. Ainda bem que compreendes!
Beijinho.

Manel disse...

Grande e colorida de jardins de estátuas e flores é essa amizade que é aqui vivida.
Um abraço
manel

Arsénio Mota disse...

Pois é, amigo Manel, celebremos a amizade para temperar os dias! Mas aquela amiga que a crónica evocou anda, eu sei,tão sobrecarregada que não leu nem talvez chegue a conhecer o escrito...
Abraço.

Carlos Rebola disse...

Vejo aqui pintado um belo quadro, que retrata a amizade verdadeira que se confunde, por ser verdadeira, com o amor. Bem haja, amigo.

Um grande abraço
Carlos Rebola

Anónimo disse...

Caro amigo:
Cansado de mim mesmo e em sintonia com a sua voz crítica acerca do mundo em que nos é dado viver, e ainda a propósito dos poemas de Vinicius de Morais, permita-me que recupere a sua crónica "Tanta ausência, amiga!". Apreciei o sentido intimista, a prosa de poética simplicidade, a pureza e a possiblidade que nos dá de fruir o belo,cruzando a nossa própria existência. Sinto que a escrita para si constitui um acto de generosidade e partilha mas acredito que o poeta que o habita nos continuará a surpreender a cada passo - e que bem que isso nos faz num mundo tão cheio de problemas que nos entristecem...
Um abraço,
Rui Almeida