domingo, 15 de fevereiro de 2009

Conclusões obrigatórias

Acreditemos no que meio mundo não se cansa a repetir. A crise do sector financeiro é sistémica, abala o sistema inteiro espalhando interrogações múltiplas, destruidoras como bombas de fragmentação. É a hora de chegar a umas tantas conclusões alcançáveis por toda e qualquer pessoa.
Enganaram-se redondamente os governantes que levaram meio mundo a apostar numa «economia» meramente financeira. Destruíram a economia produtora de bens socialmente úteis ao permitirem aos grandes financeiros transferir a procura gananciosa de lucros máximos e rápidos para manobras puramente especulativas. Erraram ao ceder aos especuladores o estabelecimento dos chamados «paraísos fiscais» que vieram sobrecarregar de pesados impostos as classes médias até às próximas gerações.
Não há mais hipocrisia para os senhores do mundo e os seus porta-vozes reclamarem privatizações em cascata de serviços públicos essenciais nem ingenuidade que não seja tola e cega de quem os ouve. Os serviços públicos são indispensáveis à sociedade organizada e ao Estado enquanto organização da sociedade. Estados enfraquecidos ou reduzidos nos seus serviços e funções apenas servem à expansão das mais poderosas ganâncias privadas (arvoradas em pretensos outros «Estados»).
Enganaram-se redondamente os economistas, incluídos os premiados com Nobel, que há trinta anos evangelizavam meio mundo, tecendo loas infindas e améns beatíssimos à globalização, ao comércio livre, à livre concorrência. Para eles, não havia dúvida, o mercado era a matriz e a marca distintiva da própria democracia (embora aí a escassa minoria dos fortes predomine sobre a grande maioria dos mais fracos). Acreditaram num falacioso crescimento contínuo e agora não querem explicar-nos a sério como chegámos a isto.
Enganaram-se redondamente os propagandistas da opinião, paladinos incansáveis das maravilhas do neoliberalismo, esplendor máximo da desordem capitalista. As deslocalizações eram para eles inevitáveis, tais como os crescentes níveis do desemprego, os abaixamentos dos salários ou os endividamentos públicos e privados. Hoje pode ver-se que a desordem e a desregulação triunfaram depois de entrarem por essas portas.
Enganaram-se redondamente as multidões que em cada país de meio mundo tomaram a sério as tretas dos pregadores desses outros novíssimos amanhãs que cantam. Têm agora umas conclusões obrigatórias a extrair destas suas experiências e a primeira, imperiosa e prioritária, é a de não acreditar em (e não apoiar) mais políticas e políticos de que desconheçam os alcances potenciais. De novo colocadas em situação dramática por criminosos aventureiros, as massas estão num momento histórico que as convida a perceber o jogo das forças que no mundo as subjuga e determina mas das quais anseiam libertar-se.
Os sábios da Economia não têm ciência nenhuma. Limitam-se normalmente a justificar com simples tretas o que já aconteceu. O Capitalismo, na sua fase actual, assume um comportamento imprevisível, de fera predatória à solta. O mercado não se auto-regula, carece de regulação aturada e eficaz que só um Estado forte nos pode garantir. Mas, por ora, os Estados aplicam-se a imprimir papel moeda às bateladas. Salvarão as notas a Economia?! Ou provocarão uma colossal elevação dos preços, logo, uma desvalorização dessas notas?!

5 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

após ler esta sua crónica senti-me na obrigação de sair em defesa de parte dos acusados.
Se é verdade que tenham existido e ainda existem (embora que pelos tempos que correm estejam um pouco envergonhados) vários economistas de várias nações a defender a auto-regulação do mercado, também se deve referir que muitos, possivelmente a maior parte, não acredita nesta teoria. Podem (e devem, na minha opinião) coexistir globalização, comércio livre, livre concorrência e regulação estatal. Eu acredito nesse tipo de sistema, tal como tantos e tantos economistas portugueses e estrangeiros. O problema é que a dita regulação não é bem feita, mas aí a culpa já não recai sobre esta classe de profissionais, mas antes sobre a classe política que é subjugada pelos grandes grupos económicos mundiais.

Quanto ao crescimento continuo, a análise deve ser feita num espaço temporal de décadas ou até séculos (ver os trabalhos de Kondratiev e Juglar). Deste ponto de vista encontraremos uma clara tendência positiva no crescimento da economia mundial, em termos médios. Logicamente que isto nada nos diz sobre as discrepâncias entre as classes mais ricas e os mais pobres, mas essa é uma questão que não pode ser abordada deste ponto de vista.

Assim, não será difícil depreender que discordo com a sua afirmação: "O sábios da Economia não têm ciência nenhuma".

Cumprimentos.

Arsenio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

Agradeço-lhe, mais do que habitualmente, se é possível, esta sua expressão de discordância. Reconheço aqui essa sua independência de pensamento que sinceramente lhe aprecio. De qualquer modo, caro amigo, não vejo dificuldade nenhuma em integrar essa sua discordância no enquadramento da crónica sem a negar. Gostaria que o texto fosse lido em resultado da situação económico-financeira que avassala o nosso mundo. Generaliza brutalmente para captar a linha de força dos acontecimentos recentes. Logo, erra ou, no mínimo, abusa. Além disso, eu não sou nada parecido com alguém com formação económica, pois sou, nesse campo, um mero cidadão, um simples curioso chamado a capítulo pelo dramatismo especial dos acontecimentos.
Compreendo bem a aposta que faz na globalização, no comércio livre e na livre concorrência, coisas de que me permito desconfiar vendo o que é efectivamente a «globalização» em curso, o que é o comércio dito «livre» e em especial a dita «livre concorrência» (na prática, a lei do mais forte). Outro ponto importante em foco aponta para o crescimento (o modelo de). Meu caro Fernando Sosa, esta resposta já vai longa, deixemos este ponto para uma próxima oportunidade!
Saudações cordiais.

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Mais uma excelente crónica que nos deixa sérias pistas para acompreensão da actual situação económica/financeira.
Continuo a pensar que este sistema tem que sofrer alterações profundas, está visto que é um sistema desumano, basta para o adjectivar assim, o crescimento da pobreza global que é a riqueza de meia dúzia.

Um abraço cordial
Carlos Rebola

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio
Não resisti a voltar para dizer que há mais de 150 anos a actualidade já era prevista, penso que não está correcto quando dizem que as crises são imprevisíveis, para o amigo tal não deve ser novidade, aqui fica o que escreveu Marx, no que diz respeito aos bancos:
"…Os donos do capital vão estimular a classe
trabalhadora a comprar bens
caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais,
até que se torne
insuportável. O débito não pago levará os bancos à
falência, que terão que ser
nacionalizados pelo Estado".•
Karl Marx, in "O Capital", 1867

Um abraço
Carlos Rebola

Arsenio Mota disse...

Carlos Rebola,
Caro amigo:

Alterações, sim, o sistema financeiro terá que sofrer algumas, creio que só aquelas que menos custarem aos interesses criados e às inércias intaladas. No mais, veremos, mas vai ser difícil. Os senhores do mundo mandam mesmo, não é?
Quanto à citação que faz de Marx, acho que tem cabimento. Marx estudou por dentro o sistema capitalista, entendeu bem a sua dinâmica interna e sobretudo as suas contradições. Não fez «profecia», apenas estudou o assunto em prospectiva. Como ignorar os seus estudos e contributos para a civilização e a cultura da humanidade?!
Abraço apertado.