sábado, 2 de maio de 2009

1930 em visita

Fazer anos não tem nenhum mérito especial. Mas quando isso nos deixa quase à porta dos oitenta, os amigos reforçam os cumprimentos, apreciando e festejando decerto a longevidade. Merecem que em sua intenção escreva uma resenha dos acontecimentos principais registados no ano em que nasci.
Em 1930 estava uma boa metade do mundo a debater-se no buraco do famoso crash que, visto a esta distância, parece recuar a um remoto século, a uma outra era. Dizem agora os entendidos que o crash actual, designado como crise económico-financeira, é bem pior buraco do que o antigo, afinal um simples degrau preparatório a descer para o abismo.
Apesar de tudo, 1930 foi um ano efervescente. Salazar, ministro interino das Colónias, promulga o Acto Colonial e surgem os caboucos da União Nacional. O nazismo avança na Alemanha (onde os socialistas ganham 143 lugares e os comunistas 77, enquanto os nazis obtêm 107 lugares sobretudo à custa dos eleitores moderados). A cidade de Constantinopla, antes Bizâncio, passa a chamar-se Istambul. Mahatma Gandhi inicia na Índia a sua campanha de desobediência civil que desembocará na independência do poder colonial inglês pela via da não-violência.
J. M. Keynes, apoiante do nacional-socialismo hitleriano, publica o Tratado sobre o Dinheiro, Ortega y Gasset A Revolta das Massas, Albert Einstein Sobre o Sionismo, Leão Trotsky a sua Autobiografia e Wilhelm Reich Maturidade Sexual, Continência, Moral Conjugal. Na União Soviética 55% dos camponeses ficam integrados em unidades colectivas de produção e são inventados o plástico acrílico e o flash. Segismundo Freud publica O Mal-Estar da Cultura e o bispo de Leiria declara dignas de crédito as aparições de Fátima.
O Salão dos Independentes lança a polémica sobre as tendências da arte e Robert Musil aparece com O Homem sem Qualidades, Vladimir Maiakovski com Os Banhos e Dashiell Hammett com O Falcão de Malta. Arnold Schönberg estreia a ópera De Hoje para Amanhã e Igor Stravinski a Sinfonia dos Salmos. Aquilino Ribeiro lança O Homem Que Matou o Diabo e Ferreira de Castro A Selva. Bertolt Brecht põe no palco A Excepção e a Regra enquanto Andre Bréton divulga o Manifesto do Surrealismo.
Os realizadores cinematográficos andavam num idêntico frenesim. Manoel de Oliveira fazia Douro, Faina Fluvial, Leitão de Barros Maria do Mar, J. von Sternberg O Anjo Azul, René Clair Sob os Telhados de Paris, Alfred Hitchcock Assassínio, etc. Tudo isto tem hoje um cheiro inconfundível a mofo, a insinuar que a nossa vida vivida já possui algo de histórico... e, veja-se, nascemos quando Raul Brandão se finava e Herberto Helder nascia (a 23 de Novembro). Assistimos à popularização da radiofonia, ao aparecimento da televisão e dos motores a jacto. Escapámos à Segunda Grande Guerra e sobrevivemos ao racionamento, à repressão salazarista, à moral farisaica. Envolveu-nos, depois da democratização, a onda da comunicação de massas, a massificação das telecomunicações, a informática, a internet...
Massificados ficámos? Consumidores consumidos pelo deus mercado todo-poderoso? Incapazes, sempre, de exclamar com saudade: «ai, no meu tempo, é que foi»!

2 comentários:

Fernando Sosa disse...

Antes de mais caro amigo,

Muitos Parabéns! Ainda que com algum atraso, espero que tenha tido um bom dia. Receio é que desde de 1974 tenha visto sempre as atenções sobre o seu aniversário repartidas com a Revolução dos Cravos. Porém, e mesmo que os dias de hoje não sejam os idealizados por muita boa e atenta gente, creio que concorda que vale a pena ver os holofotes virados para tão importante acontecimento em vez de para a sua comemoração privada.

Ao ler este seu texto, dá-me a sensação que perdi muita, muita coisa mesmo. E não será só a sensação, por certo. Mas é assim, cada geração tem os seus acontecimentos marcantes. Como jovem que sou, como verei eu o ano de 2009 daqui a meio século? O que ficará para a História?
O cenário não é dos melhores actualmente, mas confio que a Mudança possa começar em breve. Em Portugal e no Mundo. E, nós por cá, temos este ano três oportunidades para demonstrar que queremos líderes diferentes. Resta saber se as vamos aproveitar.


Um grande abraço para si experienciado amigo!

Arsenio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

Muito obrigado pelas felicitações que me envia, chegam sempre a bom tempo. De qualquer modo, nunca deixei de sentir que festejar o «25de Abril» é também, desde 1974, festejar os meus aniversários! Porque ficou desde então estabelecido na minha vida, pela força dos acontecimentos, um «antes» e um «depois» perfeitamente distinguidos. Acrescento: não gosto de holofotes virados para mim...
É verdade, estes tempos vão calamitosos. Por exemplo, li hoje que haverá 400 mil portugueses com contratos de reinserção social. E ouvi que uns 40% dos desempregados não recebem subsídio.
Mas creio que ninguém escolhe o seu tempo de vida, nem os seus pais, o seu nome e, tantas vezes, sequer o seu país. Por outro lado, não consigo acreditar mais no funcionamento das eleições e dos partidos para a resolução mínima dos problemas socioeconómicos e culturais em que nos debatemos. Isso é, jugo eu, simples democracia representativa, mera fachada democrática, que perpetua no verdadeiro poder quem efectivamente manda. Mas isto, caro Fernando Sosa, é o optimismo mais ou menos informado a falar, portanto só tenho que saudar com esperança a sua esperança nas eleições vindouras, em todos os partidos
novos e inovadores,a sua esperança no futuro. É jovem, diz, o futuro pertence-lhe -- oxalá seja generoso consigo tal como é generoso comigo!
Repito, muito obrigado!