quarta-feira, 15 de abril de 2009

Eu e António M. Couto Viana

«E havia mais, bem pior», escrevi no termo da crónica antecedente, pois atingira no Word a quadragésima linha. Era o momento de parar. Retomo o fio suspenso nesta página nova para explicar o que no caso era bem pior. E foi assim…
Em Janeiro do ano passado, deparei-me com o que António M. Couto Viana escrevera sobre alguns dos meus livros destinados às crianças enquanto membro do Conselho de Leitura da Fundação C. Gulbenkian. A recensão mais recente que me dedicava remontava a 2006. Percebi-lhe, sorrindo, os toques e os tiques mas, ao ler o que dizia de Tenho uma Ideia, invadiu-me a fervura e saltei.
O email que enviei à directora do Serviço de Educação e Bolsa da Gulbenkian dizia: «Estamos em Janeiro de 2008 e só agora e por acaso tomo conhecimento desta apreciação de AMCV ao meu livro. Acho-a lamentável. Porque, sem analisar a sua própria concepção da chamada “literatura para crianças”, a opõe à minha, demonstrada na obra em foco. E em que se baseia para considerar o meu livro para os 0-5 anos em vez dos 8 no mínimo? E porque supõe que uma criança não entende ou não aceita bem certos enigmas do mundo e da vida? Vejamos, então, a inteligência de AMCV, que nem foi capaz de transcrever sem graves falhas umas frases do meu livro, deturpando-as gravemente decerto para ficar mais cheio de razão contra o livro. Eu não o defendo, ele que se defenda sozinho. Mas gostaria de trocar umas impressões sobre o assunto, pois na verdade já me cansa tanta “crítica” desta a circular para impor no mercado uma literatura para crianças consumível, vulgaríssima, que não apela à inteligência, ao bom gosto, à renovação estética!»
A Drª Maria Helena Melim Borges, directora daquele Serviço, respondeu-me logo, corrigiu o nível etário e repôs a integridade das citações deturpadas. Antes das correcções lia-se: «O primeiro conto passa-se numa aula, onde o professor, traçando no ar um pequeno espaço [um círculo, figura simbólica!], interroga os alunos sobre como desejariam preenchê-lo. Com a aprovação do professor, um deles expõe a sua opinião, da seguinte forma: “Dá-me vontade de reunir muitas palavras escolhidas e de as enlaçar nas outras até formarem o cordão de um sentido, para depois se estudar [as estender], bem apoiadas nas margens do abismo, como uma fonte [ponte] salvadora, logo seguida de outras fontes [pontes] sucessivas até que o buraco fique completamente tapado por uma superfície de palavras sólidas tecidas pela fantasia”. Muito claro, como se vê! Para dificultar o assunto, o escritor apresenta uma fábula sobre dois gémeos e o rio, a tal ponto enigmática que»… / O conto Tenho uma ideia também não deve nada à clareza.»
Era notória, em AMVC, a má vontade contra mim e contra o livro, ao qual até não augurava «grande futuro». Mas ele, como leitor, poeta, e como crítico, embora já octogenário, confessava em público que não entendia as palavras que transcrevia (mal), como se fossem uma língua esquisita! Ora o livro ia na 2ª edição e de facto, até hoje, não encontrei uma criança que não compreenda a história - a vantagem da inocência!
Bem melhor recepção tiveram depois os meus livros (Tenho uma Ideia incluído) em http://www.casadaleitura.org/ igualmente da Gulbenkian.

4 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

vendo aquilo que diz, é de facto revoltoso o ataque a si feito. Mas o Mundo está cheio de ataques mesquinhos... Só é pena que não tenha reparado nessas críticas mais cedo.

Já agora, creio que o link não termina com ".pt", mas sim ".org".


Cumprimentos.

Arsenio Mota disse...

Fernando Sosa,
Meu caro:

Agradeço-lhe vivamente a correcção! Corri de imediato a trocar «pt» por «org». Isto de pressinhas+desatenções é no que dá!
Por isso o amigo Carlos Braga me dizia ontem que, clicando no link (torto), não pudera pesquisar na «Casa da Leitura». Fica explicada a dificuldade.
As minhas desculpas para ele e renovados agradecimentos para si.

jorgeguerra disse...

Prezado Arsénio Mota,

como está senhor (desde o aprazível almoço no Zambujal)?
Venho aqui lê-lo algumas vezes, mas agora estou confuso. Soube aqui mesmo do falecimento de Couto Viana, mas estranhamente não encontro na net qualquer referência. Também leio jornais diariamente e nunca topei a notícia. Parece-me que ele vivia na Casa do Artista.

Se tem a notícia como certa, acho a ausência inexplicável.

Despeço-me por agora com cordiais cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Jorge Guerra:

Obrigado pela visita,volte sempre!
Sim, creio que posso confirmar o que diz. António M. Couto Viana faleceu em data incerta, depois de ter vivido na Casa do Artista. Não se admire se um escritor já bastante idoso desaparece quase sem deixar notícia... Repare, cada vez mais a comunicação social vibra com as sonoridades mediáticas campanudas, esbatendo ou omitindo o resto. Quem lembra hoje o nome de Couto Viana? Claro, eu lembrei-o mas com evidente (e justificado) desgosto.
Cumprimentos.