terça-feira, 28 de outubro de 2008

A conexão dos aspectos

Na minha cidade vejo multiplicarem-se pelas ruas os prédios com cartazes que anunciam: vende-se, trespassa-se, aluga-se, vende-se ou aluga-se. Passa o tempo, a luz solar esmaece a cor das letras, as chuvas enrugam e escondem algarismos dos números de telefone… Por vezes, a idade já é muita e os prédios substituem portas e janelas apodrecidas por tijolos que emparedam toda a esperança.
Cada uma destas propriedades em venda, trespasse ou aluguer teve dono abonado com o respectivo rendimento. Hoje, os valores venais dessas propriedades estão a faltar aos seus donos, aflitos porque precisam desses valores para equilibrar a vida e não há quem compre, alugue ou negoceie um trespasse. Quem percorre as ruas e calcula por alto, somará sem dúvida muitas centenas de milhões só na minha cidade… e esses muitos milhões, agora em falta angustiosa, desapareceram queimados numa fogueira invisível.
Vale a pena ver as coisas de olhos abertos. Assim se chega à fábula de Pedro Cem que já teve e agora não tem. De facto, os proprietários sem candidatos a negócio mostram nos cartazes expostos o que possuíam e deixaram de poder possuir (por dívidas contraídas, reveses familiares).
As propriedades continuam a existir, é certo. Se o mercado «esfriou», nem por isso deixaram de ter valor. Mas agora fazem-se poucas transacções de imobiliário, pois se os vendedores estão de recursos financeiros exaustos, também os eventuais compradores não têm melhor sorte.
A maravilha é que estas propriedades com cartazes à vista vão sempre arranjar algures um dono, seja ele quem for. Como o dinheiro em circulação, os bens imóveis concentram-se mudando de mãos. Estão esses outros donos a tardar e a tornar o mercado «frio» porque isto se passa no interior das classes médias (tão descapitalizadas quanto se sabe), enquanto, ao lado, nos estratos médio-alto da população, se negoceiam como pão quente casas novas de luxo e alto preço.
A paisagem da crise vai-se tornando mais triste e deprimente. Multiplicam-se os automóveis com letreiros de «Facilita-se» [o pagamento] apelando à venda. Fecham lojas, restaurantes, cafés: escasseia-lhes a clientela. Vou contando as desistências pelas minhas ruas (lembram-me, não sei como, dentes caídos em boca repentinamente envelhecida).
Há semanas correu os taipais uma loja de artigos usados. Fechou à míngua derradeira. Não apareciam mais clientes para compra-venda depois do espaço dos armazéns se reduzir a metade e parar o negócio dos ouros velhos e pratas após um assalto que levou tudo. Fechou mesmo o quiosque dos jornais meu vizinho, o dono já não tinha receita para cobrir as despesas.
Quem ergue o olhar do seu canto para o país, ouve notícias não menos deprimentes: só uns 60% dos desempregados recebem subsídio; os novos pobres (necessitados de assistência) são gente com emprego; há pessoas, homens e mulheres, que trabalham, não têm abrigo… Alegre-se, porém, o pagode: já andam a decorar as ruas com galas de Natal!

8 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Se aqueles (muitos) que tinham pouco, estão a perder esse pouco que tinham e aqueles (poucos) que já tinham muito continuam a ter cada vez mais. Que os "intelectuais" não nos venham com complicadas contas e teorias, porque as contas e a prática estão bem de ver. Há uma minoria que está a explorar desumanamente os que trabalham, roubando-lhes quase na totalidade a "mais valia" que introduzem naquilo que produzem. Descaradamente já dizem à boca cheia que é necessário melhorar o capitalismo, isto é melhorar os métodos de exploração de quem tem unicamente a sua "força de trabalho", dizem-no sem vergonha, também aqueles que se dizem socialistas, qual foi a sua cartilha do socialismo, base da sua formação? É preciso perguntar-lhes. Deve ser reflectido sem paixões, o facto de muitos dos novos pobres terem um emprego, têm trabalho, que os faz cada vez mais pobres, como é possível esta contradição, quando apregoam que o trabalho é o único meio para melhorar as condições de vida, de quem afinal? Parece não ser a vida de quem cumpre diariamente a sua jorna, de marmita na mão cada vez mais vazia.
Não admira, gostei da analogia, que as ruas, as cidades o país, pareça uma boca envelhecida da qual caiem os dentes (forças vivas da economia).
As casas de luxo cada vez se vendem melhor, em tempo de crise que dizem afectar todos (uma ova!), será porque o sistema é justo ou precisa de ser alterado? E segundo parece “ainda a procissão vai no adro”.

Um abraço
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Prezado Carlos Rebola:
Estamos num tempo cego e depressivo, por isso cheio de ameaças tremendas. Impressiona a passividade dos povos perante as ameaças deste tempo. Parece que não as vêem nem as sentem a avolumarem-se ao longe,
prontas a cair-lhes em cima como um tsunami devastador. Vão ao futebol (onde se decidem as vitórias que valem a pena!) e acompanham as intrigazinhas do dia a dia. Mas se lhes for possível conseguir mais um crédito, respiram de alívio: o futuro foi adiado mais uma vez! E o des-governo geral continua... e as propagandas acompanham... até que as coisas fiquem sem remédio.
Numa situação destas, que fazer?
Um abraço.

Fernando Sosa disse...

Se é verdade que a ganância passeia num mundo capitalista, também já deambulou em regimes comunistas, monárquicos, da antiguidade clássica, etc. Se é verdade que existem indivíduos de classe média-alta ou alta a explorarem os menos afortunados, também existem aqueles que com o suor do seu trabalho atingiram um patamar elevado na sociedade e se podem comprar as propriedades que outros já não conseguem pagar, porque não o haveriam de fazer?

Os juros baixos aliados a uma baixa educação e publicidade enganosa resultaram no efeito que se sente na sociedade portuguesa. O Estado tem culpas, os bancos têm culpas...mas é bom não esquecer que ninguém foi obrigado a contrair empréstimos sobre empréstimos.

Aprenda-se com a situação a todos os níveis possíveis. Nas business schools lecciona-se agora com afinco ética empresarial e responsabilidade social. Não estagnemos nas críticas a erros passados e preparemo-nos para o Futuro. Nem tudo tem que ser negro.

Arsénio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:
Seja bem-vindo!
Registo com agradecimento o seu comentário. Lembra-me que «ver» será sempre uma «forma de ver», isto é, que não há olhar neutro, de objectiva fotográfica. A sua opinião (a sua visão das coisas em foco) é perfeitamente respeitável e até, acho eu, bastante corrente. Mas permita-me uma pergunta, suscitada pelos seus argumentos: então não estará a negar a História? O sistema capitalista, com o tempo, alastrou e desenvolveu-se pelo mundo. Atingiu a fase actual, com os seus aspectos e problemas específicos. Mas antes do capitalismo houve humanidade e houve história, e depois do capitalismo, acredito eu, continuará a haver humanidade (espero que muito mais humana!) e a haver história...
Discordará disto, caro Fernando Sosa?
Seja como for, volte sempre!

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,
não nego a História e acho que muito tem para nos ensinar, se bem contada claro está. Porém, penso que quando olhamos demasiado para trás podemos perder noção do rumo que deveríamos seguir. É logicamente necessária uma análise crítica dos erros passados para não os voltarmos a repetir, mas a actual crucificação do capitalismo e saudosismo do marxismo (ou correntes socialistas semelhantes)parece-me excessiva. Do meu humilde ponto de vista, essa luta faz parte do passado: a utopia de uma sociedade igualitária para todos os cidadãos fracassou, tal como a fé cega de que os mercados tudo resolvem com as suas virtudes. Ache-se um meio termo e, mais importante que tudo, aplique-se à actualidade!

Não me interessa o que chamarão à sociedade no futuro próximo: capitalista, socialista, neo-liberal, social democrata, etc. Não passam de rótulos e penso que os rótulos muitas vezes levem a extremismos e dogmas cegos (poderá até ser uma redundância, dependendo do ponto de vista).
Se debatermos ideias concretas em vez de atacarmos pessoas que rotulamos de algo diferente daquilo que pensamos o caminho a seguir ficará mais claro por certo.

Quiçá se esta não é mais uma utopia...


Cumprimentos

Arsénio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:
Obrigado por voltar a este cantinho. É agradável para mim uma troca de opiniões em forma de diálogo, sobretudo quando, como é o caso, o interlocutor escreve bem e pensa com lucidez manifestando importantes divergências. São estimulantes. Pena é que mingue o espaço quando teríamos tanto pano para mangas!
Se o meu leitor não nega a História, não negará também a evolução do capitalismo e uma boa tentativa para compreender o seu estado actual, com os respectivos problemas. Talvez não negue mesmo uma abordagem marxista da História (i. e., o materialismo histórico). Aliás, e em geral, uma leitura do fundamental do pensamento marxista deveria, penso eu, caber em toda a formação cultural digna desse nome. Fosse qual fosse a atitude política de cada pessoa...
Ponto importante: conhece de facto o meu leitor alguma sociedade com socialismo democrático? E num mero plano teórico?
Evidentemente, meros rótulos não interessam, só servem para confundir e complicar.
Como isto já vai longo, acrescentarei apenas que no que escrevo não ataco pessoas, sim comportamentos e actos ilícitos. Porém, tenho pena de nada dizer aqui sobre «sociedade igualitária», tema este também sujeito a imensas confusões...
Permita-me concluir, repetindo: Fernando Sosa, volte sempre!

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,
obrigado pelos elogios que me tocam, embora discorde na parte em que escrevo bem, ainda para mais quando o diálogo é realizado com alguém como o senhor, com tanta experiência na escrita.
Visto que existe de facto tal falta de espaço, tentarei ser o mais breve possível.

No que toca ao fundamental da obra de Marx - que é muito extensa diga-se -, também concordo que deveria fazer parte da formação cultural de cada um, incentivando o raciocínio crítico das pessoas.

Se conheço alguma sociedade com socialismo democrático? Essa é uma "tricky question"... Na realidade penso não conhecer nenhuma, embora alguns líderes o possam ter afirmado sobre o seu país. Num plano teórico tenho que ser honesto: provavelmente ainda não estudei suficientemente a história e evolução do socialismo para dar uma resposta exacta. Poderia cometer alguns erros se me atrevesse a responder e prefiro não tentar a sorte. Talvez no dia em que conseguir ler «Das Kapital».

Assim termino, com grande satisfação pela troca de ideias existente.

Cumprimentos

Arsénio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:
Deixa-me sinceramente gratificado esta nossa conversa, que as circunstâncias condenam à brevidade. Quando encontro um interlocutor como Fernando Sosa, perdê-lo custa. Por isso, oxalá cheguemos em breve a um novo contacto!
Cá pelo meu lado, tendo a ver num regime democrático socialista (ou socialista democrático, estes «rótulos» são inevitáveis) um claro avanço da modernidade sobre o sistema económico-político capitalista. De facto, foram as contradições do capitalismo que desencadearam em meados do séc. XIX a alternativa. Desde então, lembro ainda, as contradições têm vindo a agravar-se...
Atender aos erros do passado, aprender com eles e tentar evitá-los é para todos nós imperativo, sem dúvida. Tal como, e com a máxima urgência, parece imperativa uma drástica remodelação das mentalidades empresariais típicas em Portugal (e não só)...
Seria também muito positivo, a meus olhos, debelar um preconceito arraigado, que é o de uma eventual «sociedade igualitária» não possa permitir que um indivíduo trabalhe esforçadamente e assim enriqueça para usufruir o legítimo fruto do seu esforço. Falo de preconceito porque, em suma, se uma tal sociedade impedisse tal coisa simplesmente se negaria, denunciando pela base a mentira. Onde estaria então a «democracia» do rótulo?
Um regime democrático socialista, para o ser, tem que expandir a democracia às camadas mais extensas da população, ainda que isso custe algo à minoria...
Aduzo isto à laia de despedida e em jeito de cumprimento pessoal.
Muito obrigado, Fernando Sosa.
Cordialmente,
Ars