segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ensino sem educação

Uma certa democratização do ensino tornou a escolaridade num vulgar bem de consumo. O brilho social que antes a revestia perdeu-se com a massificação. Já poucas distinções restam entre o licenciado, o mestre ou o doutorado que não advenham da individualidade concreta de cada académico e, quanto a graus escolares anteriores, estamos conversados.
A derrocada começou, digamos, há uns trinta anos. Resultado: um diploma do ensino superior deixou de garantir bom emprego e o candidato a qualquer colocação no supermercado até pode ter de o sonegar para se ver admitido. Gente idosa, comparando, sentencia que, no seu tempo, em poucos anos de escola se aprendia bem mais do que, na actualidade, com um curso superior completo, pelo menos a julgar pelas aparências.
Assim se declarou uma crise que não se resolve e mais, e mais, se agrava. Diversas análises situam o nó da questão nas políticas que promoveram a escola lúdica ou mesmo alegre, em vez de local de aplicação e trabalho disciplinado:  pouca memória, tudo fácil. Entretanto, avançou um desinvestimento gradual dos governos nas escolas públicas enquanto os ambientes familiares acentuavam a desestruturação.
Diversas juventudes europeias, deprimidas e sem horizontes, duvidam do que pode valer hoje um diploma. Na verdade, não se sentem preparadas, pelas escolas e pelas famílias, para a vida. E já se torna difícil destrinçar o que é instrução, ensino e educação - termos com sinonímia relacionada embora distinta – porque o ensino ficou sem educação.
É incrível, e mesmo alucinante, a instabilidade introduzida nos sistemas pela quantidade de mudanças e reformas sucessivas. Pedagogias credíveis deram lugar a ligeiros experimentalismos alegadamente para aligeirar os conteúdos dos programas. A autoridade em aulas e o prestígio dos docentes sofreram rudes golpes, e também os seus salários. Tudo nivelado por baixo, factor de geral desmotivação.
A educação, avoengo processo apontado para o desenvolvimento harmónico da pessoa nos seus aspectos intelectual, moral e físico e a sua inserção na sociedade, confunde-se com instrução e ensino nos mesmos sistemas para iludir o que mais importa dentro desses sistemas. Decerto não há, nunca houve por aqui ou por ali geração rasca, mas o labéu ficou. Marca com ferrete uma geração perdida.
Porém, há notícia de estudo que detectou em certa amostra uma diminuição do coeficente intelectual médio. Se o diagnóstico é cientificamente credível, temo que venha em breve a ser corroborado por outros estudos. O nosso tempo afunda-se, aparentemente por uma espécie de osmose, na obnubilação das inteligências. Há poucos dias, anunciou-se em Portugal esta novidade: o nosso povo comporta-se como que atordoado…
Estaremos a estupidificar? A interrogação não é tola. Já se conhecem, por exemplo, alguns dos efeitos nefastos provocados nos cérebros pelas substâncias contidas nos populares plásticos, substâncias essas que acabam dissolvidas nas águas dos rios que as cidades bebem…

7 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

este é um dos temas em que encontro mais interrogações e mais receios. Porque um país sem educação é um país sem futuro.

Sabe meu caro, olho para as gerações imediatamente anteriores a mim (dos meus pais), olho para a minha geração e olho ainda para as mais recentes e fico sempre desanimado. Alguns erros do passado desapareceram, mas muitos permanecem e outros surgiram.
Se por um lado julgo que cada um considera a sua geração como melhor que as posteriores, também acho que a geração seguinte à minha segue para o abismo da ignorância, de mão dada com o Grande Irmão.

Anseio por uma revolução mundial que ponha de lado o sangue e promova o intelecto, mas cada vez parece mais difícil.

Cumprimentos.

Arsenio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

Tocou-me vivamente a preocupação que exprime no seu comentário em relação com o tema da minha crónica.
Também eu, como se vê, me preocupo. Abundam os motivos! O que vejo desde ontem à noite em torno da distinção obtida por Cristiano parece-me altamente significativa da gravidade que o assunto tem. O povo deste país tem mais um ídolo para adorar (um jornal de referência até andou dias a chamar «deuses» a jogadores da bola) e eu fico impressionado vendo o povo pronto para falar com notório gosto em antena aberta; e tem discurso fácil e opinião convicta e memória clara e tudo o mais que seja preciso para afirmar o seu amor à futebolite aguda que o domina! Para o povo (transviado), 42 golos, sim, são o máximo. Fazem esquecer tudo, fica apenas mais um ídolo a encher-lhe os olhos arregalados!
Caro Fernando Sosa, estou consigo nesse desejo de uma «revolução mundial que ponha de lado o sangue e promova o intelecto», embora isso me pareça também cada vez mais difícil.
Saúdo-o cordialmente.

Fernando Sosa disse...

E deixe-me acrescentar que se formos ao estrangeiro e quisermos dar a conhecer a nossa nacionalidade poderemos ver-nos obrigados a dizer que somos do país de tal rude, ignorante e arrogante madeirense. Onde andam os verdadeiros heróis? Risco de extinção...

Cumprimentos.

Carlos Braga disse...

O pensamento pedagógico dominante transformou-se numa espécie de religião, assente na fé inabalável das suas certezas (e todos sabem como a fé mata a dúvida). Uma dessas certezas consiste em acreditar piamente que as aulas não podem ser uma “seca” isto é, não podem exigir esforço.
Mas há outras: o entendimento igualitarista da escola democrática que desvaloriza a autoridade de pais e professores, ou a aprendizagem baseada tão só no princípio do prazer. Se a isso somarmos a indisciplina e a violência nas escolas, a fractura cada vez mais acentuada entre ensino humanista e ensino técnico, ou o considerar-se o trabalho de casa “stressante” para os alunos, temos um retrato mais aproximado do que é o actual sistema de ensino.
Lamentável é que perante tudo isto, que é fruto de políticas educativas erradas ao longo de décadas, tenhamos de assistir a boçalidades como a de Miguel Sousa Tavares, que classificou os professores de “os inúteis mais bem pagos deste país”. Como se na sua profissão e em tantas outras, não houvesse gente inútil e incompetente a trabalhar ao lado de profissionais competentes e dedicados. Apetece perguntar a MST: terão sido os professores responsáveis, há uns anos atrás, pela inclusão do Big Brother nos manuais escolares? Quem não percebeu que em cultura não são as audiências que ditam a qualidade do produto? Os professores? Ou os políticos incultos?
Há muito a melhorar no ensino, mas não é com o desprestígio dos professores que isso se consegue. Reconhecer as reformas falhadas, o fracasso evidente de políticas iniciadas há mais de 30 anos com a reforma de Veiga Simão, custa assim tanto a quem tutela a educação?...

Arsenio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

A idade permite-me dizer que sou do tempo em que pela Europa fora, ao saberem-me português, logo os solícitos citavam «Eusébio»!
E ja agora, aproveito para notar que não embarco deveras no conceito de gerações. Duvido que uma geração seja «melhor» que outra, anterior ou posterior, apenas que (pelo menos em primeira instância) as conjunturas históricas mudam e diferem.

Prezado Carlos Braga:

Então existe um pensamento pedagógico dominante? Eu arriscar-me-ia a supor que existem apenas umas estratégias políticas, marcadas por um excessivo monetarismo (salários baixos, redução do pessoal, pressões e turmas sobrecarregadas). Engano-me? Oxalá!
Eis a única achega que posso dar às considerações que faz, oportunas e certeiras como sempre.
Muito obrigado.

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Esta crónica e a anterior são uma e a mesma preocupação que as pessoas com discernimento, capacidade de análise e memória de que é exemplo, o caro amigo Arsénio, têm sobre o panorama actual do ensino e educação no nosso país, que está num estado lamentável.
Conseguiram com tantas “reformas” educativas, destruir ou quase, o ensino em Portugal, fizeram de alunos e professores cobaias em experiências ditas cientificas que resultaram na criação de aberrações, como aquelas que se vêem diariamente quando jovens e jovens adultos são confrontados com perguntas, às quais dão respostas que no mínimo são bizarras, pior ainda quando são pessoas com responsabilidades na formação de outros, salvo as devidas excepções.

No tempo de má memória dizia-se que um povo educado (bem formado) era difícil de governar, por isso os três F,s tinham a função de o manter ignorante e “governável” hoje parece estarem restaurados os três F,s a que acrescentaram um P de propaganda com o mesmo objectivo, manter o povo ignorante para mais fácil o governar. Um povo que pensa com discernimento, um povo que raciocina, um povo que sabe o que quer e para onde que ir, conhecedor e consciente não interessa, a esta classe política que nos tem “governado”. É criminosa esta política ou politicas de manutenção da ignorância, só um revolução intelectual, (estou de acordo com Fernando Sosa) promovida pelos sábios, afastados das reformas implementadas, poderá inverter esta situação, que a continuar acabará por destruir a nossa identidade no futuro, estão a promover a tontice geradora de zumbis, pessoas sem vontade própria, mortos-vivos.

Caro Arsénio desculpe a minha incapacidade de síntese.

Abraço
Carlos Rebola

Arsenio Mota disse...

Prezado Carlos Rebola:

A sua capacidade de síntese está boa, sem dúvida nenhuma. Exprimiu-se com clareza, muito obrigado pelo apoio.
Connosco fica, bem à vista, esta calamitosa situação. A reclamar urgentes respostas sob pena de total subversão!
Um abraço.

P. S. - Aproveito a oportunidade para deixar uma nota especial. Ao responder acima ao amigo Carlos Braga, no ponto em que ele se refere à existência de uma certa pedagogia, eu ousei «divergir». Receio porém não ser bem entendido, ali, na minha intenção. Eu só quis puxar o assunto para o terreno político em que, na minha perspectiva, hoje essa negregada pedagogia maximamente se coloca, não negar a evidência. Fique para valer este esclarecimento.