quarta-feira, 11 de março de 2009

Mulher dia sim, dia sim

Sempre me arrisquei a pensar pela minha cabeça, pelo menos nos pontos em que outras melhores não me acodem. É teima ingrata, pois nunca me faltou quem desconfiasse de uma cabeça tão pequena como esta e, além do mais, sem coroação na praça pública. Pense então eu o certo, vale tanto como o errado para quantos, fortalecidos pelas certezas da cartilha das verdades feitas, desistiram de remexer nas próprias meninges.
Uma ideia que mantenho há muitos anos parece agora ter por fim quem a atenda. Interpreta de uma forma particular o movimento de autonomização feminina em eclosão desde o início dos anos ’70. O recente «Dia da Mulher» deixou o tema colocado em evidência.
Apesar de o nosso tempo ser de resignação e de conformismo, abriu-se espaço e perspectiva para se avaliar de olhos abertos não a árvore mas sim a floresta. Para consolação da minoria a que pertenço, ainda restam uns quantos que porfiam em remexer nas próprias meninges, até porque a evolução dos acontecimentos vividos pela gente da minha geração pertencem a uma história que não está (bem) feita.
Evidentemente, ninguém contraria a ideia corrente de que foi deveras positiva a dita emancipação da mulher em relação ao homem, pai ou marido. A mulher passou a ter profissão, um trabalho remunerado, ganhou autonomia. Libertou-se da sujeição conjugal que a prendia no lar ao entrar no mercado do emprego e isso até acabou por ser de algum modo emancipador para o próprio cônjuge.
Mas isto é a face consensual da questão, a versão simplificada. É preciso beliscar a face, medir as consequências que os acontecimentos deixam no terreno. Porque, sem dúvida nenhuma, estão à nossa vista consequências que pedem análise ponderada e respostas sociopolíticas globais.
Abundam as mulheres nos mais variados sectores de actividade, a demonstrar quantas barreiras venceram. Chegamos agora ao momento de reconhecer que a saída em massa das mulheres dos seus lares para os empregos provocou um abaixamento geral dos níveis salariais (pela multiplicação da oferta de mão-de-obra) que atingiu, creio eu, os dois sexos em benefício directo dos patrões.
Significa isto, claramente, que a chamada emancipação feminina serviu os interesses de todo o sistema de acumulação capitalista, por outro lado em coincidente fase de avidez e máxima concentração no mesmo período. Lembra que os ideólogos do sistema, decerto vendo longe, acolheram o movimento feminista com simpatia. Mas na verdade sempre o sistema soube virar as coisas a seu favor, sempre gostou de ver no mercado mais mão de obra do que poderia necessitar.
Entretanto, outra consequência se declarou no plano social. As famílias, desestruturadas pelo enfraquecimento dos papéis de esposa e mãe, entraram numa crise que pede remedeio urgente. O ensino pré-escolar é migalha, os anos escolares obrigatórios deixam a nu a situação. As novas gerações estão a ser marcadas por uma situação que as atinge e destrói como se estivessem no meio dos tiros de uma guerra.

9 comentários:

Regina disse...

Este artigo denuncia a realidade e deve ser motivo de orgulho para as mulheres que não se conformam com as migalhas dum faz de conta inútil e patético...

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

é claro que quão maior for a quantidade de mão-de-obra disponível, menos será o poder de negociação dos trabalhadores. Mas não esqueçamos que ao mesmo tempo que crescia o número de trabalhadores, também se experimentou um aumento da população mundial e crescimento económico. Percebo o seu ponto de visto e à primeira vista tem lógica, mas um estudo sobre o tema dará trabalho para muitos anos...
Não quero com isto dizer que não está ciente disso.


Cumprimentos.

Arsenio Mota disse...

Cara amiga Regina:

Seja bem-vinda a este espaço de diálogo, pois é a primeira vez que entra aqui. Além do mais, deu-me/nos a conhecer o seu/vosso blogue, que acudi a visitar, saudando nele o apego à poesia.
Muitos parabéns e saudações cordiais, com agradecimentos pelo apoio ao meu escrito.

Arsenio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

O que pretendo focar são consequências, claramente indesejáveis e mesmo perversas, que teve o movimento (em curso) de autonomização da mulher. O sistema capitalista aproveitou-se e hoje chegamos a ver sectores de actividade (em geral mal remunerados) quase completamente povoados pelo género feminino. Nem por sombras seria capaz de contrariar tal evolução, que aliás venho apontando há anos para destacar as suas consequências. Ainda bem, caro Fernando Sosa, que percebe o meu ponto de vista. Na minha crónica apenas pretendi registar o que tenho andado a repetir oralmente em conversas ocasionais, mas é claro que a questão é complexa e que eu apenas a aflorei de raspão. Não poderia ir mais longe. De facto, os limites de texto que me impus (para não «chumbar» os leitores) ficam-se pelas 40 linhas do Word... e ponto final.
Haja quem pegue na questão para a equacionar detida e competentemente!

Anónimo disse...

Amigo Arsénio

Penso que apesar daqueles que têm toda a informação, não serem capazes de explicar ao povo, por não terem coragem derivada do medo ou da covardia ou ainda da desfaçatez, o povo sabe porque assim é mas a frase "o rei vai nu" só é prenunciada pelos que não têm medo e são livres à margem da alienação e propaganda.
A sua excelente crónica retrata o resultado do capitalismo selvagem que teimosamente tentam salvar da falência...

Um abraço
Carlos Rebola

Carlos Rebola disse...

Caro amigo Arsénio

Fiquei surpreso e de certo modo constrangido ao verificar que o comentário acima cujo texto é meu e diz respeito à sua crónica de cinco de Março, foi colocado por alguém nesta crónica por alguém que o copiou e não se identifica, por principio identifico-me sempre nos comentários. Alguém, sem dar a conhecer o motivo ou a possibilidade de o conhecer pelo questionamento, foi incorrecto ao fazer isto. Perante a impossibilidade de evitar estas situações, fiquei um pouco constrangido, pelo efeito que isto lhe possa ter causado amigo Arsénio, todos os meus comentários são identificados, é verdade que o referido comentário foi redigido por mim mas para a crónica "Venha alguém explicar ao povo" e não o coloquei aqui repetindo-me.

Quanto a esta crónica "Mulher dia sim, dia sim", é mais uma boa abordagem da questão que já vem do século dezanove, a necessidade que o capitalismo tem, de um exercito de mão de obra disponível, (desempregados), para assim numa lógica de mercado embaratecer a mesma mão de obra devido ao excesso de oferta, isto é explorar mais a massa trabalhadora, este sistema na situação actual começa a mostrar o seu verdadeiro rosto, o verniz e as máscaras começam a cair, infelizmente penso que as alternativas só irão surgir com muito sofrimento, o que não é difícil de prever.
Quanto à emancipação da mulher, é um direito igual ao direito de tempo para a maternidade e lazer, seria o exercício por todos, destes e de outros direitos humanos o no meu entender, seria o verdadeiro progresso da humanidade. No meu, talvez inculto pensar, é assim que vejo esta caminhada, para o que considero, o monstro anti-humano e que pode vir a tornar-se catastrófico.

Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsenio Mota disse...

Prezado Carlos Rebola:

Devo-lhe, não há dúvida, um pedido de desculpas e uma explicação.
Estranhou e desgostou-se ao ver o seu comentário aparecer como «anónimo». Tem toda a razão. Mas aconteceu simplesmente isto: o seu comentário chegou-me à caixa de correio, como é normal, e não sei porque (mas há falhanços destes do sistema, é verdade, e nós bem o sabemos), ele não entrou aqui no blogue. Vendo isso, resolvi copiá-lo e inseri-lo. Daí o tal «anonimato».
Porém, caí logo no erro. Como o amigo Carlos se referia também a outra crónica, colei o seu texto no sítio errado e a emenda ficou pior que o soneto!
Meu caro, o único administrador do blogue sou eu, portanto, dispare contra o peito descoberto do único culpado! Espero, porém, que a franqueza desta explicação e a sinceridade do pedido de desculpas que lhe faço arrumem suficientemente o assunto... sem baixas.
Abraço cordial,

Carlos Rebola disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio

Fui muito precipitado e agi a quente, quem pede desculpas, por as dever, sou eu, aprendi mais uma lição, procurar outras possibilidades e analizá-las, sem me reter na que primeiro surgir. É claro que tudo está esclarecido, e arrumado. Obviamente sem tiros.

Um abraço
Carlos Rebola