sábado, 11 de outubro de 2008

Como falar?

Enche-se a linguagem corrente de eufemismos. Parece que as pessoas já têm receio de abrir a boca para dar o justo nome às coisas, chamando ao pão, pão e ao queijo, queijo. Anda no ar uma espécie de fuligem maligna que retém debaixo da língua o que devia saltar cá para fora.
Naturalmente, o fenómeno resulta do ambiente social alagado por uma cascata de provações e severos constrangimentos. A população anda deprimida, amedrontada, inquieta, infeliz. É o desemprego, a vigilância e a repressão nos locais de trabalho, a insegurança das pessoas, vidas e bens, o amanhã sem futuro que apeteça.
Assim encolhidas e esmagadas, as pessoas guardam-se de si próprias e dos outros. Os eufemismos são modos de falar à socapa, tal como o falar por subentendidos. Ou por abreviatura corriqueira: «Está tudo?» (bem contigo/vocês?), perguntam por cortesia e nem ouvem a resposta.
Os vendedores informam-nos que deixaram de ter o artigo que pretendemos, foi «descontinuado», não que a fábrica deixou de o produzir. Outra empresa foi «deslocalizada», não que se mudou para país com mão-de-obra mais incondicional e baratinha. Um cego não gosta de ser cego, sequer invisual, gostará de ser «amblíope», tal como um negro, ou preto, prefere ser considerado «de cor», e a tarefeira doméstica passou a ser «empregada».
As palavras ficaram com gumes tão sensíveis que, em qualquer situação de emergência e descalabro, o termo consensual que a descreve fica posto em cifra na frase: «É complicado!» Tanta vezes esta frase se repete que serve para dizer tudo sem mais adiantar.
E já podem desejar-nos um generoso fim-de-semana à quarta-feira, ou atenderem-nos ao balcão com um amável «Posso ajudar?», quando sabemos que quem atende o que quer é vender, não ajudar.
As expressões ficam veladas e os gumes do discurso são contidos como outrora, no tempo da Censura, quando escrevíamos, ou falávamos olhando atentamente em torno, a rastrear pides. Fala-se querendo manifestar o que afinal se esconde. O stress está aí para rotular comodamente todos os casos de perturbação da saúde mental ou de esgotamento.
Mas tanto eufemismo aparece compensado pelo seu contrário. A linguagem corrente torna-se aqui e ali paroxística ou hiperbólica, a denunciar o mesmo fenómeno de raiz. A senhora fala da sua «empresa» e, vai-se a ver, é uma simples loja de arranjos de costura; o auto-apresentado «industrial» é dono de uma pequena oficina de reparação auto; o alegado «empresário hoteleiro» tem um café onde só cabem seis mesas, anunciado cá fora como pastelaria e salão de chá… E quem se dispõe, uma vez na vida, a ir à enciclopédia para copiar uma informação, é capaz de reclamar que fez, não uma vulgar consulta, mas uma bela «investigação»…
Nos modelos da linguagem corrente pode, assim, ver-se uma imagem gráfica do tecido de perturbações que envolvem a população e a mergulham na infelicidade.

2 comentários:

Carlos Braga disse...

Os eufemismos funcionam, na sociedade actual, como escudo protector e como arte de dissimulação. Exemplos? Tudo se faz para suavizar a nossos olhos a velhice dos outros. Os velhos, além de “seniores”, encerram um paradoxo: a sociedade que exibe a longevidade como valor supremo é a mesma que os trata como um fardo e um problema. Estamos cercados de idosos mas quase não os vemos. Encaixotados em lares de gosto duvidoso, duram tempo demais e dão cabo do erário público. Deixou de fazer sentido a ideia segundo a qual por cada velho que morre é uma biblioteca que desaparece.
A pressa, a ligeireza e o desinteresse (que é desconsideração) pelos outros, são a imagem de marca do nosso tempo. Por isso se deseja bom fim-de-semana à quarta-feira, nos dizem obrigado em situações em que nos competiria a nós agradecer, ou nos mandam cumprimentos para a esposa que não conhecem…
Na sociedade em que o ter se substituiu ao ser, em que cada um já não vale pelo que é mas por aquilo que ostenta, ou pela imagem muitas vezes falsa que retoca e de si dá aos outros, quem assim nos fala não é o ser humano dotado de afectos. É o homem-máquina, um corpo sem alma, um rolo compressor que tudo cilindra à sua passagem.

Arsénio Mota disse...

Prezado Carlos Braga:
O que escreve acima dignifica brilhantemente a função dos Comentários. O que pus no post a duas mãos deveria ter sido composto a quatro, de parceria consigo. Mas nada se perdeu, graças ao que acrescenta!
Continue atento às mudanças do mundo e a este cantinho!
Abraço apertado.