sábado, 23 de maio de 2009

Carta para Linda Ln

Caro amigo: Da tua ida ao Uruguai, há uns meses, em sentimental busca de parentela, trouxeste-me uma especial lembrança: um livrinho de poemas, edição de bolso. O autor não tinha nome neste lado do oceano, era um desconhecido: Mario Benedetti.
Li a obra e senti-me um tanto perplexo. O poeta, apresentado pela editora como autor de uns oitenta títulos de todos os géneros e um dos escritores latino-americanos mais lidos, cultivava uma expressão de simplicidade desarmante. Fiquei em amadurecer a primeira leitura, pois algo me prevenia contra a pressa.
Porém, a releitura tardou no corropio de constantes solicitações e, por isso, nem cheguei a agradecer-te a lembrança (queria enviar-ta com as minhas impressões). Penitencio-me agora da omissão, percebendo, porque te conheço, que indagaste em Montevideu que notabilidade literária máxima havia ali, no espaço nacional, para ma trazeres em oferta e revelação.
Revelação foi, sem dúvida. Tardia. Sei agora que Mario Benedetti é um verdadeiro desconhecido em Portugal, apesar de uma editora lisboeta lhe ter publicado dois romances renomados que todavia quase ninguém leu. E sei-o agora porque Mario Benedetti acaba de morrer e aparece referido na imprensa.
Em sua homenagem e agradecimento a ti devido, traduzo a seguir dois poemas do livrinho tentando penetrar o mais possível no alento que ali respira escondido.


DEPOIS

O céu sem dúvida não será este de agora
quando me aposentar o céu
vai durar todo o dia
todo o dia cairá
como chuva de sol sobre a minha calva.

Eu estarei um pouco surdo para escutar as árvores
mas de todos os modos saberei que existem
talvez um pouco velho para andar na areia
mas o mar ainda me deixará melancólico
estarei sem memória e sem dinheiro
com o tempo nos meus braços como um recém-nascido
e chorará comigo e chorarei com ele
estarei sozinho como uma ostra
mas poderei falar dos meus fiéis amigos
que como sempre relatarão da Europa
seus cada vez mais tímidos contrabandos e galardões.

Claro estarei na orla do mundo contemplando
desfiles de crianças e pensionistas
aviões
eclipses
e regatas
e porei o chapéu para mirar a lua
ninguém me pedirá relatórios nem balanços nem cifras
e só terei horário para morrer
mas sem dúvida o céu não será este de agora
esse céu de quando me aposentar
terá vindo demasiado tarde.


EDITORIAL

A nação é uma maçã
uma vermelha e convidativa maçã
e não sabemos quem a morderá

a nação é uma corneta
uma rouca gasta corneta
e não sabemos quem a tocará

a nação é uma lagosta
uma atlética horrível lagosta
e não sabemos quem a matará

ah nós estamos pela Reforma
ou seja afogamos as cornetas na sua tinta
e comemos as maçãs com a sua casca
e convidamos as lagostas para o chá dos domingos

claro que estamos pela Reforma
ou - por outras palavras - contra a Reforma
e já que o prestigioso colega nos recorda
que onze por cento dos nossos lactantes
são comunistas e úteis cretinos
o nosso próximo slogan terá que ser
dar-lhes-emos biberões com arsénico

assim estaremos moralmente preparados
para regar com método e talvez com piedade
a terra dos homens de boa vontade.

Mario Benedetti, Poemas de la oficina / Poemas del hoyporhoy (1956-1961), Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 2000, pp 24 e 44, respectivamente.

3 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

também só fiquei a conhecer este escritor aquando das notícias sobre o falecimento. Porém, a minha cultura geral e/ou conhecimentos literários são muito mais reduzidos que os do caro amigo, não sendo, por certo, o meu espanto tão grande como o seu, relativamente ao desconhecimento sobre tal autor.

Sobre os dois poemas, o meu entendimento é limitado por duas razões distintas:
- no que diz respeito ao primeiro, embora possa «cheirar» o seu conteúdo, só o deverei entender plenamente daqui a muitos anos, se até lá viver;
- o segundo poema creio que para ser bem compreendido dever-se-á ter um sólido conhecimento sobre a política nacional e regional das origens de Mario Benedetti, conhecimento esse que não tenho plenamente consolidado.


Cumprimentos.

A. M. disse...

Olá, caro Fernando Sosa!
A nota primeira que subjaz ao que escrevo a propósito de Mario Benedetti é a de que os europeus que lêem livros continuam na onda das modas: passou o «boom» (anos 70, digamos) dos latinos-americanos, ficou o «deserto»...
Quanto aos dois poemas, concordo inteiramente. Por algo foram os escolhidos: DEPOIS pareceu-me adequado aquando da sua morte; EDITORIAL espelha a face humana e cidadã do autor, que andou exilado tantos anos por outros países hispanófonos porque simplesmente intervinha nas coisas do seu país. Percebo o alcance de diversas metáforas no texto mas também me falta um conhecimento cabal de todo o contexto envolvido.
Foi, mais uma vez, um prazer conversar consigo.
Saudações cordiais.

Anónimo disse...

Caro amigo, Arsénio Mota:

Acabo de guardar estas duas pérolas (poemas)na minha colecção pessoal.
Obrigado por tê-las trazido à luz do dia.
Abraço,
João Cruz