quinta-feira, 18 de junho de 2009

De olhos nos olhos

Estou a vê-la lá fora, na esplanada do café, numa cadeira que a coloca à`frente do vidro. Parece que os nossos olhares se cruzam, ficamos por momentos de olhos nos olhos, mas eu estou na sombra do interior, sei que sou invisível e que ela, rapariga de radiosa juventude, apenas se contempla espelhada no vidro. Conversa com outra jovem, sentada diante dela, decerto um pouco mais idosa pois já é mãe. Tem ao seu lado um carrinho de bebé para o qual se inclina enquanto conversa.
Tenho tempo de sobra não apenas para degustar a bebida, também para me perder em divagações, contemplações, minúcias várias. A rapariga acende agora um cigarro, talvez mais um (não sei, estou a chegar), é fumadora, motivo por que se sentou lá fora com a amiga. Imagino que está a pedir confidências à recém-casada, quer saber como é uma vida conjugal, ter sexo regular, ser mãe, lida doméstica.
A luz filtrada pelo toldo põe a resplandecer a pele doirada da rapariga que um decote generoso mas não exagerado descobre até às espáduas, onde poisa o feixe de cabelos compridos, enrolados na nuca, que lhe cai até o sovaco. Tem óculos de sol encarrapitados no coruto da cabeça. Perguntem-me e eu direi que conversam em voz baixa, ainda que o ruído do trânsito possa envolver numa amálgama o som das frases.
A rapariga pega no telemóvel e fotografa o bebé deitado no carrinho. Continuam a falar, são sem dúvida amigas íntimas, uma casou-se e hoje, por fim, encontrou-se com a amiga solteira para renovar a amizade. Naturalmente, esta sente uma ponta de inveja da outra, já casada e mãe, enquanto ela própria...
Terá, ao menos, namorado? Saberá de quantas outras moças da sua idade não conseguem encontrar quem? Idealiza o seu casamento com todos os pormenores e requintes para preencher o vazio emocional que vai crescendo?
Uma jovem de vinte anos, assim bonita, olha para o mundo entendendo-o como se tivesse sido criado para ela e que, sendo assim, apenas precisa de o abraçar para o fazer seu. Custa-lhe a acreditar que este mundo não está à sua espera nem está preparado para a receber e que tão-pouco sente a pressa de viver que a galvaniza, a pressão aguda de todas as suas expectativas a adiar-se no tempo.
Deve pensar que é «única», um caso especial autêntico, tão especial que acharia espantoso que um desconhecido idoso como eu, a observá-la desta minha concha de sombra, estivesse a percebê-la nestes termos. Se as minhas percepções forem ajustadas e certeiras, conforme creio, ela duvidará da minha compreensão e perguntará quem me informou do que sei. Mas eu poderia explicar-lhe coisas simples embora inacreditáveis.
Os pais da rapariga, e os pais dos pais, e os amigos da família, todos terão querido um mundo diferente deste para dar a esta filha. Mesmo eu, um desconhecido que com ela de vez em quando fica de olhos nos olhos, queria para ela melhor sorte. Não a tem e todavia ninguém se sente culpado. O tempo que lhe cabe viver é por infelicidade o da imensa abolição dos sentimentos, da fragilidade das relações interpessoais, da geral desumanização. A beleza plena da juventude, a força maravilhosa dos seus sonhos, tudo cabe no triturador que tudo esmaga e deixa numa boçal banalidade. [Ilustração: pintura de alunos da escola EB 2-3 Dr. Carlos Pinto Ferreira, Junqueira, Vila do Conde.]

9 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Texto lindo!
Pequena nota de optimismo: ela vai poder contribuir para a mudança do seu tempo e a selvajaria deste sistema económico não irá durar sempre.
Grande abraço,
Rui

A. M. disse...

Caro amigo Rui:

Saúdo o teu optimismo. Mas poderá aquela jovem que tive no olhar (por sinal bem longe dos meus sítios normais), e tantos outros jovens, poderão eles, verdadeiramente, contribuir para as mudanças cada vez mais necessárias do nosso tempo? Não serão antes, conforme receio e tentei exprimir, «carne mimosa para canhão»?
Enfim, meu caro, oxalá acertes plenamente! Festejarei o meu erro.
Abraço cordial.

Carlos Rebola disse...

Caro Amigo Arsénio

Este mundo tão arredado do humano, anda às avessas. A comunicação entre as pessoas é feita de silêncios, medos, olhares que denunciam a vontade e legitima aspiração, de querer partilhar um mundo justo e humano cada vez mais longe e inacessível. Se o futuro é o hoje de amanhã. O hoje, de tristezas, de sofrimentos e de desilusão, para a maioria, percebidos no silêncio comunicativo dum distante encontro de olhares, sintonizado no fluir desconcertado do mundo.

A sua crónica, bela e poética remeteu-me para Camões, também ele um "cronista" do seu tempo.

"Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões"

Um abraço cordial
Carlos Rebola

A. M. disse...

Carlos Rebola,
caro amigo:

Fico-lhe grato, mais uma vez, pela generosidade do seu comentário. É bom tê-lo com saúde suficiente para passar por aqui e ir mantendo vivo o seu blogue.
Nos jovens, o que me custa é vê-los frequentemente virados «para o vazio» e sem consciência da sua própria alienação. Falemos-lhes então, alguém como você ou eu, ou tantos outros «cotas», de sermos humanos e verá a carinha que fazem.
O problema começa por aqui, acho eu: os jovens não têm hoje os termos de comparação que nós tivemos, pois conhecemos o antes e o agora; além disso, lemos e tivemos tempo para atingir conclusões decisivas enquanto adquiriamos o calo da experiência do mundo. Os jovens, parece-me, são presa fácil nos dentes das feras à solta! Vê-se por aí, não vê?!
Abraço cordial.

Fernando Sosa disse...

Como representante da classe jovem, digamos assim, sinto-me despedaçado por tanta ignorância, embora a informação seja hoje de mais fácil acesso que há décadas atrás; sinto-me encorajado por, por vezes, no meio da multidão encontrar alguém, de igual faixa etária, a sentir-se, tal como eu, envergonhado por pertencer a esta geração.
Temos então dois tipos distintos: o dos jovens massificadamente desinformados e alienados e aqueles outros que resistem a curvar-se a tal maçã envenenada (temos veneno na publicidade, nos telejornais, nos discursos políticos, em livros sensacionalistas, etc.).

Não sei se a ignorância hoje existente é maior do que há 20, 50 ou 100 anos atrás, mas considero que as relações interpessoais portuguesas são hoje muito mais pobres, ficando não só o plano familiar mais pobre, como também os círculos de amigos são mais supérfluos.

E este é um problema que nos arrasta numa evolução claramente negativa.

De qualquer forma, quero continuar a ver o Futuro como você, caro Rui.


Cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa,

Julgo que chegou ao fim de uma corrida decerto extenuante (espero que com resultados compensadores) pois teve um momento livre para passar por aqui. Ainda bem!
Acredito em jovens atentos, interessados e sensíveis como você, e são vocês todos que me fazem crer que nem tudo anda perdido. Aliás, costumo repetir que quem vive, seja ou pareça ser «pessimista», crê realmente, por esse mesmo facto (está a viver!) na vida e no futuro. Viver, pois, é acreditar... ainda que acredite numa quimera e para ela caminhe... Ainda que...
Agradeço-vos estes diálogos vivos, amigos, por eles respiramos.
Abraço apertado.

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

a corrida chegou de facto ao fim, com resultados expectáveis, logo acabou bem.

Esqueci-me de referir que a leitura do texto foi muito agradável!

Até breve, espero eu, já que no fim de uns afazeres surgiram logo outros!


Cumprimentos.

A. M. disse...

Fernando Sosa,
caro amigo:

Felicitações calorosas pela excelente notícia que me dá! Depreendo que terminou o seu curso com o esperado brilhantismo e que já lhe sorri um emprego, uma ocupação, oxalá que condigna. Só posso desejar que, na nova fase de vida que enceta, continue a ser quem é. De mente ágil e alevantada. Sempre!
E claro, vá dando notícias...
Saudações cordiais.

Henrique Dória disse...

Às vezes a beleza transformar-se na angústia da existência.