terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O mundo sob terror

É facto indesmentível, percorre o mundo um vento soprado pela boca da insânia. Os atentados ocorridos há dias na cidade indiana de Bombaim parece que levaram até mais longe as previsões do pior que está por vir no processo desta desregulação global permanente. A violência assume sem vacilar as formas da brutalidade de uns quantos que entram em desespero no estertor de qualquer esperança.
A brutalidade daqueles ataques foi pasto de televisões, jornais e rádios durante dias. Encheram-se de ecos os continentes com cenas da destruição, contagens de mortos e de feridos. Duas palavras foram marteladas no ar: muçulmanos, terroristas.
Mas outra palavra, a terceira, sobressaiu inevitavelmente: aquela violência atingiu inocentes. E poderiam acaso não ser inocentes os atingidos, fossem turistas ou indianos? E, todavia, quem leu Jean-Paul Sartre do tempo da guerra na Argélia, colónia francesa em luta pela independência, pôde compreender que ninguém, e não apenas em França, era «inocente».
Os Franceses beneficiavam da exploração da colónia, bebiam do seu vinho e etc., teriam dificuldade em provar que o nível de rendimento nacional não lhe devia nada. Logo, como poderiam sentir-se «inocentes»? Alguém, ontem ou hoje, num mundo assim, terá a ilusão de estar verdadeiramente «de fora»?
O meu computador tem componentes feitos na Ásia e no Extremo Oriente, ao almoço comi laranjas do Chile e nas lojas vejo sapatos, vestuários, etc. vindos das cinco partidas, entro em casas com soalho de madeira africana… E o ouro negro, o petróleo da energia que povos ricos extraem com tanta violência, vem de onde? Eu, como toda a gente, sou culpado e tenho consciência disso.
Culpado serei, porém, bem menos do que a equipa governante, com George W. Bush à frente, que ordenou a invasão de um país indefeso, o Iraque, onde talvez um milhão de pessoas já tenham sido mortas, entre crianças, mulheres e velhos, e vários milhões de habitantes enxotados para o exílio. Um crime de guerra a somar a outros, praticados na Palestina invadida e ocupada à força de armas e sangue, no Afeganistão, no Kosovo, no Darfur, no Zaire (Congo)… Crimes colossais sem responsáveis, sem julgamentos, para esquecer.
Nos ecrãs das televisões do mundo dito «civilizado» e nos nossos olhos ficam apenas as imagens da violência exercida por muçulmanos de esperança completamente perdida, os designados «terroristas». Armaram-se e lutaram às cegas com o sacrifício supremo da própria vida e ficam como bárbaros fanáticos para quantos, amolecidos de carácter, seriam incapazes de bem menor sacrifício. E quem lembra onde estão a morar os piores terroristas, as maiores ameaças da paz e da segurança?
A cobertura mediática de tais acontecimentos limpa cuidadosamente as nossas consciências. Tenta abafar-nos e mesmo anestesiar-nos os cérebros sob a torrente diária do que devemos conhecer e como devemos entender. Quer atordoar-nos com discursos de direitos humanos, liberdade e democracia, para deixar a rir de todos os direitos universais e à solta quem não sabe o que isso é. Até quando?!

6 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,
tem sido com muito gosto que tenho acompanhado, assim que vou podendo, o seu blogue. Hoje, ao ler este seu último post, sei que fiquei "amarrado" por tempo indefinido à escrita das suas opiniões. Embora os factos e críticas por si apontados não sejam novidade alguma para mim, ganho novo ânimo na luta pela divulgação da verdade histórica e actual. O que quero dizer é que, e como também referiu no texto, são demasiado poucos aqueles que se empenham em ver para além do sensacionalismo do jornalismo ocidental e, assim, cada vez que descubro mais uma pessoa que se esforça por defender a verdade e argumentar a favor ou como atenuante daqueles que são por cá considerados diferentes e, não raras vezes, inferiores, sinto o sangue a ser bombeado com mais vigor: é como se o círculo de ignorância e intolerância sobre tudo o que é diferente seja rompido por uma luz de discernimento e justiça.

Continuarei a caminhar na esperança de encontrar mais pessoas como o meu caro amigo, que não tenham medo de pensar, falar e saber ouvir.

Um obrigado por reconfortar o meu espírito, relembrando-me que não estou só nesta luta pelo apuramento da realidade.


Cumprimentos

Arsénio Mota disse...

Um dos resultados mais gratificantes para mim, que tenho vindo a obter graças a este blogue, é exactamente este, de encontrar neste espaço virtual pessoas como você, caro Fernando Sosa. Portanto, o que diz é perfeitamente conforme comigo, lembrando-me que hoje ainda são possíveis encontros da melhor qualidade humana e cultural entre tanto desencontro e desgarramento. Não me agradeça, pois, para não me obrigar à recíproca. E creia, creia sempre, que se os medíocres arranjam sempre fácil companhia, também a nós outros boa companhia não nos falta! Temos é de abrir os olhos e porfiar. Ninguém está sozinho... e, vejamos, continuamos vivos!

Carlos Braga disse...

Nada quero acrescentar ao texto de Arsénio Mota e ao comentário de Fernando Sosa. Ambos me tocaram muito e em ambos me revejo. Cada vez aprecio mais a independência de espírito (onde incluo os que de mim discordam), a recusa em integrar claques de pensamento domesticado, onde todos acenam com a cabeça, como os burros. Cada vez prezo mais os que se apartam do rebanho de basbaques formatados pelos media, ou da cegueira das ideologias. A luta pelo reconhecimento de identidades, não considerando como inferior aquilo que apenas é diferente, também se faz com textos destes, fundados em conceitos de justiça e numa teoria dos direitos dos grupos minoritários. Episódios como o da violência em Bombaim lembram-me sempre o belíssimo poema de Brecht: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento./Mas ninguém diz violentas/As margens que o comprimem".
Só não vos agradeço os textos, porque não me parece legítimo agradecer o civismo, que é, afinal, um dever de cada um para com todos.

Arsénio Mota disse...

A máxima singeleza pode ser eloquente. Apenas digo: caro Carlos Braga, deixe-me agradecer pelo menos a bela e reconfortante companhia em que nos deixa!

Fernando Sosa disse...

Nada tenho a acrescentar de novo. Apenas posso concordar com estas últimas palavras de Arsénio Mota, caro Carlos Braga.

Cumprimentos

Carlos Rebola disse...

Caro Arsénio Mota

Causa revolta, observarmos o sorriso dos "Bushes" que anunciam a todo o mundo que decidiram matar e estropiar milhares de seres humanos (calculados) na verdade são milhões. Talvez um dia a História nos condene por cumplicidade em actos terroristas, hoje ditos legais.
Estão em curso muitos crimes contra a humanidade, cujos responsáveis deveria ser julgados.
A crónica do amigo Arsénio é um contributo à consciencialização para a necessidade urgente dum "Novo Mundo", cuja potencial construção, está nas mãos dos homens e mulheres de hoje, um mundo sem violência é possível. Deste mundo assim, é verdade, todos somos culpados, somos os seus construtores (como pedreiros, serventes ou simplesmente passivos observadores).
Obrigado

Um abraço
Carlos Rebola