Fazer anos não tem nenhum mérito especial. Mas quando isso nos deixa quase à porta dos oitenta, os amigos reforçam os cumprimentos, apreciando e festejando decerto a longevidade. Merecem que em sua intenção escreva uma resenha dos acontecimentos principais registados no ano em que nasci.
Em 1930 estava uma boa metade do mundo a debater-se no buraco do famoso crash que, visto a esta distância, parece recuar a um remoto século, a uma outra era. Dizem agora os entendidos que o crash actual, designado como crise económico-financeira, é bem pior buraco do que o antigo, afinal um simples degrau preparatório a descer para o abismo.
Apesar de tudo, 1930 foi um ano efervescente. Salazar, ministro interino das Colónias, promulga o Acto Colonial e surgem os caboucos da União Nacional. O nazismo avança na Alemanha (onde os socialistas ganham 143 lugares e os comunistas 77, enquanto os nazis obtêm 107 lugares sobretudo à custa dos eleitores moderados). A cidade de Constantinopla, antes Bizâncio, passa a chamar-se Istambul. Mahatma Gandhi inicia na Índia a sua campanha de desobediência civil que desembocará na independência do poder colonial inglês pela via da não-violência.
J. M. Keynes, apoiante do nacional-socialismo hitleriano, publica o Tratado sobre o Dinheiro, Ortega y Gasset A Revolta das Massas, Albert Einstein Sobre o Sionismo, Leão Trotsky a sua Autobiografia e Wilhelm Reich Maturidade Sexual, Continência, Moral Conjugal. Na União Soviética 55% dos camponeses ficam integrados em unidades colectivas de produção e são inventados o plástico acrílico e o flash. Segismundo Freud publica O Mal-Estar da Cultura e o bispo de Leiria declara dignas de crédito as aparições de Fátima.
O Salão dos Independentes lança a polémica sobre as tendências da arte e Robert Musil aparece com O Homem sem Qualidades, Vladimir Maiakovski com Os Banhos e Dashiell Hammett com O Falcão de Malta. Arnold Schönberg estreia a ópera De Hoje para Amanhã e Igor Stravinski a Sinfonia dos Salmos. Aquilino Ribeiro lança O Homem Que Matou o Diabo e Ferreira de Castro A Selva. Bertolt Brecht põe no palco A Excepção e a Regra enquanto Andre Bréton divulga o Manifesto do Surrealismo.
Os realizadores cinematográficos andavam num idêntico frenesim. Manoel de Oliveira fazia Douro, Faina Fluvial, Leitão de Barros Maria do Mar, J. von Sternberg O Anjo Azul, René Clair Sob os Telhados de Paris, Alfred Hitchcock Assassínio, etc. Tudo isto tem hoje um cheiro inconfundível a mofo, a insinuar que a nossa vida vivida já possui algo de histórico... e, veja-se, nascemos quando Raul Brandão se finava e Herberto Helder nascia (a 23 de Novembro). Assistimos à popularização da radiofonia, ao aparecimento da televisão e dos motores a jacto. Escapámos à Segunda Grande Guerra e sobrevivemos ao racionamento, à repressão salazarista, à moral farisaica. Envolveu-nos, depois da democratização, a onda da comunicação de massas, a massificação das telecomunicações, a informática, a internet...
Massificados ficámos? Consumidores consumidos pelo deus mercado todo-poderoso? Incapazes, sempre, de exclamar com saudade: «ai, no meu tempo, é que foi»!
2 comentários:
Antes de mais caro amigo,
Muitos Parabéns! Ainda que com algum atraso, espero que tenha tido um bom dia. Receio é que desde de 1974 tenha visto sempre as atenções sobre o seu aniversário repartidas com a Revolução dos Cravos. Porém, e mesmo que os dias de hoje não sejam os idealizados por muita boa e atenta gente, creio que concorda que vale a pena ver os holofotes virados para tão importante acontecimento em vez de para a sua comemoração privada.
Ao ler este seu texto, dá-me a sensação que perdi muita, muita coisa mesmo. E não será só a sensação, por certo. Mas é assim, cada geração tem os seus acontecimentos marcantes. Como jovem que sou, como verei eu o ano de 2009 daqui a meio século? O que ficará para a História?
O cenário não é dos melhores actualmente, mas confio que a Mudança possa começar em breve. Em Portugal e no Mundo. E, nós por cá, temos este ano três oportunidades para demonstrar que queremos líderes diferentes. Resta saber se as vamos aproveitar.
Um grande abraço para si experienciado amigo!
Caro Fernando Sosa:
Muito obrigado pelas felicitações que me envia, chegam sempre a bom tempo. De qualquer modo, nunca deixei de sentir que festejar o «25de Abril» é também, desde 1974, festejar os meus aniversários! Porque ficou desde então estabelecido na minha vida, pela força dos acontecimentos, um «antes» e um «depois» perfeitamente distinguidos. Acrescento: não gosto de holofotes virados para mim...
É verdade, estes tempos vão calamitosos. Por exemplo, li hoje que haverá 400 mil portugueses com contratos de reinserção social. E ouvi que uns 40% dos desempregados não recebem subsídio.
Mas creio que ninguém escolhe o seu tempo de vida, nem os seus pais, o seu nome e, tantas vezes, sequer o seu país. Por outro lado, não consigo acreditar mais no funcionamento das eleições e dos partidos para a resolução mínima dos problemas socioeconómicos e culturais em que nos debatemos. Isso é, jugo eu, simples democracia representativa, mera fachada democrática, que perpetua no verdadeiro poder quem efectivamente manda. Mas isto, caro Fernando Sosa, é o optimismo mais ou menos informado a falar, portanto só tenho que saudar com esperança a sua esperança nas eleições vindouras, em todos os partidos
novos e inovadores,a sua esperança no futuro. É jovem, diz, o futuro pertence-lhe -- oxalá seja generoso consigo tal como é generoso comigo!
Repito, muito obrigado!
Enviar um comentário