segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O cronista cede o lugar

Nas circulações do correio electrónico cruzam-se mensagens reencaminhadas com anexos os mais diversos. Chegou-me agora um, apenas com texto, que me surpreendeu. Decidi inactivar as mãos. Hoje o cronista cede o lugar a quem, no anonimato, escreve assim. Omito apenas trechos iniciais do texto intitulado País:

«Um jovem de 18 anos recebe 200 euros do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma 236 depois de toda uma vida do trabalho.
O mesmo fisco que penhora indevidamente o salário de um trabalhador demora três anos a corrigir o erro.
Um professor é sovado por um aluno e o Governo diz que a culpa é das causas sociais.
O café da esquina fechou porque não tinha wc para homens, mulheres e empregados. No Fórum Montijo a wc da Pizza Hut fica a 100 mts e não tem lava-mãos.
O Governo incentiva as pessoas a procurarem energias alternativas e depois multa quem coloca óleo vegetal nos carros porque não paga imposto sobre produtos petrolíferos.
Nas prisões distribuem gratuitamente seringas por causa do HIV, mas é proibido consumir droga nas prisões!
Um jovem de 14 anos que mata um adulto não tem idade para ir a tribunal. Um jovem de 15 leva um chapada do pai por ter roubado dinheiro para droga e é violência doméstica!
Uma família a quem a casa ruiu e sem dinheiro para comprar outra, o Estado não tem dinheiro para fazer uma nova, vai viver conforme pode. Seis presos que mataram e violaram idosos vivem numa cela de quatro sem wc privado, não estão a viver condignamente e a associação de Direitos Humanos faz queixa ao Tribunal Europeu.
Militares que combateram em África a mando do Governo da época na defesa de território nacional não têm reconhecida nenhuma causa ou direito de guerra, mas o primeiro-ministro elogia as tropas que estão em defesa da pátria no Kosovo, Afeganistão e Iraque.
Começas a descontar em Janeiro o IRS e só vais receber o excesso em Agosto do ano que vem; não pagas às Finanças a tempo e passado um dia já estás a pagar juros.
Fechas a janela da tua varanda e estás a fazer uma obra ilegal; constrói-se um bairro de lata e ninguém vê.
Se o teu filho não tem cabeça para a escola e com 14 anos o pões a trabalhar contigo num oficio respeitável, é exploração do trabalho infantil; se és artista e o teu filho com sete anos participa em gravações de telenovelas 8 horas por dia ou mais, a criança tem muito talento, sai ao pai ou à mãe!
Numa farmácia pagas 0.50€ por uma seringa que se usa para dar um medicamento a uma criança. Se fosse drogada, não pagava nada!
E agora?! Sim, eu sei, vais voltar a olhar para o teu umbigo e dizer que tudo está bem; se disseres que está mal, que pensas fazer?! Deixar que os outros resolvam por ti?! Então mereces tudo isto em dobro.
Mexe-te, grita, mostra a tua indignação e luta. Ou em breve poderás estar tu e os teus dentro destas estatísticas e o teu vizinho fará como tu: olhará para o lado.»

4 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,
para analisar todas estas questões seria preciso um livro, portanto vou tentar dar a minha opinião bem resumida.
Penso já ter lido esta mensagem, ou pelo menos uma com parte destes casos e é óbvio que existem situações ridículas e revoltantes. As situações difíceis de resolver deixam-se estar e aquilo que é simples trata-se de se complicar. Em vários casos, usa-se a palavra progresso para acabar num retrocesso civilizacional.
O pior é que não vejo as novas gerações a serem educadas para dar uma resposta à actual situação da nossa sociedade. No entanto, e no mínimo, há que ter forças para não baixar os braços e no raio de acção do dia-a-dia das pessoas integras e patriotas tentar dar o exemplo. Há que ter motivação e buscar forças onde já parecem não haver.

Cumprimentos

Carlos Braga disse...

Se há textos que nos interpelam, este é um deles. Não é difícil concordar, na generalidade, com os casos apresentados, embora cada um deles mereça reflexão mais aturada. Apenas um exemplo: "Um jovem de 18 anos recebe 200 do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma 236 depois de toda uma vida de trabalho". O "escândalo", aqui, não é o jovem receber, é o idoso que trabalhou toda a vida receber pouco mais do que ele. O mau estar causado pelo subsídio é velho de séculos. Só que, os que se indignam quando o Estado dá o mínimo dos mínimos, costumam omitir que há empresas e particulares que ludibriam diariamente esse mesmo Estado, não se escandalizam que os agricultores recebam subsídios para estar parados, ou que alguns construtores civis enriqueçam alagados em corrupção. Sob este ponto de vista, a obsessão com o subsídio dos pobres é quase pornográfica.
Perante as situações que o texto refere, e que são o barómetro da "modernidade" de um país, que fazer? Uns desistem, porque se cansaram de lutar; outros isolam-se no seu cantinho, julgando que não vale a pena, que ninguém os ouve. O que resta? Meia dúzia de resistentes, uma espécie de quixotes líricos a espadeirar em defesa da ética, a qual pressupõe uma conduta decente entre os seres humanos. Enfim, o pior que nos pode acontecer é esperar que toquem nos nossos direitos para então, sim, gritarmos alto e a bom som que o rei vai nu...

Arsénio Mota disse...

O cronista existe para observar o seu lugar e o seu tempo. Ora, o que circula na Net, hoje, lembra-me algo como papéis soltos a voar na rua. Então eu como que peguei num deles: amachucado, meio sujo (carecido de algumas emendas), talvez já quase lixo, pareceu-me merecedor de atenção. Recuperei-o como quem livra da montureira um texto digno. E foi assim...
Caros amigos, congratulo-me com os vossos comentários! Mais, decerto, do que se tivesse sido eu o redactor do texto!
Muito obrigado a Fernando Sosa e Carlos Braga.

Oscar de Lis disse...

Com efeito, as situações propostas dão para refletirmos mais uma vez... se é que não formos como diz C. Braga: dos que desistem. F. Sosa queixa-se de as novas gerações não estarem a ser formadas contra esse sistema. Acharia mesmo muito estranho que isso acontecesse. Antes bem, o normal, vindo a educação desse sistema, é que ela seja como é. O nosso trabalho, porém, é de resistência (quixotesca), de informação constante e de leitura crítica desses textos perdidos. Sem dúvida, há uma poética certa nisso do cronista a apanhar as mensagens que outros deixaram.