quinta-feira, 7 de maio de 2009

Apocalipse em 2012

Estamos no século vinte e um, reclama quem protesta contra a persistência de certos anacronismos aspirando à modernização que varra do nosso tempo velharias de todo o género, perniciosas, abstrusas ou empecilhentas. Mas alguém ouve? As evidências troçam dos protestos. Este século vira-se decididamente para a negação da inteligência racional, fonte única de toda a modernização.
Disso mesmo tem falado aqui bastantes crónicas desta actual-idade. Falam de um recuo geral da luz do conhecimento para um negrume algo medievo onde a grosseria individual se avizinha da ileteracia, a brutalidade da propensão para agredir e a barbárie implantada se avizinha da destruição humana a consumar-se. A inteligência racional das massas, como que já cansada ou desiludida consigo mesma, entra numa espécie de eclipse e, querendo adormecer e desistir, decreta a sua desacreditação.
As evidências espalham-se e multiplicam-se. Também os medos, medos irracionais que podem ter pé em augúrios de Nostradamus, Bandarra ou um qualquer outro profeta, ou medo do próximo ciclo solar que ameaça alterar perigosamente o «escudo» magnético que livra a Terra das piores radiações e é capaz de «desnortear» bússolas e polarizações. Ou de uma pandemia de gripe...
O ano de 2012 surge em vários discursos apresentados em tom sério e «científico» como o ano do Apocalipse. Prosperam os videntes, as bruxas, os adivinhos, novos xamãs da tribo. Gente sofisticada e culta (dizem), inclusive empresários, jogadores da Bolsa e de futebol, consultam nigromantes entendidas no tarot e demais sortilégios que anunciam o futuro. Cansaram-se a repetir os especialistas que o nível de saúde mental ia baixo e que enfraquecia a capacidade de autogoverno.
Os signos do zodíaco tornaram-se mais e mais populares, ganha a astrologia à astronomia já que poucos erguem o nariz para contemplar o céu. As chamadas ciências ocultas povoam-se de magias negras, macumbas de cores africanas, feitiços brasileiros. As superstições entram na onda de mistura com muita esquizofrenia, a insegurança generalizada, o desgarramento dos indivíduos.
Sedimenta-se uma crença no destino traçado por uma qualquer justiça imanente, cresce um fatalismo que se identifica com a consciência do fim colectivo. É o «fim do tempo», o limite supremo atingido pela consciência de que não mais poderíamos continuar assim. Como num sonho desvairado, acordamos não à beira do abismo mas já em queda e sem salvação.
O dealbar deste primeiro século do segundo milénio traz consigo um crepúsculo carregado de premonição e tragédia. As massas estão domesticadas, abúlicas, atónitas, ausentes. Maduras para o que os senhores do mundo queiram dispor. Prontas para a sorte que lhes for prescrita: aceitarão passivamente a perda da liberdade, da democracia, em troca da opressão violenta, da fome e da guerra, em pagamento e expiação de faltas e erros de alguém que viveu num lugar estranho, num outro tempo...
Mas também poderão despertar, num sobressalto de horror, e atirar um berro uníssono e potente como tiro de libertação.

4 comentários:

Fernando Sosa disse...

Resta assim aos "não-adormecidos" despertar os restantes. A salvação, embora difícil, é possível.


Bom fim-de-semana caro amigo.

A. M. disse...

Pois é, direi eu consigo. Mas olhe, ficámos aqui sozinhos a comentar, uma bela carrada de amigos foi dar uma volta por aí e não diz quando tenciona voltar!...
Desejo-lhe também um óptimo domingo, agradecendo-lhe os votos.

Isabel disse...

Gostaria de acreditar que existe a possibilidade de, um dia, as pessoas (massas hipnotizadas pelas sagazes artimanhas dos capitalistas!) acordarem do torpor em que se encontram mergulhadas e darem o grito de libertação que referes, caro amigo, mas, a avaliar pela proliferação diária de injustiças e misérias resignadamente aceites pelas populações, nomeadamente no nosso Portugal, não vejo essa possibilidade emergir assim tão cedo.

PS: Tenho estado desaparecida, mas nunca esquecida de ti.

Um beijo grande, bom amigo!

IMD

A. M. disse...

Olha, olha! Surpresa tamanha, Isabel passou por aqui! Senti-me beijado (em grande) -- é favor, querida amiga, uma rápida repetição desta dose... enquanto esperamos pelo grito de libertação que tarda!...