segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Restaure-se o social da economia!

A conclusão a extrair do post anterior é a de que o sistema económico em que estamos a viver contém o sistema moral nele implícito. Não é certo, pois, que toda a economia seja amoral, conforme José Castro Caldas bem demonstra no seu artigo. Logo, não é possível tratar as toxicidades do mundo actual sem tratar do sistema global que as gera, isto é, conseguir limpar as feridas e curar a doença sem eliminar a origem da pandemia.
A conclusão desemboca numa consequência de múltiplos alcances. Este sistema económico é profundamente marcado pela especulação financeira, actividade «económica» privada que gera lucros sem produzir bens socialmente úteis e que gosta tanto de paraísos fiscais ao ponto de os multiplicar onde lhe fazem jeito. Porém, foi por aí que entraram as desregulações todas que desencadearam esta crise – uma crise tão séria e grave que, segundo algumas predições, o capitalismo terá de sofrer grandes reformas ou vai explodir um dia na cama da sua própria insensatez.
Mas seja como for, a globalização financeira, as arremetidas das deslocalizações, a titularização de dívidas, as privatizações de serviços públicos, as portas francas das ofshores, as quebras dos PIB nas economias americana e europeias (de produtores-vendedores de bens de consumo, transformaram-se demasiado em importadoras-compradoras), e etc., derivam das estratégias seguidas pela especulação financeira. Pretende lucros rápidos e gordos, cada empresa e respectiva administração valem na medida em que podem atender ao objectivo.
Assim avançou uma mercantilização geral das relações sociais, o desemprego, o retrocesso do poder real de compra das populações, os endividamentos familiares e o afundamento das classes médias, as falências, as fraudes, a instabilidade. Deste modo, se alguém me diz que a especulação financeira vai continuar por este caminho (como o meu velho amigo A. V. G. fez, a puxar-me pela língua), eu entendo que alguém está a defender, nesta ordem de ideias, a continuação do que antecede, e também um tanto o consumismo e as agressões ao ambiente, a violência doméstica, a prostituição, a emigração forçada ou ilegal, em suma, a defender o rico e forte senhor minoritário contra os fracos - a maioria… democrática.
Na verdade, julgo que não será possível isentar a economia de uma clara dimensão social. Evidentemente, esta dimensão pode ser escamoteada ou obliterada, mas isso resultará numa perversão do sistema conducente a um universo de relações desumanizadas. Será este o sistema caracterizador da fase imperialista do capitalismo (mais acelerada concentração da riqueza, depauperação de populações, risco de uma guerra em larga escala)?
Um sistema económico, qualquer que seja, estabelece no terreno os valores da sua própria moralidade. Portanto, será imoral se o sistema se quiser imoral. Mas que valor tem afinal a sentença aqui ditada? Por outras palavras: poderá um jornalista veterano, arrimado apenas à sua cultura geral, pronunciar-se sobre economia? Talvez sim. O estado da decadência das instituições em crise pede aos cidadãos pronunciamentos corajosos e desassombrados.

4 comentários:

Anónimo disse...

Se pode pronunciar-se??? Pode e deve, sobretudo porque eu concordo com esta "sentença" :-)
Eu, que sou apenas uma cidadã cujos conhecimentos sobre economia não passam dos caseiros, também gostaria de me pronunciar. É óbvio que algo terá de mudar no sistema económico se quisermos realmente colocar em prática aquilo que apregoamos ou defendemos em nome dos direitos do Homem!
Manuela

Arsénio Mota disse...

Cara amiga Manuela:

É bom, é mesmo muito bom sentir a sua concordância e apoio! É uma cidadã de qualidade invulgar, culta e atenta (di-lo quem a conhece de longe ainda que por perto possa encontrar-se).
Já agora, deixo em explicação que estes dois últimos posts me foram suscitados pelo amigo que refiro, A. G. M. Ganha bem, algo como dez vezes a minha pensão -- faz sentido; para mais, está no sector bancário e, sabendo das nossas diferenças de opinião, escreveu-me a predizer um largo futuro para esta especulação financeira em curso. Enfim, puxou-me pela língua! Se ele quiser resposta mais esclarecedora do que o «telegrama» que lhe enviei, aqui fica...
Abraço bipartido!

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Estou plenamente de acordo com o que escreve nesta crónica.
"... o sistema económico, será imoral, se o sistema se quiser imoral". O que entendo do que vejo acontecer é que, querem o sistema imoral, porque em vez de fazerem tudo para alterar o "modelo" estão a reforçá-lo alimentando-o, reforçando-o com "injecções" daquilo que o próprio sistema é ávido, dinheiro e mais dinheiro, receio que a especulação aumente na proporção directa com que vão abolindo as conquistas sociais de várias décadas que já ultrapassam um século, veja-se por exemplo, a questão das quarenta horas de trabalho semanais (querendo aumentá-la para mais de sessenta horas), não digo dos que "trabalham" dia e noite na especulação, sem que produzam quaisquer bens, mas sim daqueles que produzem riqueza, com espírito de missão e sacrifício, que a especulação, concentra em meia dúzia de mãos, nesta fase "imperialista do capitalismo" aliás há muito prevista.
Desculpe a extensão do comentário.

Amigo Arsénio
Desejo-lhe uma boa consoada e um Natal Feliz.

Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Carlos Rebola,
Meu caro:

As sessenta horas semanais(!) não passaram, tão desmesuradas eram... e não foi graças a gente portuguesa, que simplesmente se absteve em tal matéria! Mas ficou para nós o lamiré: é gente desta que nos governa...
Obrigado pelos seus votos, que retribuo. Com abraço.