domingo, 31 de maio de 2009

Como ler um dicionário


São de vário género os dicionários existentes. Quase todos, porém, partilham a característica distintiva: contêm informação útil. Servem para consultas, tirar-dúvidas ou tirar-teimas. Mas um dicionário, pelo menos, pede propriamente uma leitura. Não aspira a ser consultado apenas pelas entradas que contém, quer também suscitar uma apreciação de outro nível.
É o caso do dicionário que publiquei em 2001 para recensear os escritores, artistas, músicos, poetas e animadores de teatro popular nascidos ou ligados de algum modo à Bairrada. Embora servindo para o que todo o dicionário serve, pede uma abordagem diferente. Será esta uma opinião suspeita? Passo a explicar.
Pela primeira vez, ao que parece, aquela obra tentou coligir todos os autores (então já falecidos) que constituíram e de algum modo compuseram o mosaico da «paisagem cultural» de uma região caracterizada. E eis o que fica então à vista: as circulações e práticas culturais, nas suas variadas corporizações vivas ali ocorridas ao longo do tempo. O meu dicionário oferece uma visão panorâmica da imagem do que tem sido «cultura» na Bairrada até aos nossos dias.
Surpreende decerto que a obra recenseie uns 170 autores tendo em conta a relativa pequenez e o ambiente rústico tradicional do espaço em foco. Mas a Bairrada, planície baixa bastante fértil situada entre Aveiro e Coimbra, quase bate à porta da lusa-Atenas, o que poderá explicar alguma coisa. Além disso, como é natural, sempre houve bairradinos cultos que se enraizaram na região enquanto outros se dispersaram. A obra referencia mesmo autores de origem externa que, por relações pessoais de amizade ou outras, marcaram presença na terra do vinho e do leitão, colaborando nos seus jornais ou deixando intervenção memorável.
É notório, de facto, o relevo que a região atinge graças a obras devidas a vultos como António Feliciano de Castilho (autor do romance Mil e um Mistérios) cuja juventude ficou tão ligada à terra natal de seu pai, ou como António Augusto de Aguiar, Fialho de Almeida, Machado de Castro, António Lima Fragoso, Manuel Rodrigues Lapa, Alexandre da Conceição, António de Cértima, Tomás da Fonseca (revelou o Poeta-Cavador, escreveu o romance Filha de Labão), Samuel Maia, Emídio Navarro, Visconde de Seabra, Fausto Sampaio, Luís de Albuquerque, Arlindo Vicente, e tantos, tantos mais. Compuseram música e poesia, pintaram, escreveram ficções, estudos… Alguns destes autores principais dispõem de informação acessível, mas o Dicionário de Autores da Bairrada referencia imensos outros que andam omissos ainda que tenham avultado no seu tempo. E será o único a registar as ligações de todos à Bairrada.
Com este «modelo», decerto algo inovador, o dicionário dá a ver a realidade de um movimento cultural no terreno, percebendo quanto sai do espaço regional para o espaço nacional, e vice-versa. Admirará que uma segunda edição digital, corrigida e aumentada, esteja em oferta para descarga neste blogue porque a reedição impressa ficou inédita? Era resultado previsível atendendo à rareza do conceito «região» entre nós, em divergência, por exemplo, com Franceses ou Espanhóis.

4 comentários:

Fernando Sosa disse...

Olá Caro Amigo,

perdoe a ausência, embora que já por mim anunciada em espaço próprio.

É com regozijo que verifico que a sua fértil veia literária perdura neste meio.
O dicionário que refere parece sem dúvida muito interessante, especialmente para quem nessa região habita e tem o «bichinho» da leitura. Parece-me, também, uma merecida homenagem ao Escritor, que tanta vez vê as suas obras engolidas pelo tempo e modernice abrupta.

Cumprimentos e até breve!

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

Não há que perdoar coisa nenhuma, ora essa, apenas manifestar gratidão pela sua gentileza e solicitude.
Imagino-o a trabalhar e a estudar, duas ocupações absorventes tanto como se sabe, de modo que está bem justificado por todas e quaisquer ausências. E então agora, neste período do ano, estamos entendidos...
Mas também não podemos esquecer que queremos estes espaços de convívio e partilha perfeitamente livres.
Quanto à minha Bairrada natal, recordarei apenas que com aquele Dicionário encerrei um ciclo de obras que, desde 1990, conforme ficou evidenciado, colocaram aquela região no universo da cultura por direito próprio. Isso me bastou...
Saudações cordiais e votos de excelentes resultados!

Fernando Sosa disse...

Agradeço os votos!

Cumprimentos e continue publicando, sempre a engrandecer a nossa língua!

Henrique Dória disse...

Caro Arsénio Mota
A minha pequena vaidade faz-me desejar figurar na lista dos seus autores da Bairrada.Terra de barro e vinho.
Gostaria que visitasse o meu blog.
Sou da Póvoa do Bispo.Ali encostada à Pocariça de António Lima Fragoso, o grande compositor nacional que poderia ser o nosso maior compositor se vivesse mais tempo. Mas morrem jovens os que os deuses amam, não é?