segunda-feira, 11 de maio de 2009

A ideologia do mercado


Aponto o dedo desde há anos para a nefasta expansão da ideologia do mercado. Assim designo uma feição ideológica procriada pelo neoliberalismo agora mergulhado em profunda crise. Mas poucas têm sido, em geral, as chamadas de atenção para o fenómeno. Porém, há dias veio da América o Nobel de Economia de 2001 palestrar a Lisboa, falou sem papas na língua e, felizmente, tem opinião sonora.
O senhor não poderia ser mais claro. Segundo li, explicou as fraudes, as ganâncias e toda a hecatombe económico-financeira do capitalismo globalizado responsabilizando os donativos, cada vez mais vultosos e chorudos, que magnatas foram dando aos políticos (ali, aqui, acolá) para que aprovassem regulamentações «favoráveis» e afrouxassem as supervisões legais. Ousou mesmo observar (suprema heresia) que esta crise global resultou de uma luta de classes desencadeada pelo topo da pirâmide social para extrair da base os tostões.
Assim fica atestado na vinha (o mundo) o escalracho (a corrupção). E também contada fica a história do neoliberalismo e entendida a origem da ideologia do mercado, visível, aliás, desde que começaram a valer como prova distintiva e qualificadora os mais altos consumos do mercado. Por exemplo, o livro que estivesse a ser comprado por milhares de pessoas tinha que ser bom, isto é, digno de sucesso.
O livro, ou qualquer outro produto de consumo, serviria portanto para as necessidades práticas e espirituais de qualquer povo em qualquer país! Promovia-se a formatação das populações
- silenciosa mas violenta e opressiva - no molde único que convinha ao mercado. As produções em massa eram prestigiosas porque, alegadamente, pertenciam a marcas «eleitas» pelo mercado (comandado pelo marketing).
Os teólogos da ideologia do mercado chegaram a pô-lo no altar como a expressão acabada da democracia, teimando sempre, às cegas, que o mercado podia e sabia auto-regular-se. Hoje sabemos que gera concentrações, massificações e desumanização. A variedade do mundo, a capacidade natural para a renovação da vida, a liberdade criadora iam ficando esmagadas pelo cilindro compressor posto a rolar.
Recordo um caso. Folheei certo dia uma pretensa história da literatura infanto-juvenil em Portugal. O seu autor, em prova académica, focava autores e obras ao longo do tempo, desde o aparecimento dos assomos iniciais do género até à contemporaneidade. Nada a estranhar. A partir, porém, dos anos ’80, a bitola do autor alterou-se. Passou a avaliar os autores e as obras não por cânone pessoal, fosse qual fosse, mas atendendo nitidamente à dimensão visível que tivessem no mercado.
Quer dizer, aquele «historiador» demitia-se ali do seu papel de «historiar» reconhecendo tão-só os autores mais mediáticos e as obras com maiores sucessos de vendas. Prescindia de assumir opinião própria ao submeter-se aos ditames do mercado, ou seja, em última análise, aos poderes do marketing comercial e das autopromoções pessoais. Onde iriam entrar a categorização estético-literária, a qualificação do género em arrumação crítica? Aquilo era uma sociologia dos consumos, nada mais. Perguntei-lhe: será melhor o que mais se vende? Não me respondeu… e eu a querer diálogo!

2 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

permita-me pegar numa parte inicial do seu texto para, humildemente, propor uma correcção: em 2001 foram três os nomeados (George Akerlof, A. Michael Spence e Joseph Stiglitz) e aquele a que habitualmente chamamos o Prémio Nobel da Economia é antes o Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel. Isto porque, tanto quanto pesquisei, o sobrinho bisneto de Alfred Nobel, Peter Nobel, e outros descendentes não aceitam que se crie um Nobel para a área económica.

Visto esse pormenor, passemos agora ao tema propriamente dito. A economia de mercado enquanto sistema de consumo massivo trouxe sem dúvidas várias consequências graves para o nosso Mundo, tanto a nível ambiental como a nível psico-sociológico. A materialidade continua a avançar e "julgamos" ser mais importante ter um bom telemóvel do que uma boa refeição. Agora, também acredito que o mercado pode trazer benefícios às populações (emprego, bens de subsistência globais, lazer, etc.), desde que devidamente regulado - esse campo lexical que todos agora usamos. Coisa que não tem sido feita e que tenho as minhas dúvidas se vai começar a sê-lo com transparência e rigor.


Cumprimentos.

Arsenio Mota disse...

Caro Fernando Sosa:

É bem-vinda a precisão que faz. Nem precisaria de a fazer «humildemente» para lha agradecer! Mas, como sabe, e diz, tornou-se vulgar a designação do Nobel «da Economia» em vez de Ciências Económicas. O hábito cria a norma...
Entretanto, o facto de o prémio ter sido atribuído «ae-exequo» não significa, creio eu, que Joseph Stiglitz não foi também «nobelizado».
Quanto ao mais, caro amigo, eu tive em conta no meu texto o neoliberalismo, não a economia de mercado propriamente dita. Um pormenor, em suma.
Renovo os meus agradecimentos.
E vai um abaraço.