terça-feira, 25 de novembro de 2008

Junto sinais e leio...

Pertenço ao tempo em que uma empresa, onde surgia, era tida em geral consideração. Produzia, gerava riqueza, expandia os empregos. Digo que pertenço a tal tempo mas deveria dizer também que nessa pertença me honro.
Declaro-me fora do tempo presente, pois «no meu tempo» um empresário dava a cara à empresa de maneira que reciprocamente se prestigiavam. Foi o tempo do «progresso»! Hoje as empresas acima dos tamanhos pequeno ou médio não têm a cara dos donos à vista e, quanto à dimensão social que realmente a empresa assume ao surgir, estamos conversados. E dado que bastante produção industrial deixou de verter ganhos rápidos e chorudos, os antigos patrões (termo este derivado de «padrão», exemplo) agruparam-se, enriquecidos, em sociedades financeiras de investimentos e especializaram-se, já não em produzir, mas em especular.
A especulação pode não produzir nada de concreto e, todavia, gerar lucros vultosos que, com um pouco de habilidade, até ficam – louvado seja deus! - isentos de impostos. Isto é sabido, estamos a rever a matéria. Mas percorreu-me a espinha um calafrio ao ler no papel, uma e outra vez, o trecho: «Verifica-se, com matéria de facto, que o sistema bancário privado é estruturalmente predador e desonesto – não serve aos interesses das sociedades em que estão implantados, serve-se delas.»
Quem conheceu o «outro» tempo, em que os banqueiros até resistiam a pôr anúncios nos jornais, vê publicidade enganosa, espanta-se e não acredita. Um depositante, tratado naquele tempo como um esmoler pelo mendigo, lê hoje que o que os bancos querem é apanhar-lhe o dinheiro, espanta-se e não acredita. Paga os cheques, o cartão e as comissões, receia o custo das idas ao MB, ouve anunciar que os pensionistas mais pobres têm de pagar «manutenção de conta», espanta-se e não acredita.
O sistema financeiro de vanguarda desertou do terreno da economia real, que é por definição o da empresa clássica, para se concentrar no investimento puramente especulativo. Produzir bens reais úteis interessa cada vez menos, jogar na bolsa ou investir especulativamente (comprando algures empresas em risco, mandando administrá-las a chicote e depois abandonando-as exauridas) interessa cada vez mais. A dita «economia de casino» habita em offshores e vai estendendo os tentáculos.
Apontar, tão ao gosto de certos patrões, os níveis baixos da produtividade nacional (que aparece num quarto lugar, entre os piores), não ilude o facto de que os trabalhadores fazem o que lhes mandam. Sublinha, portanto, a escassa competência com que as empresas são administradas e não outra coisa. Mas se é verdade o que consta por aí, que já temos em Portugal uns quinze mil milionários, juntemos e interpretemos os sinais da realidade…
Talvez isso tenha a ver, por algum lado, com os níveis da desigualdade de rendimentos em Portugal, quase a rivalizar com os americanos. Pensemos então no que regista o «Finantial Times» (19-05-2008), citando um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento publicado em 2005: cinquenta das maiores fortunas do mundo ganhavam mais do que os 416 milhões de pessoas mais pobres.

2 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Esta sua crónica, em poucas palavras relata o que realmente se passa no nosso país. Mostra a dicotomia entre os trabalhadores de sempre e os patrões de agora. Aos trabalhadores chamam colaboradores, aos patrões chamam empreendedores.
No fundo amigo Arsénio, penso, porque observo, estamos perante um esclavagismo mais requintado e refinado, que se desenvolve com o apoio e cobertura de quem detém o poder, os últimos apoios à banca são eloquentes.
Podem continuar a dizer-se socialistas e ao mesmo tempo praticando o que lhe é contrário?
Parece-me escandaloso, quando dizem que não há alternativa, na verdade bastava inverter o actual paradigma de actuação e retornar ao humanismo.

O nosso país está totalmente minado por malfeitores, temos uma pequena amostra que agora veio a público e o mundo está a tornar-se numa grande bomba de fragmentação social, (416 milhões de fragmentos), falam de bolha e ela está a crescer...

Um abraço
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Carlos Rebola,
Caro amigo:

Saúdo com satisfação o seu comentário! Exprime não só a sua experiência humana, também a sua (certeira) visão do mundo. Afinal, fica a marcar o seu reaparecimento nesta coluna. Seja bem-vindo!
Abraço apertado.