domingo, 1 de março de 2009

Enfim, o decrescimento?

A espiral do desenvolvimento económico que vem marcando as economias desde o termo da Segunda Grande Guerra envolveu as sociedades ocidentais numa espécie de embriaguez. A onda do consumismo expandiu-se e acabou por se agigantar como tsunami devastador que empurra o mar pela terra dentro e tudo engole em mortífera subversão.
Agora há lições a tomar e atitudes claras a assumir se quisermos reduzir ao mínimo as consequências. Decisões dramáticas impõem-se e tais decisões não podem quedar-se entregues somente às mãos dos políticos que governam ou dos senhores do mundo que sobre eles exercem influências. O povo de cada país, atingido na cara pela hecatombe, precisa de despertar dos sonos induzidos e de perceber por fim o verdadeiro lugar que lhe compete ocupar na história.
O consumismo, atiçado por um marketing de nefastas técnicas (e apoiado por apelos constantes ao endividamento fácil), é um dos aspectos da mentalidade corrente que pede emenda. Tem que se considerar no mínimo aberrante (logo, contrariável), por exemplo, uma viagem de avião para sol e areia de praia longínqua quando não faltam sol e areia aqui por perto e sem avião. Os sonhos lindos tiveram forçoso despertar, o consumismo não trouxe felicidade. É impossível continuar a acreditar num crescimento económico infindável quando já esbarrámos de encontro à parede dos limites.
Atingimos, pois, o momento das viragens cruciais. A designada crise financeira colocou a questão maior no centro de todos os debates sérios e urgentes a fazer. Tenhamos do problema muita, pouca ou nenhuma consciência, o problema perdurará na medida exacta em que deixarmos sem alteração nem remédio essa realidade.
Este modelo de desenvolvimento socioeconómico em que temos vivido está esgotado. Completamente. Não vai poder subsistir com as formas que lhe conhecemos, tal como, e cada vez mais, se vem repetindo.
É preciso aprender a viver com pouco - de qualquer modo, com menos - para continuarmos a viver. A onda do consumismo habituou-nos ao supérfluo, não ao essencial, como se os artigos dos comércios mais lucrativos fossem realmente os mais benéficos para os consumidores. Descurámos mesmo algum bem essencial. Agravaram-se as desigualdades dentro da população de cada país e de uns países perante outros.
Por este caminho iremos cair no abismo do irremediável. Chocaremos todos, a humanidade inteira, na parede fatal dos limites, e então, caídos na desgraça, nos saberemos vencidos. Basta continuar cegamente a gastar… e a gastar os recursos não renováveis da natureza: ar respirável, água potável, terra não poluída.
Decrescer no plano económico impõe-se não menos do que muitas outras opções a tomar em variados planos e com variados alcances. Os recursos do planeta são os existentes no planeta e podemos agora medir-lhes a duração que irão ter gastando-os por este caminho. Uma nova racionalidade, esclarecida e exigente, deve aplicar-se a controlar a dinâmica económica e as perversões do mercado, a partir dos órgãos estatais, mas os povos terão que acatar as opções. Esta nossa civilização está mergulhada em crise.

8 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio

Realmente é esta nossa civilização "capitalista" que se encontra em crise, no entanto algo de errado me parece que está a acontecer. Não vejo vontade actuante para mudar o paradigma que levou à crise, apela-se a todos que consumam para salvar a economia e injecta-se cada vez mais dinheiro no sistema, parece-se um paradoxo, tentar a cura prescrevendo mais daquilo que originou a doença. Tentam a todo o transe salvar um sistema financeiro que foi a causa primeira da crise, segundo explicaram, a origem desta má situação não sofreu até agora qualquer alteração. O crescimento desmedido só poderia dar em rebentamento. O mesmo crescimento económico, o da "riqueza" é totalmente assimétrico, crescia na razão directa do empobrecimento da maioria, que ainda por cima aliciava ao consumo aqueles que nunca deviam ter caído na esparrela de ir além das suas possibilidades, foram em caras facilidades, o desequilíbrio nestas condições torna-se insuportável e a queda fatal.
Mas amigo Arsénio não vejo que os senhores do mundo, que detêm o poder de alterar o sistema, o queiram fazer.
Grandes sofrimentos, parece-me, ainda estão para vir, a sabedoria popular sabia do que falava quando dizia e diz "Não há fartura que não dê em Fome", oxalá que o futuro se regenere nas lições do passado.

Um abraço cordial

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

o assunto que aqui aborda é de uma complexidade extrema. Aponta resumidamente o problema, como num blogue é possível, mas não vislumbrei com a leitura do seu texto nenhuma solução. Isto não é uma crítica, pois não estaria a ser sequer honesto comigo próprio: por várias vezes já pensei num sistema económico alternativo ao actual e em todas as vezes fracassei.
A maior parte dos cenários que construí eram mais um reviver de um Passado Medieval do que um passo em direcção ao Futuro. Como substituir um dos grandes eixos da Economia sem a ferir de morte? E, atenção, não se olhe para a Economia como algo abstracto: todos nós fazemos parte deste sistema.

No que toca aos recursos naturais, se é possível encontrar energias alternativas não poluentes para manter semelhantes níveis de consumo, no que toca a outros bens (desde alimentação até televisões, telemóveis, etc.) é de facto necessário desacelerar o desperdício feito no nosso dia-a-dia. Porém, volta a mesma questão: como substituir essa redução económica por um aumento noutro factor económico? O que fazer com os trabalhadores e capital investido nessas indústrias ou serviços?

É um problema muito complexo de facto. Complexo demais para os políticos que governam este mundo e, em boa parte dos casos, contraditórios com as suas "motivações". Porém, acho que não se deve enterrar o assunto e será sempre importante existir alguém para o discutir. Quem sabe quando poderá surgir uma força de mudança.

Cumprimentos.

arsenio disse...

Prezado Carlos Rebola:

Sim, parece que os governantes se mostram incapazes de compreender o que se passa. As suas respostas à crise financeira restringem-se a meros remendos apressados que se arriscam a nada remediar (e pior, decerto a complicar ainda mais a situação. Na verdade, os políticos habituaram-se à visão curta, ao imediato, afinal,nesta urgência, a perder tempo. Mas todos já percebemos que esta crise vai ter reflexos profundos e duradouros, que apenas começaam a evidenciar-se.
As novas gerações vão padecer (oxalá que me engane... e que não venha a rebentar outra guerra -- que, claro, será mais uma vez «a última»)!
Abraço cordial.

Manel disse...

Caro Arsénio,
Não rejeitar uma ideia é a sensatez que se deseja, pois esta por mais exótica que seja, poderá ter em si uma solução satisfatória.
Viver melhor com menos é uma saída obrigatória, pois os recursos são limitados.
No entanto não confundir recessão com decrescimento.
Das políticas até à actualidade, eu não vejo a coragem de as alterar até ao momento. Estas têm estado erradas na visão de um crescimento contínuo e logo errado na forma como calculam os indicies e os ponderam nas grelhas de avaliação.

Este tema do decrescimento tem sido meu favorito.
Com o actual desenvolvimento tecnológico podemos e devemos conseguir viver melhor com menos, desde que se contabilize correctamente a economia que se alimenta do desperdício.

Um abraço
Manel

arsenio disse...

Caro Fernando Sosa:

Estes contactos que os blogues nos têm trazido, embora breves e pontuais, permitem-me notar e apreciar a sua capacidade, que creio sincera e enérgica, para escolher nas ideias digamos colheitáveis (é estudante, não é?)aquelas que mais correctas e profícuas se lhe afigurem. Por isso o saúdo com especial simpatia.
Acima escreve: «por várias vezes já pensei num sistema económico alternativo ao actual e em todas as vezes fracassei. A maior parte dos cenários que construí eram mais um reviver de um Passado Medieval do que um passo em direcção ao Futuro.»
Falando apenas por mim, direi somente que a opção, na actualidade, se faz entre o Capitalismo, nesta sua fase final, ou a barbárie. De qualquer modo, o Capitalismo é sistema historicamente esgotado. Claro, ninguém lhe profetizará a data do fim, mas o Futuro, como diz, parece inevitável: o socialismo, desejavelmente democrático, não implantado numa «ilha cercada», que o combateria, sim num conjunto de nações suficientemente poderosas (e apoiadas nos seus povos esclarecidos) para resistir e repelir os ataques do Passado...
Sem dúvida, caro Fernando Sosa, «mudar é preciso»! Agora mais que nunca! Mas isto traz-me à lembrança uma notícia recente assaz penosa que circulou por aí: 40% dos portugueses têm perturbações mentais.
A Política torna-se cada vez mais séria... e vai continuar assim nas mãos dos políticos?!
Enfim, continuemos atentos... e à espera de Godot.
Saúdo-o cordialmente.

arsenio disse...

Manel, caro amigo:

Peço desculpa, eu não confundi recessão com decrescimento. Pelo menos, a minha ideia não era essa! Apenas estou em pensar que este momento histórico de autêntica ruptura deveria ser aproveitado, e bem, para corrigir muita da loucura reinante.
Quanto ao tema do decrescimento propriamente dito, sim, continue nele e a bater forte!
Abraço apertado.

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

estudante pretendo ser até ao fim dos meus dias, se bem que com diferentes moldes ao longo do tempo - como de outra forma não poderia ser.

Quanto a capitalismo e socialismo compreendo-os precisamente como Passado e não como Futuro. Não quero dizer que não sejam importantes para o estado actual deste nosso Mundo, porém parece-me que as questões que se colocam hoje são muito difíceis de encaixar estritamente num dos dois perfis.
Assim, nos conturbados tempos que aí vêm, julgo que a resposta estará à frente dessa dualidade (até porque nenhuma das duas ideologias me convencem, pecando por considerações muitas vezes extremistas). A reeducação das populações aliadas a uma mudança radical (mas democrática) nos cargos políticos será a solução base óptima que permitirá muitas outras mudanças importantes para o bem-estar geral da Humanidade. Sim é uma utopia, mas será nesse sentido que se deve caminhar.
Se continuar este meu comentário enfastiarei os outros participantes e darei cor política às minhas palavras, coisa que aqui não pretendo fazer.

Cumprimentos caro Arsénio e não pare de escrever, pois todos nós podemos contribuir um pouco (alguns até muito) para a tal mudança de mentalidades de que tanto este Mundo precisa - e, se me é permitido o egoísmo, porque aprecio muito aquilo que escreve.

arsenio disse...

Fernando Sosa,
Caro amigo:

O seu post, acima, contém em resumo o perfil que a meus olhos o torna reconhecível. E, sobretudo, que eu considero digno de apreço.
Poderia dar, se quisesse, «cor política» às suas palavras, eu não me esquivo, como se vê, mas, no fundamental, acredito que queremos avançar numa direcção que até pode naturalmente ser a mesma ou afim. Aprendendo constantemente, com a História e com os sobressaltos do tempo presente, a pensar com lucidez e acerto. Costumo aliás dizer que dia perdido de vida será aquele em que até um idoso passe sem aprender alguma coisa nova...
Continue pois eterno estudante e talvez venha por fim a saber tanto como eu, que não sei nada.
Aceite um abraço cordial.