segunda-feira, 6 de abril de 2009

Uma história com ratos

Mexer nas recordações é, reconhecidamente, como querer extrair uma única cereja de um cesto acumulado. As recordações não se emaranham menos umas nas outras. E aqui estou às voltas do que me aconteceu há mais de vinte anos com uma história de ratos.
Era uma história para crianças ainda inédita e resolvi propô-la a concurso para um prémio então criado para defender a conservação do Ambiente no plano da literatura infanto-juvenil. Honestamente, afigurou-se-me que tinha boas hipóteses de vencer…
De facto, a minha história punha ratarias domésticas, das águas e dos campos, em reunião plenária, a queixarem-se de problemas que já punham em risco a sua saúde e condições de sobrevivência. Relacionava deste modo diversos elementos da abordagem ecológica. As águas e as terras carregadas de produtos químicos tóxicos e a concentração urbana com abundante acumulação de lixos com restos de comida, entre prédios envelhecidos e espaços ao abandono, facilitam um crescimento das ratarias tão anormal que era declarado perigoso para ratos e homens.
Quis que a história fosse fantasiosa e divertida, mas que deixasse também realçada, com nitidez, a ideia fundamental de que os ratos fazem parte do sistema da natureza que nos integra e que, portanto, não podemos deixá-los crescer à solta ou querer exterminá-los como uma praga sem com isso nos ameaçarmos a nós próprios. Temos antes de saber coexistir harmoniosamente, ratos e homens, com todas as variedades de fauna e flora.
A história foi publicada, sem réstia de prémio, primeiro em brochura autónoma (Ed. Afrontamento, 1986) e depois na colectânea Caras e Bichos Caretas (Ed. Caminho, 2001). O júri distinguiu uma outra obra concorrente. O Ambiente na literatura infanto-juvenil era ali tratado nestes termos: rádios espalhavam poluição sonora na praia, onde pessoas deixavam na areia embalagens de gelados, etc.
Para mim, isso era uma banalidade confrangedora… Para o júri, a minha história de ratos era de compreensão difícil, talvez inacessível. E as criancinhas precisam de ser poupadas a tamanhos esforços de inteligência…
Não tardou, até uma senhora também autora de livros para crianças, num comentário de jornal ao livrinho, apareceu a confessar que a minha história a deixara assustada! Ora eu brinquei com aqueles animais na infância e acredito que a miudagem continua a brincar, mas nunca consegui explicar bem o assunto a quem se assustava com ratos numa simples leitura.
Começou ali, então, esta disputa que parece longe de terminar. Vejo autores, críticos e editores, batalhão formado, a avançar pelo caminho que quer para as crianças tudo posto em termos muito simples, claros e explicadinhos, mas que, na minha opinião, as infantiliza ao minimizar nelas as capacidades de entendimento. Eu aposto que uma criança, digamos «normal», é bem capaz de possuir e desenvolver intuições poéticas que anos mais tarde o crescimento atrofia. E vou ao ponto de supor que temos por cá numerosos adultos que se esqueceram de que foram o que foram quando crianças…

5 comentários:

Fernando Sosa disse...

Seria óptimo que surgisse um psicólogo ou experimentado pedagogo que pudesse acrescentar algo a este tema. Enquanto essa pessoa não aparece, deixo aqui o meu curto e humilde comentário.

Tenho andado a ler um livro (até já o queria ter acabado, mas o modo como tenho ocupado o tempo não me permite) de José António Marina, intitulado «Aprender a Viver». Escrito de uma forma clara, o que é óptimo para puder tocar a mente de todos os pais e futuros pais, o autor dá provas das capacidades mentais das crianças logo desde os primeiros dias de vida. Logicamente que o raciocínio só vem muito tempo depois, mas o instinto conjugado com o meio envolvente e com o potencial da criança assemelham-se a um verdadeiro milagre.
O problema é que existem milhões de crianças que não recebem a atenção necessária para se desenvolver e atingir a felicidade em sociedade: a algumas falta carinho, a outras meios de subsistência e mais uma panóplia de importantes estímulos.

O que quero dizer é: estaremos a encaminhar bem estas novas gerações? Se calhar exigimos pouco, mas também não daremos as condições necessárias para exigir mais - isto generalizando, claro está.


Desta feita é o amigo que me tem de perdoar pela extensão do comentário.

Cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

Tenho muito prazer em lhe referir que, pensando na matéria conforme penso, me sinto em confortável e abundante companhia!
Perguntará: então como se explica a voga da corrente de opinião que eu foco e rejeito?
Pois é, meu caro, é este o resultado visível da instalação, nas mentalidades predominantes, da «ideologia do mercado», que se traduz, como digo no post, em considerar mecanicamente como bom o que mais se vende e consome.
Não conheço o livro «Aprender a Viver», mas já acredito que aponta para direcções correctas se defender que os pais dêem mais (ou toda) a atenção aos filhos, que passem tempo com eles e que os habituem aos inevitáveis «nãos» impostos pelas realidades da vida.
Põe o dedo no busílis ao perguntar se estarão estas novas gerações a ser bem encaminhadas, isto é, bem educadas/humanizadas. Francamente, receio que não. Tudo está a falhar: família, escola, sociedade, religião...
Diga-me, por favor, que estou a exagerar e a ver mal! Por favor, corrija-me!
Saúdo-o cordialmente (pedindo-lhe que escreva sempre o mais possível).

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

seria com muito gosto que discordaria de si quanto à educação/humanização destas novas gerações, mas temo que não o possa fazer. Mas como louco que alguns me poderão achar, penso que ainda é possível inverter o rumo.
O Futuro o dirá!

Cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

Costumo dizer que o que mais temos garantido é... o futuro. O futuro da vida, do mundo (ainda que reduzido este a cacos, quero dizer). O problema está em saber que qualidade de futuro vai poder ter a vida em geral, o mundo...
Creio que concordará perfeitamente com isto, hesitei até em debitar estas linhas, venceu-me apenas o gosto da conversa.
Votos de Páscoa feliz!

Fernando Sosa disse...

Acertou: concordo! Uma boa conversa só faz bem, até mesmo quando o tema é problemático. Porque se não tocarmos no assunto ele também não melhorará.

Obrigado e para si também!