quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Doem-me os pés em Gaza

Doem-me os pés que tenho em Gaza. O poder que junta em fila ameaçadora os tanques de canhões apontados diz que teve o cuidado inexcedível de fazer noventa mil telefonemas a avisar de mais este ataque. Porém, os pés continuam no sítio, pois para onde ir se temos de um lado o mar e do outro quem nos bombardeia?!
Afinal, estamos há muito tempo sitiados, permanecer e resistir até à morte é o que fazemos há sessenta anos - aqui em Gaza, sitiados, já não sabemos nem podemos fazer outra coisa. Mas doem-me cada vez mais os pés, há crianças e mulheres de corpos despedaçados pelos mísseis disparados pelos caças que nos sobrevoam e destroem, além de vidas inocentes, hospitais, escolas, templos, armazéns, habitações. Espalham por aqui não apenas devastação e sofrimento, sim também ódio.
Devo estar a pensar com os pés porque imagino que quem comanda o caça e dispara visando os alvos em terra, sendo agora militar a obedecer a ordens superiores, é o civil que sempre foi e há-de continuar a ser, talvez pacífico e simpático, agora porém a atentar contra gente que decerto nunca viu, gente pobre e desarmada, que formiga no chão sobrepovoado quase sem comida, sem remédios, só guerra (para «responder» a uns mísseis artesanais que fazem, suponho, mais estrondo que estragos).
Os rapazes que recebem à pedrada as forças de ordem imposta na rua recebem em troca granadas de gás lacrimogéneo e balas que ferem ou matam. Tapam cuidadosamente os rostos mas, se forem identificados, terão a sorte dos presos (que serão já uns dez mil). Como estranhar se eles, com os pais e avós, vivem naquela terra desde há séculos e dela são varridos pouco a pouco por um poder que dispõe de exércitos, aviões, bombas, tanques, abastecimentos infinitos?
Aquele novo país que nasceu e se vai expandindo mais e mais no corpo de outro país antigo, é ferida a gangrenar-se imparavelmente que espalha pelo mundo a infecção. Quem ali se ergue em luta contra o ocupante, é patriota corajoso e leal: sente na própria carne a tragédia de quantos guardam a chave da sua casa porque não lhes ficou mais nada antes de irem para o exílio na própria pátria ou num país vizinho. Terrorista será quem invade e ocupa, destrói e expulsa ao abrigo de um direito mirífico sem consistência.
Doem-me os pés que tenho em Gaza, a passividade das organizações internacionais perante este outro holocausto, os paninhos quentes das diplomacias cautelosas (pois evitam desagradar ao amigo americano), os fraccionamentos intestinos do povo que o inimigo aproveita. Doem-me até os telefonemas que anunciaram a guerra, golpe de propaganda que só serve a quem está servido. Que mundo é este?
Dilui-se o primado do direito. Pontifica o poder da força.

A propaganda varre dia a dia os noticiários mundiais. Os direitos humanos mais elementares são desfeiteados por quem fica impune. Agudizam-se as contradições e crescem os ódios através da porosidade das fronteiras. O sofrimento mais longo de um povo espezinhado não encontra eco nos corações ditos globalizados. Que mundo este!

6 comentários:

Manel disse...

Nas televisões ouço falar em falta de proporção nos ataques Israelitas, quando deviam chamar massacre ao que está a acontecer.
GAZA: STOP THE BLOODSHED

Um bom 2009
Abraço
Manel

Carlos Braga disse...

As imagens que me chegam por e-mail são de tal modo chocantes que não as reencaminho. Os amigos são lúcidos e esclarecidos. Assim, a denúncia não fica prejudicada, e sempre os preservo do horror que elas transmitem.
Até quando as metralhadoras de Jeová vão cuspir balas contra as pedras de Alá? Até quando vai continuar o exército de Israel a combater crianças, que, como as do ghetto de Varsóvia, são chacinadas por apenas estarem no lugar errado à hora errada?
Não sou dos que dão toda a razão aos palestinianos e nenhuma a Israel, dos que enxergam violência apenas de um lado e desejos pacifistas do outro. Não. Os "homens-bomba"que matam civis indefesos em Israel (em autocarros, restaurantes ou discotecas) também merecem a minha condenação. A cultura da morte e do ódio recíproco dificilmente rasgará clareiras de paz naquela ou noutra região. Mas ouso perguntar: quem cerca quem? Quem se defende no seu próprio território contra a ocupação? Na espiral de violência que qualquer guerra gera, qual a mais legítima: a de quem ocupa ou a de quem quer libertar a sua terra e o seu povo, que todos os dias acorda com tanques à porta de casa? Como podem os palestinianos pactuar com quem os quer confinar a uma "pátria" sem Jerusalém, transformada em gigantescos bairros da lata e numa multidão de desempregados? O extremismo palestiniano pode não ser legítimo, mas é uma consequência da violência israelita e não o inverso.
Enquanto a autodeterminação continuar bloqueada, a violência não vai arredar pé. Preocupante é que nesta guerra desigual, de David contra Golias, Obama, em quem tantos depositam risonhas esperanças, teime em dizer que vai manter com Israel a "relação especial" que há muito une os dois países. O que significa que Israel vai continuar "à solta", quando o que se deseja é que, de uma vez por todas, entre em guerra com a sua própria consciência. E se convença que a brutalidade impune não é uma qualidade dos fortes, mas manifestação de fraqueza de quem esgrime a razão da força em vez da força da razão. É pena que os judeus, tão perseguidos ao longo da História e vítimas recentes do holocausto, nada tenham aprendido com esse sofrimento, pois retaliam à maneira do Antigo Testamento, chacinam populações inteiras para vingar uma ou duas mortes, ou até menos do que isso. A memória parece curta, o que é pena.
A hipocrisia e a demissão da comunidade internacional perante mais esta barbárie não tem limites. E depois admiram-se de haver crianças a usar cinturões de dinamite contra o terrorismo de ocupação.
O tão apregoado "espírito natalício", carregado de piedosas intenções de paz e concórdia, é mesmo uma grande balela...

Anónimo disse...

Pessoa amiga enviou-me por mail este texto:

Quando se impede os meios para se obter electricidade, se corta o acesso à água e aos medicamentos em hospitais e estes são bombardeados, os israelitas comportam-se exactamente como nazis. E são-no desde 1948.

Albert Einstein, de origem judia, prémio Nobel da Física e cientista sem par, numa carta publicada pela «Newsweek Times» em Dezembro de 1948, três anos apenas de ter terminado o holocausto, denunciava que «o Herout, partido de Begin (que veio a ser primeiro-ministro de Israel), é um reflexo dos aspectos mais destrutivos para a nossa época e para o estado de Israel, recentemente criado.
É um partido político que se assemelha muito aos partidos nazis e fascistas pela organização, filosofia e pela atracção que exerce sobre as massas».

Desde então, Israel tudo faz com a benção dos EUA como o provam as declarações dos seus políticos:

«Nós controlamos a América»

«De todas as vezes que nós fazemos qualquer coisa, tu (dirigindo-se a Shimon Peres, líder do partido trabalhista) dizes-nos que a América vai fazer isto e vai fazer aquilo... quero-te dizer muito claramente, não te preocupes com a pressão americana em Israel.
Nós, o povo judeu, controlamos a América e os americanos sabem-no bem.»

- Ariel Sharon, primeiro ministro israelita no Knesset (parlamento israelita), Tel Aviv, 3 de Outubro de 2001.

Arsenio Mota disse...

Caros amigos:

A desproporção de forças entre quem ataca e quem se defende naquele terreno é atroz e existe desde que existe o Estado de Israel.
Mas há outros aspectos a ponderar. Quando Israel se implantou no terreno, todos os seus cidadãos tinham pátria. Mas quiseram ter outra e implantaram-na ali. Ainda hoje boa parte da sua população pode ter duas pátrias. E a pátria dos palestinos?!
Diversos autores ligam a criação de Israel ao sionismo, corrente doutrinária judaica que desde muito antes vinha lutando por isso, onde fosse posível. O nazismo deu-lhe o ensejo.
Evidentemente, Israel deve a existência à bênção dos Estados Unidos, interessados em ter, em 1948, um apoio forte na zona do petróleo.
Talvez por isso há críticos que chegam a comparar o que fazem os judeus na Palestina com o que fizeram os norte-americanos aos índios no avanço para Oeste, lembrando os índios restantes que acabaram em «reservas».
Agradeço as vossas achegas dadas a este assunto tão dramático e pungente.

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Os senhores do mundo fazem com que as pessoas sintam vergonha de serem dessa mesma espécie dita humana.
São os vampiros da humanidade, só nos resta resistir, hoje em Gaza amanhã por cá, porque esta infecção desumana e contagiosa mais tarde ou mais cedo, vai-nos atingir, é o que penso vendo o rumo que esses desumanos traçaram.

Uma vergonha para a humanidade, a barbárie dos tempos modernos anda pelo mundo à solta, sem respeito pela vida dos outros, autênticos terroristas, bem nutridos, bem armados, bem falantes, há muito que deixei de acreditar nestes autênticos hipócritas e mentirosos. Desde os acordos de Camp David, Israel tem roubado pela força das armas, grande parte do território palestiniano, com a cumplicidade vergonhosa do ocidente.

Caro amigo o seu texto faz-nos sentir, duma forma ténue, é certo, os horrores da guerra, parabéns pela crónica, pois aqueles que se calam, tomando assim partido da violência, deviam ganhar consciência dos efeitos bélicos, Que em maior ou menor grau atingem toda a humanidade.

Um abraço
Carlos Rebola

Arsenio Mota disse...

Carlos Rebola,
Caro Amigo:
Sim, desde que surgiu Israel no território da Palestina, nação milenar, este novo Estado tem vindo a expandir à força bruta o seu território até que fez desaparecer a Palestina do mapa. Hoje restam migalhas, ainda e sempre alvo de cobiça. E tudo isto nos últimos sessenta anos, diante do olhar do nosso «civilizado» Ocidente!
Eu, no titulo da minha crónica, quis evocar os portugueses que com especial ufania se proclamaram «americanos» aquando do 11 de Setembro na América. Continuo, continuamos, com os pés em Gaza... Sitiados e bombardeados.
Abraço.