sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

«Economês» confunde economia

Ressoou pelos quatro cantos a frase famosa: «É a economia, estúpido!» Martelada que foi, entrou nos ouvidos e ficou nas memórias a significar que a coisa mencionada seria tão óbvia e tão indiscutível quanto o pôr-do-sol ou a marcha imparável do tempo. Assim se impôs uma economia a valer por si mesma qual soma aritmética, ou seja, sem outra relação lógica que não fosse consigo mesma.
Mas não será isto «economês» balofo e corriqueiro? Será possível, na verdade, que esta economia nada tenha a ver com as consequências que provoca nos planos social e moral? Pode a economia, colocada no próprio lugar do seu funcionamento, ser amoral… ou imoral?
Um artigo de José Castro Caldas, intitulado «A impossibilidade de uma economia amoral» («Le Monde Diplomatique», edição portuguesa, Dez. 2008, p. 2), lança a questão numa surpreendente abordagem que as mentes adormecidas deveriam ler para espevitar. Com efeito, aquele investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra demonstra algo que está à vista e, todavia, continua invisível.
Cito dois trechos: «a crise do capitalismo que estamos a viver é uma crise moral. A crise de uma economia que se pensou a si mesma como nem moral nem imoral, mas antes amoral e que foi sendo politicamente construída à luz desse pressuposto.» «Esta sociedade, ou melhor, este projecto de sociedade, é o que se encontra em crise. Essa crise é, antes de tudo o mais, moral: principia no não-reconhecimento das obrigações e da gratidão mútua.»
José Castro Caldas lembra duas obras de Adam Smith, a Riqueza das Nações, clássica, e a muito menos lida Teoria dos Sentimentos Morais, para as comentar no ponto em foco, uma sociedade de mercadores «que empolgou muitos dos que agora clamam pela ‘moralidade’ e pelo ‘castigo dos culpados’.» Sublinha: «Os contratos são o cimento da sociedade puramente mercantil» para considerar: «Não fosse o sentido de obrigação mútua (de natureza moral) que apesar de tudo existe, os contratos nem sequer seriam concebíveis.»
Chegou-se por aí ao enfraquecimento das obrigações e gratidões mútuas, isto é, a uma sociedade de risco. «O mundo dos negócios é o domínio onde a aversão aos compromissos, ou se preferirmos a preferência pela liquidez, se manifesta de forma mais pura.» O autor liga a J. M. Keynes esta preferência pela liquidez, o designado «dinheiro vivo», que se exprime nos mercados das acções, em instabilidade sistémica e agora descamba na crise financeira e em crise de confiança. O artigo conclui: «A sociedade e a economia caracterizadas pela liquidez estão tolhidas na sua capacidade de realizar projectos em conjunto, de enfrentar colectivamente problemas. Estão bloqueadas, presas numa armadilha. Em crise… moral.»
Devo pedir desculpa a José Castro Caldas pelo temerário arrojo de tentar resumir o seu texto numas poucas linhas, mas pretendi trazê-lo aos outros vossos olhares e penso que me irão agradecer. Derrama uma luz nova, reveladora de quanta manipulação afecta as inteligências, condicionando-as.

4 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

não li o artigo de José Castro Caldas, nem nenhum livro completo de Smith ou Keynes. No entanto, tentarei dar aqui a minha opinião, pensando que se encaixa no tema em questão.

Pego apenas na liquidez, pois sobre a imoralidade das instituições, mais ou menos ligadas à economia, estamos de acordo. Não é, logicamente, verdade que liquidez implique aversão ao cumprimento de compromissos. Todas as boas empresas deverão buscar liquidez e recorrendo em parte a capitais alheios, para reduzir o risco inerente ao negócio. No entanto, se quiser manter boas relações com fornecedores, instituições de crédito, investidores e trabalhadores, é necessário que cumpra os compromissos.

Muitas grandes empresas procuram financiamento nos mercados bolsistas. Isso parece-me salutar e a ideia que permitiu essa realização parece-me honesta. O problema foi o surgimento de indivíduos que em nada contribuem para a economia real e vão fazendo fortunas nos mercados financeiros (ou perdendo fortunas, suas ou de outros).

Espero não ter fugido ao âmago da questão.

Cumprimentos.

Arsénio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

Não fugiu à questão e mais, concordo inteiramente com o que diz. Mas permita-me sugerir-lhe a leitura integral do artigo citado, caso lhe seja possível fazê-la, pois a considero «correctora» de uma certa mentalidade instalada. Claro, Fernando Sosa aponta para, digamos assim, o princípio (correcto); o artigo e toda a situação actual apresenta-nos uma deriva (descambada).
É este resultado que está em foco. Admito contudo que o essencial da questão em debate ainda não transpareça claramente. Tornarei!
Agradeço o contribuo que traz e cumprimento-o.

Anónimo disse...

Olá, Arsénio
Conseguiu “assustar-me” com a nota do seu post anterior :“o blog iria adormecer” e, pior, “definitivamente”???
Embora há muito não deixe aqui comentários, tenho por costume “espreitar” os seus belíssimos e propositados textos.

Fico contente por ainda o ter encontrado nos meus “favoritos” . É que estes não sofrem/sofrerão alteração, pelo menos enquanto conseguir impedir que “a inteligência seja manipulada e, como tal, condicionada”, apesar de todas as “armadilhas” …
Um beijinho
Manuela

Arsénio Mota disse...

Manuela,
Cara amiga:

Que bom encontrá-la de volta! Muito obrigado por isso e também pela simpatia tão gratificante que transborda das suas palavras!
Como poderia eu parar «definitivamente» este blogue, onde tenho companhias destas? Foi decerto coisa momentânea, pelo menos até ver...
Outro beijinho, Manuela, e volte sempre!