quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Eis o mundo perigoso

A crise financeira que se declarou com epicentro na Wall Street e ondas globais em crescendo expansivo na Europa, revela indesmentivelmente duas verdades clamorosas. A primeira, a democracia em sistema capitalista é dominada pela oligarquia financeira em seu exclusivo proveito. A segunda, o sistema capitalista do modelo que conhecemos entrou em total descrédito, não podendo mais tornar a merecer confiança.
Compreende-se portanto que nem a democracia, sistema político, nem o sistema económico, possam sair deste transe como se nada tivesse sucedido. Encadearam-se uns nos outros escândalos gigantescos da máxima gravidade e os cidadãos, incluídos os que não possuem habilitação económico-financeira, vêem-se chamados a pronunciar-se. Confirmada ficou, entretanto, a fase imperialista do capitalismo actual e a sua tendência suicida para a desregulação e a desordem. Alguém, há uns anos, previu que seria esta a sua fase derradeira. Será? As fachadas institucionais pedem agora correcções cosméticas urgentes, mas… o essencial das estruturas internas irá poder mudar em prejuízo da oligarquia?
Demonstrada fica, desde já, a apropriação do Estado democrático por uma oligarquia voraz que proclama a economia de mercado como matriz da democracia enquanto lhe convém. Mas basta que bancos, companhias de seguros e sociedades de investimento entrem em colapso para que o Estado lhes acuda, livrando-os da insolvência. À vista fica porém a corrupção que invadiu o sistema financeiro graças àquelas tão providenciais off-shores.
À vista ficam também algumas outras verdades clamorosas. O Estado, que andou anos a repetir que não possuía recursos para melhorar a segurança social, a saúde, o ensino público, etc., de repente, porque se trata de salvar uma parte podre do país do seu naufrágio, arranja milhares de milhões e lança-os como bóia salva-vidas. A contradição parece insanável.
Mais grave é que, assim tratados, os especuladores financeiros atiçados pela ganância – já designados banksters (banqueiros+gangsters) – e os seus acólitos da supervisão oficial, vão querer certamente continuar a especular sem leis ou criminologias. E quem puxou os governos para estes caminhos de especulação financeira pura e dura como se isso fosse a economia pós-moderna e não a pilhagem de recursos mais descarada?
É preciso travar essas altas cavalarias do cifrão em nome de uma economia realmente produtiva e socialmente útil. O poder da oligarquia financeira, que continua a ser imenso, não pode dominar o sistema democrático. O mercado não pode permanecer entregue aos seus «donos», precisa da regulação constante do Estado.
As classes médias norte-americana e europeias terão agora, mais uma vez, oxalá que em níveis diferentes, de suportar os custos desta crise. Os Estados irão buscar os recursos aos bolsos de quem possui algo, não aos prevaricadores fugidos de bolsos cheios. Cabe aos povos reclamar aos seus Estados uma distribuição mais equitativa dos rendimentos conjugada com a conservação da qualidade de vida e um apelo vibrante à paz cada vez mais em perigo neste Mundo perigoso

4 comentários:

Carlos Braga disse...

Há verdades que ferem como punhais. Uma delas é que os Estados asseguram cada vez menos protecção aos mais desfavorecidos.Desinvestem na saúde, na segurança social, na educação. Não há dinheiro - dizem com ar de certeza inabalável. Mas eis que, para acudir aos buracos escavados pela ganância e o crime económico, os malabaristas da política nos acenam com muitíssimo dinheiro fresco (afinal havia...) que é de todos, do bolso dos contribuintes. A ética weberiana anda mesmo pelas ruas da amargura.
A incerteza da providência especulativa está pois a ser escandalosamente substituída pela certeza da providência estatal, empenhada em resguardar a carteira de especuladores sem escrúpulos. O que se procura evitar, a todo o custo, é a ruptura do compromisso que tem permitido a permanência da democracia no capitalismo.
Que fazer? Inventar já um modelo económico melhor que este? Ou colmatar as falhas graves de regulação do actual sistema? Ao contrário de Pacheco Pereira, não estou convencido que esta crise seja o sinal da crise do normal funcionamento do liberalismo. Não estará o capitalismo a devorar-se a si próprio, como a serpente do velho mito germânico de Migdar que morde em círculo a própria cauda?
Crises deste género costumam anunciar o novo, muito mais que perpetuar a servidão presente. Seja qual for o novo "modelo" que aí venha, daqui a mais ou menos anos, bom será que não nos prometa "paraísos" na terra. Estes são, no dizer de Eduardo Lourenço, a mais segura porta para os infernos que nunca deixou de haver.

Arsénio Mota disse...

Caro amigo Carlos Braga, lembremos o óbvio: o capitalismo é o sistema baseado na propriedade privada, no lucro e na acumulação crescente da riqueza, portanto da desigualdade crescente. O que acontece agora é o escândalo declarado: a acumulação tamanha da riqueza transgrediu todos os princípios e todos os limites. Digamos, o capitalismo ficou sem máscara, mostrou-se sem vergonha. O que esperar? O sistema aproveitará a maré para emagrecer os orçamentos governamentais de relevo social em nome da crise (os arautos do sistema já entoam o discurso), fazendo-a pagar sobretudo pelas classes médias (que ainda têm algo a perder), haverá algum arranjo cosmético nas leis e nas supervisões, passa um tempinho e novamente virá uma outra «crise» com maior ganância porque se acumulou ainda mais a riqueza em muito menos mãos... Porque, vejamos, o dinheiro (a riqueza) não se evaporou agora nem vai evaporar amanhã. Apenas se concentra mais, e mais, e mais, até que um dia a montanha se torne vulcânica... Até que um dia se torne possível a transição para uma democracia autêntica, que será socialista. Digo eu, claro!
Abraço.

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Esta crónica sobre a "crise financeira" e como os Estados a estão a "resolver" à custa mais uma vez de quem, com o seu trabalho, produz riqueza e paradoxalmente cada vez está mais pobre. Leva-me a recordar e a citar aqui uma explicação, simples, de como o mercado financeiro funciona, desculpe-me a extensão do comentário, eis a explicação:

- "Uma vez, numa aldeia do interior, apareceu um homem anunciando aos aldeões que compraria burros por 10€ cada. Os aldeões sabendo que havia muitos burros na região, iniciaram a caça aos burros. O homem comprou centenas de burros a 10€ e então os aldeões diminuíram seu esforço na caça.
Aí, o homem anunciou que agora pagaria 20€ por cada burro e os aldeões renovaram seus esforços e foram novamente à caça.

Logo, os burros foram escasseando cada vez mais e os aldeões foram desistindo da busca. A oferta aumentou para 25€ e a quantidade de burros ficou tão pequena que já não havia mais interesse na sua procura.

O homem então anunciou que agora compraria cada burro por 50€! Entretanto, como iria à cidade grande, deixaria seu assistente a cuidar da compra dos burros.

Na ausência do homem, seu assistente disse aos aldeões: "Estão a ver todos estes burros que o homem vos comprou? Eu posso vendê-los por 35€ a vocês e quando o homem voltar da cidade, vocês podem vender-lhos por 50€ cada."

Os aldeões, espertos, pegaram em todas as suas economias e compraram todos os burros ao assistente.

Eles nunca mais viram o homem ou seu assistente, somente burros por todos os lados." (enviado por um amigo)
É assim que se geram crises e riquezas fraudulentas.

Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Amigo Carlos Rebola:
A fábula é elucidativa: basta trocar os burros por acções na Bolsa, acrescentar uns pormenores (fraudes, manipulações e flagrantes violações das leis) e teremos uma imagem do tombo em que ficou a Wall Street, as finanças do Tio Sam e etc. Pena é que este caso, mais uma vez, não chegue para abrir os olhos a quem os mantém fechados, esperando que o capitalismo mude de natureza e de carácter, isto é, que se «humanize». Compensemo-nos nós, então, com convívios tão agradáveis e gratificantes como o que, sábado passado, no Zambujal, o amigo nos ofereceu!
Abraço.