domingo, 14 de dezembro de 2008

Mosaico inacabado

Contei-as agora. Somei cento e trinta as crónicas editadas neste blogue iniciado em Janeiro. É altura de balanço no mês terminal do ano.
Naturalmente, cada uma das crónicas é um texto que o leitor recebe como peça autónoma, assim como um «todo». O cronista escreveu-as ao longo do ano, página a página, ora evocando as suas memórias pessoais, ora recordando peripécias e figuras com que lidou. Mas também comentou acontecimentos da actualidade e reflectiu, debateu ideias ou questionou mentalidades.
Com efeito, no meu percurso existencial, assisti ao deflagrar da Segunda Grande Guerra e ao advento da penicilina, dos motores a jacto, dos plásticos, da televisão. Acompanhei a propagação da rádio, do cinema, dos automóveis, o avanço da físico-química, da astronomia, e aguentei sob o regime de Salazar. Os anos já longos que levo de vida, todavia, não me poupam ao que sinto quando vejo recordado como História factos que para mim são «do meu tempo».
Apesar de todas as suas maravilhas, não se me afiguram ditosos os meus anos de vida. Por isso exarei a exclamação «Que tempo!» à entrada do blogue, no Limiar. Sempre trabalhei e estudei conforme pude e soube, mas isso atendeu a uma função tão vital e primária como a de respirar. As maravilhas do «meu tempo» histórico perdem-se, a meus olhos, em sombras e negrumes que certos discursos apontam como a falência geral do progresso moral perante o progresso técnico.
Esta perda, pela obnubilação, tem vindo a aumentar dramaticamente. Sinto com pungente nitidez que não estava preparado para viver num ambiente social deste género. Por supor que mereceria melhor sorte na fase última da existência? Ignoro.
Eis o que tenho vindo a querer exprimir no conjunto destas crónicas. Gostaria que, depois de terem sido lidas uma a uma, possam agora, a outro nível, serem percebidas como uma espécie de mosaico. É mosaico mental composto pela agregação das peças com formas e tonalidades diversas, mas de tamanho quase regular como numa calçada à portuguesa. Que a visão lúcida do leitor ilumine o conjunto!
Eu julgo que em cada pessoa pode conter-se um universo e que cada pessoa, ao exprimir-se, poderá exprimi-lo o mais possível, trazendo-o para a luz. O «meu tempo», vivido no meu lugar, tem sido marcado por vivências talvez sem adequado registo. Ora o cronista tem por função o papel de testemunha e de espectactor. Aqui deixa o juízo do seu tempo no tempo do juízo, narrando: E foi assim…

7 comentários:

Carlos Rebola disse...

Caro Arsénio Mota

Só uma palavra me ocorre por estas cento e dez crónicas que vejo como outras tantas lições exemplares, OBRIGADO.

Que as suas férias no local que escolheu para as "tomar" sejam as que sempre desejou. Esperamos ansiosos o acordar deste blog ou o nascimento de outro.

Um abraço cordial e bem haja amigo Arsénio
Carlos Rebola

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

sou um leitor recente deste seu espaço. Porém, vir aqui para ler aquilo que pensa já se tornou uma rotina. Saudável, diga-se. Muitos temas e discussões interessantes e pertinentes por aqui passaram, mais do que aquelas a que pude assistir.

Saúdo-o por ter mantido este blogue com classe e distinção.


Que goze umas boas férias e que nos possamos voltar a reencontrar, ainda que de forma imaterial, a breve trecho.


Com os melhores cumprimentos,
de um admirador confesso.

Arsénio Mota disse...

Caro Carlos Rebola,
Caro Fernando Sosa:

Eu é que agradeço, e penhoradamente, a companhia que pessoas como vocês me dão! A vossa companhia é tão gratificante para mim que se me torna difícil deixar de vez este blogue.
As minhas «férias» (traduzo: as minhas evasões em crescendo) não me afastam realmente da minha cidade nem das minhas ocupações e preocupações habituais. Continuarei, portanto, a «postar» aqui alguma coisinha nova. E a visitar os vossos blogues nesta comunidade virtual habitada por pessoas escolhidas como vocês, de tão grande riqueza humana e intelectual. Valeu a pena entrar neste espaço para vos conhecer!
Creiam na minha gratidão, gratidão de companheiro (com-pan...), que jornadeia e compartilha convosco o pão (neste caso imaterial mas sempre fraterno).
Abraços cordiais.

P. S. - Ao escrever ontem a crónica, assediou-me ainda mais a ideia de que os idosos tendem a ver o mundo afundar-se num certo cataclismo apocalíptico. Bebi tal ideia de leituras juvenis, que a ligavam à subjectividade própria de quem, mais ou menos, sente a vida a esvair-se. Isto é, a subjectividade dos idosos. Confesso, escrevi aquelas linhas de pé atrás, vigiando. De facto. não receio apocalipses e, quanto a mim, entidade efémera, estou aqui de passagem, sei-o perfeitamente.

Manel disse...

Amigo Arsénio,
Usa o teu tempo.
Um abraço
Manel

Carlos Braga disse...

Caro Amigo:
Quem, de bom senso, pode questionar o seu "direito à preguiça", ou até, se lhe apetecer, ao ócio permanente?
Resta uma esperança aos que gostam de o ler: sabendo que o tempo livre é propício à criatividade, acreditam que com maior ou menor intermitência vão continuar a saborear a sua prosa de aparo rijo e ideias sumarentas. Sabemos que o seu novo retiro portuense nada se assemelha à retirada de Herculano para Vale de Lobos, ou ao desânimo que se abateu sobre os "vencidos da vida".
Não o queremos empalhado ou com asas de granito. Quem tanto se despojou e deu aos outros pela escrita, há-de por certo continuar vigilante e de consciência eriçada face aos desconcertos do mundo.
Mentiria se não dissesse que sentimos já uma pontinha de saudade. Mas como dizia Mário Sacramento, também a saudade é uma força, se projecta no futuro uma esperança.
A esperança é continuar a tê-lo no nosso convívio, ajudando-nos a esbarrondar fronteiras, a contornar inseguranças e medos que caracterizam as sociedades de risco em que nos cabe viver.
Deixo-lhe o abraço apertado de sempre.

Arsénio Mota disse...

Manel,
Carlos Braga,
Meus caros:

Sentir-me rodeado por amigos como todos vocês é privilégio raro! Aquece-me como um sangue novo... mas fico de língua entaramelada, sem poder dizer-vos quanto vos agradeço (avaliando bem o tamanho da vossa generosidade)!
Amigo Manel, obrigado pela compreensão.
Amigo Carlos, apreciei especialmente aquela do «não o queremos empalhado nem com asas de granito» e a citação do nosso saudoso Mário Sacramento. Prometo (sobretudo a mim mesmo) não desertar daqui. Já me correm formigueiros pela mão cronística, em breve vou pô-la a mexer...
Abraços.

Anónimo disse...

Caro Amigo, Arsénio Mota:

Já estamos todos com saudades e ainda nem sequer partiu.
Pela experiência que temos, a escrita é para si, como para muitos de
nós (quase) uma necessidade básica. Pode deixar de comer? Pois então...
Num dos seus livros, Saramago dizia: "não temos pressa, mas não
percamos tempo".
Goze bem as merecidas férias. Entretanto, por este ou por outro meio,
não deixe de nos brindar com as suas iguarias literárias.
Um abraço de,
João Cruz