quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O incêndio da memória

Não apaguem a memória!, gritam umas quantas pessoas em clamores por vezes indignados. São pessoas que têm um passado de cidadania e que desejam preservá-lo, porque nesse passado ficou vida sofrida e bom ensinamento. Querem evitar erros de outrora no presente e no futuro, mas os seus gritos soam pouco por entre os decibéis que poluem o ambiente.
Na verdade, o tempo não corre de feição para a conservação das memórias colectivas. A massificação (corporização de uma tirania a exercer-se) parece gerar indivíduos unidimensionais com um lastro mínimo de recordações para além das marcas dos produtos que devem consumir. Escândalos da política ou compromissos eleitorais recentes, por exemplo, ficam substituídos com rapidez por novos compromissos ou escândalos e caem depressa no esquecimento.
Admira pouco, assim, a irrelevância que o passado assume a favor de um presente a borbulhar à superfície dos dias e cada vez mais alienado e esquizofrénico. Dançam as multidões a tarantela e não sabem de onde lhes vem a música. Arredam-se da história, que é o repositório típico do passado, lá onde o nosso presente ganha alguma perspectiva, claridade e sentido.
A memória, individual ou colectiva, é guarida da história. Quem grita para que não a apaguem enfrenta o incêndio que a devora. O conhecimento da história, e mesmo do passado recente, hoje, satisfaz-se com as ficções dos romancistas.
As instituições de formação cultural não parecem contrariar a mentalidade dita pós-moderna, tecnocrática e neo-liberal que deita foguetes à globalização: da alta finança e da economia. Isso abre o terreno ao avanço de uma desumanização que desvaloriza as pessoas e as deixa perto da categoria de objectos substituíveis. O economicismo das políticas em voga materializa as relações sociais e a condição humana degrada-se como migalha resídual que fica porque… não houve alternativa!
Estamos no tempo em que diminuem as subvenções do Estado à Escola e nesse sector se projectam mais privatizações. Deseja-se uma Universidade «empresarial» e lança-se uma comercialização do ensino superior. Os cursos são já designados «produtos» e os estudantes, «clientes»…
As Letras – linguística, filosofia, psicologia, história, etc. – definham no seu lugar clássico. As consequências desastrosas que daí advém costumam ser descritas neste ponto como um atraso da cultura perante os progressos técnicos e tecnológicos. Mas chegaremos ao busílis notando a aversão que continua a banir quase sistematicamente as humanidades das formações culturais.
Todavia, as humanidades continuam a valer sem dúvida mais do que o estudo do latim e do grego e das respectivas literaturas. Recordam o humanismo que irradiou da Itália para a Europa nos séculos XIV-XVI. Recordam mais: que o homem é o valor supremo e que «através das letras se torna o homem mais humano». Disto estamos todos a carecer até à aflição e ao desespero.

3 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Obrigado por mais esta pertinente e excelente crónica, mais uma das várias a que nos habituou deliciosamente. É pertinente, neste tempo em que se quer afastar da "escola" e da vida, quase tudo o que nos diferencia dos outros seres vivos, a capacidade de, para além da memória genética comum, de milhões de anos, podermos partilhar uma memória social de relações humanas, através da comunicação oral, escrita e social, que nos torna conscientes e sabedores de que o nosso presente é fruto dum passado centrado no Homem e nos valores humanos, com singularidades, acidentes e desvios que fazem parte dessa memória (história) manancial de saber aprender a corrigir o mau e a preservar o bom. Sem essa memória voltada para o futuro, ao que parece única e humana, for desprezada e substituída pelas máquinas (algumas com nomes humanos) para maior confusão e ainda pela "pedagogia do sucesso absoluto, virtual" que da pedagogia só tem a ausência da mesma. Na peugada desta crise que dizem financeira virá outra bem mais grave que pode chamar-se crise da memória, transformando os homens numa espécie de "zumbis" errantes, sem vontade, sem rumo, sem futuro porque perderam a memória e desconhecem o passado e, sem passado não há futuro, penso que o futuro é simplesmente o constante reencontro do passado com o presente e isto só é possível porque há memória. Não consigo imaginar o futuro sem passado (fluir constante do presente).

Isto é parte, do que resultou da reflexão sobre "o incêndio da memória" é essencialmente nas letras que encontramos o que é nosso e particularmente humano.

Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Carlos Rebola,
Caro amigo:
Ontem afoitei-me a pegar num jornal, o «Público». E li-o com prazer devido a uma crónica de Paulo Varela Gomes. Trouxe-nos esta rica memória: recordou Karl Marx que em Junho de 1853 decidiu aprender persa em três semanas e gramática em dois dias. O homem, viajado e convivente, lia e escrevia milhares de folhas em dezenas de línguas!
A propósito, Varela Gomes lembra que na Europa do séc. XIX (e um tanto também nos os dois séculos anteriores) havia bastantes inteligências análogas, «gente com uma tal capacidade de trabalho e amplitude de interesses que muitas vezes me tenho perguntado o que é que se passou a seguir na história do espírito humano»...
Pois é, amigo, vamo-nos perguntando e estranhando, talvez a caminho de sentir saudades do séc. XIX e de espíritos poderosos como o de Marx!
Entretanto, aqui tem o meu abraço agradecido.

Carlos Braga disse...

É um facto: há cada vez menos "bombeiros" a combater o "incêndio da memória". Poucos se dão conta da importância da memória como factor de identificação humana. É ela que permite saber de onde vimos, mergulhar nas raízes. É na memória social que as comunidades se identificam e reencontram. Não sendo estática, ela procura conjugar o que a tradição instituiu com as inovações que o nosso presente lega ao futuro. Um projecto cultural inovador não estabelece apenas pontes com o passado: recupera-o para um futuro que já não será igual, mas necessariamente metamorfoseado.
Os que por incúria, ou pela mais opaca insensibilidade cultural, nada fazem para evitar o rompimento com o passado, são os coveiros do nosso património cultural: atiram desdenhosamente ao rio do esquecimento os tesouros que tinham obrigação de preservar. Ao promoverem o triunfo do esquecimento, são os verdadeiros pirómanos da memória.