domingo, 9 de novembro de 2008

Um soco no estômago

E foi assim: inesperado e violento. Veio o golpe de um congresso de panificadores hoje reunido, onde se anunciou o encerramento de duas mil padarias e o despedimento de uns dez mil empregados. Escasseia, no país, o pão!
O pãozinho, alimento elementar e por isso também simbólico! O pãozinho, que é a última coisa a faltar à mesa dos mais pobres! A refeição completa dos desgraçados sem conduto, adquirido com o dinheiro último que reste no bolso!
Ontem, na minha terra natal (algo suburbana mas ainda aldeã), já me deixara estarrecido a senhora do atendimento. Queixou-se de que vendia menos pão. A viatura da distribuição saía menos e ao balcão acudiam poucos fregueses a comprar menos, quando antes deitavam ao lixo pão de sobra. E a senhora contou: vendo o gesto, ia tirar o pão velho dos contentores e dava-o às suas galinhas, mas agora não há mais sobras…
Pois sim, o pão ficou mais caro recentemente e a carestia tornou-se geral no meio da crise declarada. Mas o pão, senhores?! O pãozinho que só as bocas famélicas sabem de sabor tão doce e aromático?!
É preciso ânimo para reconhecer: onde escasseia o pão, há fome.
Fome!
Os panificadores em congresso, querendo salvar o negócio, pediram medidas de apoio ao Governo. Têm voz. Mas estão a fechar as padarias, a multiplicar-se os desempregados, e aí temos em crescendo os sem-abrigo, a multidão a engrossar às portas humanitárias das sopas quentes. E estes muitos não têm voz, o Governo sabe-o: ocupados como andam a procurar nos restos a sobrevivência, nem ouvem já quem fala no alto.
Todavia, é neste ponto que se ilumina e decide a relação que cada governante e cada cidadão concreto estabelece de facto com cada outro ser humano. Como se, por exemplo, uma pessoa é ou não capaz de mastigar a sua comida com indiferença vendo ao lado alguém a rilhar fome. Acresce que a pessoa abastecida com comida até pode sentir-se em grande unção religiosa.
Na verdade, há quem, rodeado por muralhas de egoísmo, não se importe com o Outro. E pode erguer as mãos, bater no peito e dar esmola se possível para obras pias. Mas, e os governantes, senhores?! Os governantes têm por obrigação funcional prover de segurança a comunidade constituída por todos.
Ora, nesta comunidade, estão a alastrar à vista negras manchas de fome. A segurança alimentar antecipa todas as outras: da saúde, da habitação, etc. Que resposta dão os governantes à fome que se expande?
Para quem queira ver, a resposta é clara. As desigualdades são cada vez mais gritantes e mesmo terríveis. Os problemas sociais agravam-se dramaticamente. Uma parte da sociedade parece em condições de vir a perecer, condenada do alto.
Civilização, isto? Coesão nacional, isto? A pessoa com fibra humana, o simples cidadão, destaca-se nesta situação do conjunto de quantos vão na onda amontoando riqueza ou consumindo freneticamente sem olhar para o lado.

3 comentários:

Carlos Braga disse...

Caro Amigo:
Fez bem em recordar-nos que o pão continua a ser o principal alimento da pobreza que ainda não conseguimos erradicar. Isto num tempo em que cada vez há mais gente sem comida, ou sem dinheiro para a comprar. É o regresso de Malthus, com a população a crescer em progressão geométrica e a alimentação apenas em progressão aritmética.
O aumento do preço dos cereais está a deixar a população mais vulnerável à beira da fome. As causas são conhecidas: a utilização do milho americano para produzir biocombustíveis e a crescente procura (legítima) de cereais para a alimentação das economias em desenvolvimento.
Não é possível acalmar (enganar) sempre as populações com demagogias do tipo: Alegremo-nos! Pode faltar o pão na mesa dos mais necessitados, mas que importa isso se temos transportes de luxo, pontes e aeroportos modernaços?...
Não ter um naco de pão para comer pode semear a revolta. Mais pão e menos circo - eis do que todos andamos precisados.

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,
o meu comentário é simples e sincero: por mais argumentos que se possam usar, o facto é que as disparidades em Portugal continuam a aumentar. Horroriza-me a visão de na nossa pátria a distância entre os mais ricos e os mais pobres ser semelhante à existente nos EUA. Se o pão começa a faltar a situação é realmente catastrófica.
Pedem-se medidas urgentes!

Cumprimentos

Arsénio Mota disse...

Saúdo com agradecimento os dois comentários acima e os seus autores. É excelente a companhia que me proporcionam.
Ainda dorido do tal soco no estômago, gostaria de poder ter fôlego para dizer algo sobre a cotação internacional do trigo e uma eventual quebra das produções agrícolas em certos continentes (América, Europa e África). Lembrar p. ex. que «ofertas» de alimentos a países africanos, incluindo sementes (por vezes com mistura de OGMs!), têm tido o resultado (premeditado) de paralisar as agriculturas de autoabastecimento, tornando-as dependentes de importações. Mas também em Portugal não tem havido e não há «ajudas» para não produzirmos batatas, hortaliças, frutas, leite, vinhos, azeite, cortiça, tudo muito bem contingentado? E as pescas?! Sabemos ou não por que motivo a agricultura nacional está arruinada?
Termino dizendo que é estúpido, além de antieconómico, pôr um terreno a produzir alimentos e aplicá-los depois na produção de biodiesel. Temos a biomassa, aproveitemo-la para tal fim!