segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um mar de mentiras

O jornal que me suja os dedos e não sei que mais anunciou há dias que esta crise liquidou 700 milionários no nosso país. Ninguém chorou, que se saiba, com pena deles pois aquelas centenas de milionários não deixaram de o ser por terem distribuído pelos pobres o que possuíam. As suas fortunas, simplesmente, tinham-se sumido sem proveito para alguém com verdadeira necessidade.
Eram vítimas do jogo que jogavam, o mesmo jogo que os terá enriquecido, mas o jornal omitia este lado da questão nem referia que os milionários continuavam decerto longe da condição de pobres e, quem sabe, prontinhos para emendar o destino. Com efeito, os jornais , e em geral os media generosos, habituaram-se a dar dos factos meia verdade. Ora, como se sabe, meia verdade é uma grande mentira.
A informação transformou-se numa indústria de «conteúdos» não menos alienantes do que a circulação de produtos da cultura pimba. A relação entre a realidade dos factos principais que a todos nos importam e as notícias diárias enfraqueceu-se até quase desaparecer como coisa de somenos, incómoda ou negligenciável. Passámos a vogar na ondeação de um mar de mentiras.
A deriva começou sob a desculpa de que a informação, devidamente contextualizada, ocupava muito espaço. Tornava-se maçadora para quem a pretendia breve, rápida, sintética, ágil, isto é, para quem queria aceder aos factos e só aos factos do dia. Acabámos imersos numa literatura sobre a realidade feita por discursos diversos proliferantes mas homogeneizados e afins sobre os factos da realidade.
A informação vital sobre as questões determinantes foi-se distanciando e ficando sonegada em níveis cada vez mais elevados. Mesmo nas administrações (da governação, das instituições públicas, das empresas), vai-se reduzindo o número de indivíduos com conhecimento cabal do conjunto de segredos que de algum modo os implicam. Têm portanto um conhecimento parcial e não global, ou actualizado, do que lhes toca.
O dramatismo incrível a que chegámos nesta situação sente-se e pode medir-se quando simples conversas, nos contactos interpessoais quotidianos, nos deixam estarrecidos ao revelarem a desinformação instalada em gente informada. Ouçamos, por exemplo, a lojista mãe de aluno no ensino básico a falar da luta dos professores por um outro estatuto da carreira. Ou, noutro caso, trate-se do rendimento mínimo, da percentagem dos desempregados, das fraudes e das ganâncias dos banqueiros, dos efeitos reais do programa agrícola comum, da dívida da Estado... Misturemo-nos com intelectuais e ouçamo-los opinar sobre os direitos dos palestinianos ocupados e combatidos por Israel, o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, a posição do Irão ou da Coreia do Norte perante os Estados Unidos e o Conselho de Segurança...
Abra então a boca quem dispõe de informação bebida em fontes alternativas. Será olhado com estranheza, como um extraterrestre. A língua que fala será estrangeira, suspeitosa, incompreensível. Um mundo de mentiras alagou os espaços públicos e vai formatando sem cessar as consciências, embalando-as num sonho irreal. Quando as massas acordarem, um dia, voará tudo no fragor de um imparável explosão. [Ilustração: de Edgar Mueller, artista alemão que pinta ilusões de óptica no piso das ruas.]

7 comentários:

Carlos Rebola disse...

Caro amigo Arsénio Mota

Esta sua crónica trouxe-me à lembrança o que o filosofo e pensador Edgar Morin ainda à pouco tempo dizia em entrevista na TV, algo que eu entendi assim, hoje é muito perigosa a abordagem que faz ao conhecimento, uma abordagem tão fatiada do mesmo que este é transmitido em fatias cada vez mais pequenas e cada uma delas mais afastada da realidade, que é sistémica, exigindo uma visão global do sistema em que está inserida para se compreender cada uma das partes. O amigo Arsénio chama-nos a atenção para esta falta do conhecimento das relações entre as partes que formam o sistema, este processo de se separar tudo, sem ter em conta as "ligações" que relacionam as partes, só podemos ter uma visão mentirosa e fora da realidade. "agora só falo da educação e não da pobreza" ouve-se tantas vezes este tipo de frase como se por exemplo, educação, riqueza e pobreza não estivessem relacionadas.

Um abraço cordial
Carlos Rebola

A. M. disse...

Caro Carlos Rebola:

Edgar Morin observou com a sua habitual clarividência e você soube escutá-lo. Felicito ambos.
Na verdade, o que esta crónica tenta denunciar é a manipulação crescente da «opinião pública». Cada vez mais estereotipada, com mimetismos de cassete, a «opinião pública», ou o que quer que isso seja, vai ficando robotizada. Predomina o discurso do poder. Já poucos conseguem falar pela sua própria boca, isto é, pensar pela sua cabeça, exibir «outros» conhecimentos. Isto acumula tensões profundas e, na cegueira generalizada, as massas vão-se tornando selváticas.
Abraço cordial.

Anónimo disse...

Meu caro amigo:

Acabo de ler a tua última crónica "Um mar de mentiras" e deu-me vontade de trocar impressões contigo sobre o assunto da incompleta informação que é constantemente divulgada por todo o mundo. Ora bem, penso que não é justo descrever todas as notícias a preto e branco, como também o não é a análise dos problemas
que a sociedade confronta diariamente através das mesmas lentes. É raríssimo o assunto que possa ou deva ser visto por um só ponto de vista e que só um
ponto de vista seja correcto. Quero dizer com isto que ainda que haja falta de reportagens completas sobre assuntos que nos afectam a vida, não deixa de haver
publicações, reportagens, artigos que nos informam sobre outras maneiras de ver o mesmo problema. O mundo é assim: a preto, branco e muito cinzento.
O teu amigo Al.

A. M. disse...

Amigo Al:

O ponto essencial da tua argumentação parece-me ser este: afinal há liberdade de informação, temos informação pluralista e diversificada, portanto... Digamos assim: tudo bem.
Ora o problema, amigo, que eu quis focar -- usando a liberdade de informação e de opinião, note-se! -- é um ponto um pouco ao lado. Digo que as massas populares andam a ficar cada vez mais envolvidas por uma informação homogeneizada pois é esta informação que abunda e reina por todo o lado. Resultado: as massas ficam privadas de opinião própria, sufocadas pela informação invasora, cegante. A informação, assim, torna-se desinformação, mera propaganda. Mingua o lugar para a alternativa, ao ponto de, como digo na crónica, quem estiver melhor informado dos factos, abre a boca e é tido por quem o escuta como «estrangeiro».
Caro amigo: se acaso não puderes concordar comigo, não te inquietes! A nossa velha amizade pode bem mais que isso!
Abraço apertado.

Fernando Sosa disse...

Caro Arsénio Mota,

pego-lhe no exemplo com que começa o seu texto: como se calhar já reparou, sou minucioso no que toca às generalizações, logo não me parece que todos esses milionários de que fala tenham sido merecidamente punidos, pois se há muitos que fazem da ganância uma vida, também haverá (nem que seja 1!) alguém que possa estender a mão a quem mais precisa, sem que para isso tenha que prescindir de toda a sua riqueza.

Quanto à ideia principal do seu texto, também já deve ter lido alguns textos que publiquei em «Caminhando por Quimera» nos quais eu crítico duramente a Comunicação Social que temos. Portanto, apenas lhe digo que estou completamente de acordo com o seu ponto de vista nesta questão.


Cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

O início da crónica, onde encontra a generalização, é para mim uma simples tirada de humor, uma piada. Entenda-a, por favor, como tal, admitindo que toda a generalização é mais ou menos abusiva, mas que há uma irrecusável necessidade de procedermos a generalizações...
Sim, lembro-me dos textos que refere no seu-vosso blogue, vale bem a pena tornar a eles.
Os problemas da informação e da circulação da informação, actualmente, abrangem aspectos fulcrais, como sejam a concentração dos meios em poucas mãos «convenientes», a criação de monopólios de facto, a estabilidade do emprego dos jornalistas, a Lei de Imprensa, a influência da tv, etc., etc. Em todos estes aspectos tem-se registado um recuo geral e isso reflecte-se obviamente na qualidade da informação quotidiana posta em público.
Agradeço-lhe esta outra intervençao.
Saudações.

A. João Soares disse...

É sempre agradável vir aqui, embora a falta de tempo não permita fazer comentário.

Convido a visitar o post Que futuro teremos?.
Trata de um assunto que merece ser comentado, com seriedade. O tema merece profunda reflexão.

Abraço
João