quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Em torno do populismo

Os políticos e os seus comentadores de serviço usam frequentemente um termo que lhes serve para adjectivarem outros políticos e políticas. Falam de populistas e de populismos. Quem os ouve fica em dúvidas sobre o que as expressões querem dizer e, no fim de contas, que valor têm as duas categorias estabelecidas entre os que são e não são… populistas.
Dúvidas perfeitamente aceitáveis. Trata-se de um vocábulo que circula e se implanta, codificado com um pretenso alcance condenatório. Quer valer como uma mácula óbvia, que no entanto nos deixa sem saber onde essa mácula se esconde…
Rotular, por exemplo, Hugo Chávez de populista, o que significará ao certo no plano político? Será o líder bolivariano mais populista do que, ainda por exemplo, Luís Lula da Silva ou Sarkosy, Bush ou José Sócrates? O que confere a um político tal qualidade?
Vejamos: é qualidade malsã, detestada e detestável, abusiva e quase criminosa? Será por eles falarem abundantemente na televisão com recursos eventuais de exímios comunicadores? O discurso em voga vai ao ponto de sugerir que um lider populista tem estofo ditatorial e que políticas populistas são expressão de regime opressivo execrável!
Mas uma pessoa, tomada pelas dúvidas, vai ao dicionário para confirmar o que se deve entender por populismo, populista e popular. Folheia o tira-teimas mais usual e, sucessivamente, lê: simpatia pelo povo; pessoa que é amiga do povo; respeitante ou pertencente ao povo; democrático; promovido pelo povo…
Estranheza! Então um político eleito democraticamente pode ser declarado populista? Está dentro do regime democrático republicano, que é o regime do povo, pelo povo e para o povo, e esse regime cobre-se de populismo? Não terá o regime republicano democrático de trabalhar e de servir naturalmente para isso?!
Quando Sócrates anuncia ao país, por exemplo, a construção de aviões em Beja, de fábrica de automóveis eléctricos ou de computadores portáteis para as escolas portuguesas, o que faz? E quando descreve com ridente optimismo cada situação nacional preocupante ou problemática? Bem sabemos que Sócrates está longe de ser populista, seguir políticas populistas…
Um político, se for caso disso, será antes demagógico, show man, manipulador ou mesmo propagandista de feira. Em todo o caso, tem por obrigação primeira agir em concordância com o preceito republicano: ser amigo do povo, demonstrar (com actos de bom governo) simpatia pelo povo, respeitar a massa popular. Como democrata autêntico e consequente, aspirará a receber, com satisfação e orgulho, o rótulo de «populista» que os deformadores da opinião andam a distorcer.
O esplendor de todo o político honesto está na capacidade «populista» de que queira e possa dar provas! Quem anda por aí a denegrir o significado do vocábulo demonstra quanto se afasta de reivindicar um governo honestamente ao serviço do povo, isto é, da esmagadora maioria da população nacional.

3 comentários:

Carlos Braga disse...

Um político populista não será necessariamente um político popular. Será popular o que realiza, na medida do possível, as aspirações do povo; será populista o que apela a sentimentos primários e a impulsos básicos das massas descontentes para se perpetuar no poder, mantendo inalterada, ao longo do tempo, a situação precária dos que o legitimam.
O líder populista tende a mitificar o povo (entidade muito heterogénea) pelo recurso ao seu carisma pessoal. Digamos que o populismo poderá ser visto como uma prática política interessada em desgastar os mecanismos de representação do sistema político democrático. Populismos há muitos, de direita e de esquerda, espalhados por vários continentes. Pergunta-se: que leva os norte-americanos a só terem olhos para os bombos da festa Hugo Chavez ou Evo Morales? A resposta parece óbvia: quando analisam os problemas do petróleo, esquecem-se de tirar os óculos embaciados da ideologia...

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Pelo que tenho vindo a observar, no discurso politico, a utilização do termo populista para pessoas e politicas, é utilizado quase invariavelmente para denegrir, lá sabem porquê (nós também sabemos), quem apresenta propostas realmente favoráveis ao povo mais sofredor. Não estou a pensar naquelas pessoas, essas sim populistas, que estão sempre a dizer que o que fazem é para bem de todos quando as consequências do que fazem só agravam a situação de que já está fragilizados, esse tipo de populismo no sentido deturpado (engano através da propaganda cientifica), que lhe querem impor, tem resultado no que hoje está á vista de todos, Portugal é um país da Europa onde o "fosso" entre ricos e pobres é maior.
Obrigado Arsénio, a sua explicação, fez-me, saber melhor e com mais consciência o uso das palavras “desvirtuadas intencionalmente” como armas assassinas de boas ideias, propostas e vontades.

Um abraço
Carlos rebola

Arsénio Mota disse...

Acontece muitas vezes: o tema de uma crónica é apenas aflorado, as dimensões do texto não permitem mais. Então, os comentários tornam-se especialmente bem-vindos, como agora. Dois amigos, Carlos Braga e Carlos Rebola, enriqueceram a minha abordagem e tornaram-se co-autores. A crónica, graças a eles, ficou assim muito melhor!
Obrigado a ambos.
Com abraço.