domingo, 7 de dezembro de 2008

Monstruosidades vulgares

As monstruosidades impressionam, causam horror e pânico. Mas existem monstruosidades de vário tipo. Se forem de tipo vulgar, isto é, se se repetem, tornam-se um tanto habituais: como que perdem a malignidade e transformam-se em meros aleijões familiares.
Assim aconteceu outrora com a escravatura, a segregação racial, a pirataria, o canibalismo, a tirania do forte sobre o mais fraco, os atentados contra a criança e a mulher, a desumanidade em todas as suas formas. Entramos neste esplendoroso século XXI cheio de civilização, riquezas e tecnologias, a proclamar orgulhosos «direitos humanos», e que acontece? Somos informados que há gente a trabalhar escravizada, a segregação étnica continua, há piratas a assaltar navios e a fazer reféns, canibais matam e comem em orgias de superstição, crianças e mulheres são caça apetecida inclusive para exploração sexual, a força maior ainda aplica as mais brutais formas de exploração do homem lobo do homem!
Somos informados e no entanto quantos de nós sabem ou querem saber? Quem advertiu, por exemplo, a emenda das frases que no «Pai nosso» cristão aludiam a dívidas e devedores, motivo antigo de escravização? As monstruosidades estendem-se pelo mundo nas agonias do nosso tempo, banalizam-se pela multiplicação, mas nunca deixam de ser monstruosas, de causar pânico e horror.
A crise mais dramática no nosso tempo concentra-se precisamente no ponto em que verdadeiras monstruosidades se tornam vulgares, não por serem leves ou pequenas, mas porque são apenas… vulgares («normais», frequentes). Parece que as multidões se vergam a tolerar o intolerável, resignando-se a uma qualquer fatalidade imaginária que inalam, como um veneno, neste ambiente. É, porém, à relação do homem com os outros homens que devemos regressar para reencontrarmos o diapasão, a pedra de toque de tudo o que é determinante no tecido limpo das relações sociais.
A atitude como cada pessoa encara e trata uma outra e toda a gente reflecte o estofo da sua própria humanidade e, por aí, a sua ideologia, o pulsar da sua opção cívica e política. Não é possível estar de barriga cheia e contente ao lado de quem, perto ou longe, sucumbe de fome. Ninguém pode, sem grave contradição, ser de esquerda e apoiar hoje uma (des)governação de direita que dizima as classes médias.
Monstruosidades vulgares giram hoje no carrossel que põe a desfilar os basbaques de gesso defensores da democracia política, esquecendo, porém, que tal democracia, esvaída dos seus conteúdos económico e cultural socialmente humanizados, vale pouco menos que nada assim reduzida a figura de retórica. Um problema, no entanto, subsiste: alguém poderá viver bem e sentir-se em segurança neste mundo escalavrado que acumula tensões e contradições explosivas? Ainda que se distancie das multidões, metido dentro de espessas muralhas?
Um bom e velho amigo em visita, há poucos dias, deixou-me envolvido nestas reflexões. Alinha na «esquerda», aplaude a terceira via, mas declarou-me «de esquerda» aos seus acompanhantes. Nenhum de nós, porém, vai rodear-se de muralhas…

12 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

mais um post brilhantemente infeliz. Brilhante pelo sentido de responsabilidade e forma fluida como caracteriza a problemática; infeliz por ser a realidade que nos envolve.

Não me revendo na direita, nem na esquerda, nem sequer ao centro - apenas acredito no que deve ou não ser feito -, concordo que a actual governação, tanto portuguesa como do Ocidente em geral, em pouco ou nada contribui para a equidade económica e social do seu povo e da população mundial em geral. Precisamos de uma nova classe política que em nada tenha que ver com esta. Precisamos de uma nova classe empresarial que não olhe estritamente para os lucros. Precisamos de um povo que não olhe apenas para o seu umbigo. Precisamos de uma nova classe de cidadãos em geral...


Cumprimentos.

Carlos Rebola disse...

Caro Arsénio Mota

Parece-me que o mundo está envolto numa nuvem de pó, saída de gabinetes onde astutos estudiosos e "sábios" a produzem e lançada aos nossos olhos pelos ilusionistas das realidades sociais e humanas, precisamos sacudir o pó para verificarmos, que refinaram aquilo que pensávamos estar banido, a escravidão, (exploração máxima, retribuição mínima), a pirataria (assalto constante aos bens de cada um), segregação étnica (para ela já não é preciso pertencer a qualquer etnia, basta não pertencer ao "clube"), canibalismo (podem não comer a carne mas sugam a vida), exploração sexual (certa publicidade não faz outra coisa, para todos), etc. Parece-me que falta a prática duma ideologia, que sirva a humanidade. A frase, católica? "Não faças aos outros o que não desejas para ti" é um convite à passividade, ao conformismo, que leva a considerar normal o que não fazemos. Deveria ser substituída pela seguinte "Faz aos outros o que desejas para ti" esta budista? Convida à acção e deveria ser praticada.
Tenho esperança que um dia a humanidade toda vai ser realmente humana, talvez com enorme sofrimento, porque o mundo actual está a caminhar para o insuportável e é impossível cada um viver rodeado de muralhas...

Um abraço
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

O seu comentário parece-me tão certeiro que o acho lapidar. Mas eu, não me revendo no centro nem na direita, por vezes até sou tido por de esquerda na esquerda. Julgo que isso deriva das conjunturas actuais, que estão a levantar problemas colossais novos. É preciso encontrar respostas rápidas e eficazes para esses problemas. Questão em aberto: poderão os governos ocidentais transferir para os respectivos Estados, como dívida pública (a pagar pelos impostos) os custos dos créditos tóxicos que estão a assumir nas entidades financeiras arruinadas? Será então um desaforo histórico. E vão os cidadãos, adormecidos, concordar?!
Claro, estamos todos fartos de diagnósticos bem feitos, queremos remédios, soluções. E onde estão? Aliás, também eu não tenho partido ou pretendo desenvolver qualquer tipo de militância, tal como vários elementos desta nossa pequena comunidade virtual que conheço de perto. Em toda a minha vida, por sinal, tive partido apenas uns meses no período louco do 25 de Abril e fiquei escarmentado.
Muito mais, e de importância, haveria a considerar aqui, mas terá de ficar para outra ocasião. Espero que não falte nem tarde...
Cumprimentos.

Arsénio Mota disse...

Caro Carlos Rebola:

A ideologia existe e, como vê, funciona. É esta, do consumismo, do jogo da vida, do salve-se quem puder... e quem vier atrás que feche a porta. O brilho das inteligências parece bastante empanada no mundo, brilha apenas por cima de tudo a cintilação dos interesses egoístas, quanto mais gordos e apressados melhor.
Sabemos que há lugar para a esperança, precisamos sem dúvida de a conservar, mas não acha que isso se torna cada vez mais difícil?
Abraço.

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

acho injusto que o cidadão comum tenha que pagar a gula, os erros e os vícios dos donos dos bancos, falando de forma bem clara. No entanto, o cenário de falências em cadeia de empresas financeiras é negro por demais. Assim, percebi e vi-me obrigado a concordar com as decisões de vários governos ocidentais, inclusive as decisões por cá tomadas relativamente ao BPN.
Agora, têm que ser criadas de uma vez por todas as condições que assegurem que tais erros não se repetem. Mas quando ex-membros de Governos nacionais e outros militantes socialistas ou sociais-democratas assumem continuadamente cargos em grandes empresas, financeiras ou não, sem em boa parte dos casos terem experiência profissional ou formação académica na área, é difícil de acreditar que a regulação e a transparência vão melhorar...

Cumprimentos

Arsénio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

Registo o seu comentário acima com gratidão. É esclarecedor. Mas tome sempre, é óbvio, as posições pessoais que entender em completa liberdade.
Sendo, porém, a pessoa que é, penso que percebe claramente o essencial da questão em foco: até ao ano passado, aquelas instituições geraram e distribuíram lucros fabulosos e logo a seguir ficaram sem liquidez, falidas, descobrindo-se fraudes clamorosas, desvios escandalosos das normas, etc. E tudo isso vai ficar impune? Parece que sim, e mais: quem fez as falcatruas, arruinando muita gente crédula, vai agora recebendo fundos, apoios financeiros volumosos, que vão recompor-lhes a perdida liquidez. Acontece assim o quê? Os «buracos negros» tóxicos ficam estatizados, tornam-se dívida pública e têm que ser pagos pelos contribuintes já vergados ao peso dos impostos; quem fez as falcatruas, com renovados meios financeiros e com forças restabelecidas, não precisará nem vai investir, vai limitar-se a emprestar ao Estado o que do Estado acaba de receber... e viverá cada vez melhor dos juros e da especulação.
Nunca, creio eu, se viu algo tão ostensivo, tão colossal e tão escandaloso... e vai isso consumar-se diante dos nossos olhos nos tão exemplarmente democráticos países do Ocidente?!
Desculpe(m)-me o «diálogo» e a extensão. O tema pediu-o, o momento é excepcional.
Saudações.

Fernando Sosa disse...

Bom, em síntese penso que se poderá dizer que não é o Governo que regula, antes é o próprio regulado.

Cumprimentos

Arsénio Mota disse...

Meu caro:

Direi apenas que concordo perfeitamente com o que diz, felicitando-o pela forma como o diz!
Saúdo-o cordialmente.

Anónimo disse...

Caros amigos:
Arsénio Mota, Carlos Rebola e outros:

Se recuarmos alguns anos, séculos, concluímos que, mais ou menos ciclicamente, sempre nos deparámos com períodos de crise. O importante nestas fases depressivas é aprender, reanimar, reformular, recriar, incrementar novas aprendizagens.

Como vêem, a minha perspectiva sobre o tema em causa caminha por uma via, talvez, não tão pessimista da sociedade de hoje, senão vejamos como era antes, através de alguns versos do poema “nevoeiro” da Mensagem:
(...)
“Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém sabe que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(…)
Tudo é incerto e derradeiro
Tudo é disperso nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...”

Fernando Pessoa

Poema datado de: 10.12.1928

(Há precisamente 80 anos atrás)

Um abraço para todos

João Cruz

Arsénio Mota disse...

Dou gostosamente as boas-vindas a estes Comentários ao amigo João Cruz. Finalmente!
Acha então que estamos aqui a ser demasiado «pessimistas»? Mas repare o amigo João como nota crises ao longo dos tempos e como sugere que essas crises devem ser aproveitadas, sempre, por quem as sofre, para aprender a evitá-las o mais possível no futuro, aprendendo (isto é, abrindo os olhos, analisando os factos, trocando impressões sem complexos de «pessimismo»). É o que tentamos aqui fazer com a modéstia dos nossos recursos e grande vontade de partilha.
Abraço.

Fernando Sosa disse...

Caro João Cruz,

existem crises económicas cíclicas. É um facto. Talvez conheça até bem os ciclos Kondratiev, por exemplo.
Mas o problema que aqui se coloca não é apenas económico ou de falta de esperança: Portugal está há séculos numa crise económica, cultural, educacional, etc. Este pessimismo não é novo, como podemos ver através de Fernando Pessoa e de tantos outros, mas também não é propriamente cíclico. Uns anos antes de Pessoa já os «Vencidos da Vida» se queixavam e antes de eles outros. Após Fernando Pessoa queixaram-se muitos portugueses até verem caída a ditadura – é verdade que, nos primeiros anos Salazaristas, boa parte da população acreditava de facto que Portugal estava bem entregue. Com o 25 de Abril parecia que o país ia finalmente arrancar, mas até se deu nesse ano e no seguinte uma perda de riqueza, mais concretamente ao nível do PIB. Na década de 80 já se tinha percebido que continuávamos um país longe das maiores civilizações e a década de 90 veio confirmar o quão corruptos eram os nossos Governantes.
O descrédito desses deputados que gostam de faltar sem dar justificações é hoje notícia, mas não surpreende ninguém: já todos se habituaram. Como estamos assim perante ciclos? Ou desde o fim dos tempos áureos dos Descobrimentos até hoje traduz-se apenas num ciclo? Não me parece...

Cumprimentos.

Arsénio Mota disse...

Será preciso dizer que faço minhas, por inteiro, as observações que Fernando Sosa dirige a João Cruz? Eu agradeço-lhas, desejando que o amigo João as acolha também da melhor maneira.
Cumprimento ambos cordialmente.