terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Como temos de pensar

Estamos a viver num admirável mundo novo! Uma legião de funcionários operosos e serviçais arregaçam as mangas e trabalham para nós vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. São como Shiva, antiga divindade indiana com inúmeros braços que, por tão maléfica e temível, inicialmente, o povo desesperado e sem esperança acabou por conceber de expressão apaziguadora.
Não precisamos mais de espremer a cachimónia, de coligir informação, de arriscar raciocínios e opiniões por conta própria. Abunda quem nos queira servir. Sentam-nos na passividade, ó gentes!
O que temos de pensar circula abundantemente, já pronto e abençoado como verdade verdadeira. O conforto que assim alcançamos é estupendo: basta-nos repetir a verdade verdadeira. Precisamos apenas de deixar-nos ir na onda, acreditando na fórmula digest que nos oferece em simplex cada questão num prático kit teórico com todos os pertences e pronto a usar.
Indicam-nos como temos de pensar canais de televisão, rádios, jornais e a multidão dos seus comentadores, opinadores, analistas, políticos mais votados, todos de palavra fácil e jorrante, que se pronunciam momento a momento sobre cada questão em termos claros, rotundos, definitivos. Orientam as nossas ideias, mal encaminhadas ou em risco de desvio. Clarificam-nos as frases que dizemos ou podemos dizer, protegendo-nos do erro.
Os próprios jornalistas, que seriam os primeiros interessados em defender o poder da informação - isto é, o debate plural - estão a reconhecer este admirável mundo novo e as suas maravilhosas comodidades. (Algumas excepções ranhosas que restem são para esquecer ou corrigir.)
Se os jornalistas falam da dureza crua do ataque israelita a Gaza, têm que referir também os rockets que de lá disparam contra «território israelita» e ponto final; o Hamas é fundamentalista, nunca por nunca Israel, que de resto o Hamas «não quer reconhecer». Se, por exemplo, têm de aludir a Hugo Chávez, devem considerá-lo esquerdista, populista e ditador, sabendo embora que foi eleito democraticamente por maioria significativa. Se têm de lembrar, com pinças, a existência da base militar norte-americana de Guantánamo esquecem o mais possível a existência, nela, da prisão com centenas de prisioneiros raptados, expatriados e ali torturados sem assistência jurídica nem culpa formada. Nações encaradas de revés pela Casa Branca, como a China Popular, a Coreia do Norte, o Irão ou Cuba, devem ser apresentadas nessa linha algo torcida… tal como a Federação Russa, organizada a seguir à queda do regime soviético, merece pouca confiança e nenhuma simpatia (senão expresso repúdio por qualquer resquício de comunismo, aberração neste glorioso tempo pós-moderno).
É notável a arrumação do mundo que desta forma se consegue. Tudo fica esclarecido, explicado, compreensível. Graças à verdade verdadeira prodigamente espalhada, podemos enfim adormecer. O Grande Irmão, vigiando-nos por todos os lados, vela por nós!

3 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Já é impossível disfarçar ou esconder que existe uma central de propaganda, "informação" a tal mítica "Shiva" de muitos braços (tentáculos) que fez reféns os media ocidentais.
É a meu ver no mínimo nojento dizerem que foram lançados vinte “rockets” sobre Israel que não causaram vítimas e nunca dizerem quantos mísseis, bombas, granadas e balas foram despejadas sobre as pessoas na Palestina. Onde está a imparcialidade jornalística na sua missão de informar?
Porque silenciam as televisões e rádios árabes que se encontram na palestina.

A grande aposta dessa central de propaganda, com a ajuda do seu Big Brother (Grande Irmão) é criar um modelo de Homem que tudo aceite e de cérebro bem lavado (limpo) para que não pense, consuma.

Um abraço
Carlos Rebola

Fernando Sosa disse...

Depois de um post que espelha a realidade e de um comentário verdadeiro, que mais há a acrescentar?

Aqueles que ocuparam a terra que deles não era sentem-se no direito de atacar quem os atacou. Mas porque são os ditos israelitas atacados? Se me ocupassem a casa eu ficaria de braços cruzados? Pelo menos que digam "com licença"...

Costuma-se dizer que na Guerra ninguém tem razão. Embora eu não concorde plenamente com esta afirmação, penso que também se deve apontar o dedo a muitas acções da parte palestiniana. Mas que culpa têm as crianças? As mães, os pais, os avós? Porque é que uma família não pode dormir descansada sem correr o risco de um míssil entrar no seu quarto?

Uma certeza: esta invasão vai ser determinante para que mais jovens se tornem terroristas. Quando não há comida no prato é fácil que alguém nos molde o cérebro.

Cumprimentos.

Arsenio Mota disse...

Carlos Rebola,
Fernando Sosa:

É caso para repetir: depois de dois comentários verdadeiros, que mais há a dizer? Apenas uma palavra e será de agradecimento pela sorte que me cabe e que vocês me dão.
Estou nas melhores companhias!
Entretanto, para Fernando Sosa, um aceno especial: saudação cordial pela sua passagem por aqui. Oxalá possa voltar em breve a animar o seu/vosso blogue!
Mando abraço.