quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Não há mais Histórias da Literatura

Viver com os livros, não apenas tê-los em casa ou abri-los por desfastio. Amar a Literatura - feita de estreme poesia - por nela sentir o latejar da vida toda. Há gente assim, aberta para o mundo das Letras como para um outro céu azul recamado de estrelas fulgentes.
Essa gente habituou-se às Histórias da Literatura. Cada país, mais do que cada língua, não as dispensou no curso do tempo. Periodicamente, um autor habilitado empreendia a tarefa. Em Portugal, os últimos foram, que me lembre, Albino Forjaz de Sampaio, Fidelino de Figueiredo, António José Saraiva e Oscar Lopes.
As suas «Histórias» evocam o dealbar da nossa Literatura, as correntes e os movimentos estéticos-literários que se seguiram, os autores em evidência em cada período, as singularidades e os valores intrínsecos assumidos por cada mutação sociocultural. De certo modo, ao arrumarem por categorias os grupos literários e as individualidades, os historiadores como que deixavam desenhado no terreno os caminhos seguidos pela criação literária. Ao distinguir ou a separar, uniam e tornavam coerente o quadro da evolução nacional.
Recuados para além da linha da recepção (que se pronuncia sobre os livros recém-publicados), os historiadores podiam estabelecer com maior segurança as suas perspectivas críticas. O mérito dessas obras contribuía para alicerçar autênticos prestígios e elevar em glória uma obra e um nome. O público leitor era informado.
Mas há quantos anos não se vê aparecer uma nova História da Literatura Portuguesa? Conclusão: a maré não vai boa para este género historiográfico. Alíás, ter-se-á extinguido mesmo o lugar de onde surgia. Apenas parece restar espaço para uma sociologia dos consumos.
De facto, terminaram as escolas, os movimentos de vanguarda, as correntes regidas por uma determinada consigna. Deixou, portanto, de existir na realidade aquela substância que servia ao historiógrafo para distinguir um de outro período. Desde há uns trinta anos, aproximadamente, há, sim, apenas uma literatura de autores individuais não assimiláveis entre si.
Viável, nesta situação, é a elaboração de dicionários de autores, obras estas que têm vindo a sair com alguma frequência. A obra de Oscar Lopes e António José Saraiva apenas a vejo em reedição, por sinal cada vez mais rara. O público leitor arreda-se de especificações críticas que foram apaixonantes: o neo-realismo, o presencismo psicologista, o visualismo do novo romance, o realismo naturalista, o parnasianismo…
Ocorreu realmente uma mudança decisiva. Os livros banalizaram-se, transformados que foram em objectos de comércio. Publicam-se agora num mês tantos títulos como antes na roda de um ano. E já quase ninguém faz crítica regular nos jornais. Mas é possível agora ganhar bom dinheiro com a literatura na condição de se ganhar o mercado e, para isso, basta ter o rosto nos ecrãs e nas páginas da imprensa. Proliferam, portanto, os autores que escrevem para vender, de mão guiada pelo manual da «escrita criativa», e que os leitores consomem como se não houvesse mais nada!

2 comentários:

Carlos Braga disse...

Hoje, quase ninguém valoriza ter em casa uma História da Literatura. Há umas dezenas de anos, não ter essa obra deixava ao amante da leitura a mesma sensação que tem um fumador inveterado quando se vê privado do maço de tabaco que lhe alimenta o vício. Porquê esta mudança tão brusca? Talvez porque o imediatismo e a urgência ritmem cada vez mais as nossas vidas, desvalorizando o livro e a leitura, que exige tempo, reflexão, paciência (é tal o gosto pela velocidade que alguns até já dizem que a paciência é reaccionária!...). Continuar a ler, de forma metódica e paciente, será então uma forma de levar a cabo uma espécie de repulsa pelo mundo presente. Os bons livros indisciplinam as almas e talvez seja por isso que os que mais vendem são os que promovem a evasão às agruras do quotidiano e os consensos moles.
Folheei em tempos uma belíssima História da Literatura Portuguesa Ilustrada, anterior à de Saraiva e Óscar Lopes, talvez de Albino Forjaz de Sampaio. Consulto com alguma regularidade a primeira, já um tanto delida pelo tempo. Mas é ainda lá que encontro bem vincada a percepção do cultivo da nossa língua com fins estéticos e culturais e aprendo a conhecer melhor as diferentes escolas, gerações e movimentos que animaram a vida cultural portuguesa das décadas mais recentes e dos séculos anteriores.

Arsénio Mota disse...

Carlos Braga,
meu caro amigo:
Mais uma vez me felicito por o ter por cá - é, de resto, o único comentador actual que me resta! Mas felicito-me tanto mais porque... Agora ficaram-me os olhos naquelas suas frases, tão agudas e certeiras: «Continuar a ler, de forma metódica e paciente, será então uma forma de levar a cabo uma espécie de repulsa pelo mundo presente. Os bons livros indisciplinam as almas»..., etc.
Amigo Carlos, mais uma vez me honra deveras tê-lo comigo neste cantinho. Bela companhia!