sábado, 4 de abril de 2009

No Dia do livro «infantil»

Comecei a publicar com regularidade literatura para crianças por volta de 1985, há mais de vinte anos. O ambiente, nessa altura, já estava em mudança mas era ainda diverso do de hoje. Talvez valha a pena recordar o percurso feito e a experiência recolhida na passagem do Dia do livro «infantil».
Naquele ano registava-se de certo modo a presença em cena de um conjunto de elementos transformadores: os avanços da escolarização, a multiplicação das bibliotecas derivada da criação da rede de leitura pública em ligação com o desenvolvimento das editoras literárias e da indústria dos bens culturais em geral que animou também o mercado livreiro. O comércio do livro «infantil» começou deste modo a ganhar uma preponderância económica de evidente relevo.
Isso, até certo ponto, foi bom. Vulgarizou-se o livro, expandiu-se o campo da leitura. Novas camadas de autores interessaram-se pela literatura infanto-juvenil e correram para as editoras que, por seu turno, iam reforçando o negócio.
Foi bom, digo, até certo ponto. A «rotação das novidades», isto é, o tempo de permanência nas livrarias dos novos títulos do género, em crescente aceleração, mostrou ter graves consequências. Autores e obras estimáveis de um tempo recente ficaram sem demora eclipsados pela voracidade do mercado, que aprecia uma renovação constante dos consumos para obter os melhores resultados. Outra consequência nefasta resultou na vulgarização de um tipo principal de livro dito infanto-juvenil porque esse tipo conveio ao mercado.
Na verdade, declarou-se um nítido excesso presente no mercado da oferta de novelas, ou pequenos romances, de aventuras juvenis, normalmente em formato «livro de bolso». Tornou-se difícil encontrar leitores adolescentes para tanta aventura, convenientemente alegre, divertida e com um fio de mistério. Entretanto, avolumou-se a escassez de livros «para a infância»…
A apreciação crítica das obras e dos autores nunca terá sido a desejável em nenhum momento. Era como se a pequenez dos seus destinatários ideais menorizasse também, por qualquer contaminação, os próprios livros. Ainda hoje tal menorização parece persistir, em contraste com a categorização académica que mestrados e doutoramentos atribuem a certos casos.
Não é, porém, a categorização académica que terá efectiva influência no comportamento dos consumos e dos leitores no sentido de uma intervenção regular orientadora. Nestas condições, instalou-se bastante a ideia de que são bons todo o autor e todo o livro que vendam muito. Alguns historiógrafos do género assimilaram a ideia, transpondo-a para os seus estudos, e alguns autores, incansáveis, puseram-se a percorrer o país para obterem mais mercado.
A literatura infanto-juvenil passou então a valer mais como negócio, formaram-se grupos de interesses convergentes com expressão nas editoras, na composição dos júris de prémios, etc. A ideia simplória de que é melhor o que mais se vende, enraizada, mantém-se. Os grupos de interesses querem agora fundir-se num só.
Nota: Avaria no computador atrasou esta crónica, que deveria ter sido editada anteontem, dia 2.
[Na foto: borboleta transparente; existe na América do Sul.]

4 comentários:

Fernando Sosa disse...

Com ou sem avaria no computador, o que interessa é que fomos presenteados com um interessante texto da sua autoria, caro amigo.

«Nestas condições, instalou-se bastante a ideia de que é bom todo o livro e todo o autor que venda muito no mercado.» Concordo plenamente com essa afirmação, mesmo não tendo um centésimo da sua experiência na área. Editoras sempre vão encarar um livro como um negócio, caso contrário serão engolidas pelo mercado envolvente, mas os autores deveriam ter mais brio naquilo que fazem. Um livro deve ser escrito com o coração, até livros técnicos/científicos, pois até uma equação matemática fica mais simples quando temos paixão pelo tema.
Porém, o que se constata é a busca do lucro, dos prémios e da fama. Fazem-se livros com a mesma frequência com que se muda de calçado. E vão-se deixando algumas grandes obras no esquecimento. É um autêntico crime contra a Humanidade, parece que estamos a voltar a "queimar livros".

Resta-nos fugir das grandes superfícies e tentar encontrar um abrigo seguro nalguma livraria que ainda mantenha uma saudável tradição de vender grandes obras.


Cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

Congratulo-me com o seu comentário e agradeço-lhe o apoio. Eu acho que nem todas as editoras de livros buscam sempre o lucro, pelo menos o lucro fácil, e tanto assim é que, sendo autor não mediático ou de tiragens razoáveis, tenho vindo a publicar as minhas coisas.
Aliás, autores mediáticos, que vendam muito e depressa, não podem ser muitos por carência de espaço vital...
Mas nestes termos estou aqui a conversar consigo, cônscio de que, ao que parece, ficámos como que a falar sozinhos neste blogue.
Muito obrigado pela companhia!
Abraço cordial.

Fernando Sosa disse...

Pequei pela generalização das editoras, pois concordo que ainda existem umas resistentes. Mas são cada vez mais excepção à regra, pelo que me parece. Mas volto a frisar que neste campo perco por muitos pontos face à sua experiência.

Por certo que em breve terá mais que a minha companhia novamente.

Cumprimentos.

A. M. disse...

Caro amigo:

A sua companhia é das melhores! E eu julgo que nunca acreditei que a «quantidade» equivalia mesmo a «qualidade» garantida... Fiquemo-nos então por aqui e por ali em amenos diálogos!
Quanto às editoras, parece-me que as menos comerciais, digamos assim, têm o lugar e a expansão que o mercado lhes concede. O mercado que nós, os leitores de livros, somos para todos os efeitos...
Abraço.