terça-feira, 9 de junho de 2009

Vendo na gota o oceano

Caminho por esta avenida desde há uns cinquenta anos. Encontrava-a então com a louçania da novidade. Era poiso da burguesia abastada, invisível para além dos muros das suas amplas e ostentosas mansões. Todas exibiam estes espaços ajardinados com entradas de garagem.
Era agradável caminhar por aqui, pelos passeios orlados de arvoredo. Jovens criadas devidamente fardadas passeavam bebés nos carrinhos das senhoras. Não eram largos apenas os passeios, também a avenida se estendia de lado a lado no sossego de coisa adormecida a crescer ao sol.
Evoco estas imagens confrontando o antes com o agora. Antigamente, o trânsito era escasso e corria nos dois sentidos. Agora segue em sentido único e a fila abunda de ligeiros e pesados. E já não aparecem carrinhos de bebés.
Os moradores antigos saíam de manhã para as suas empresas, localizadas nos arrabaldes; hoje moram nos arrabaldes e vêm trabalhar na cidade.
Em cinquenta anos, os bebés cresceram, já não moram aqui. A avenida que foi poiso da burguesia abastada (a brilhar com nome do país tido como pátria da cultura europeia desde a sua Grande Revolução) tem as moradias ocupadas não com famílias e sim com negócios. As fábricas e fabriquetas de antigamente fecharam onde estavam, os donos descartaram-se de empregados e converteram-se ao novo paradigma.
Estas moradias, aparatosas mansões, albergam agora empresas diversas, de pouquíssimo pessoal. Aparentemente, nenhuma esbarrou com dificuldades burocráticas quando quis deixar de ser habitação para ter outra serventia. Ou, se teve dificuldades, soube resolvê-las.
Umas poucas estão a ficar decrépitas, desabitadas e ao abandono. Contrastam no ambiente da avenida, mas os negócios em geral não estão agora propriamente risonhos e em expansão. Pelo menos para os que ficaram, como «vencidos da vida», sem esperteza para trabalhar com importações, transportes marítimos, seguros, sociedades financeiras e etc...
Numa esquina próxima, uma destas moradias serviu para acolher um novo banco quando foi criado, há anos. Provavelmente, o seu dono passou a ser um dos novos banqueiros. As três letras do acrónimo desse banco andam por sinal, há meses, nas bocas do mundo.
Uma avenida não é uma cidade e uma cidade não é um país. Estamos entendidos. Mas acaso não poderemos ver, numa simples gota de água, o oceano?
Vejamos. A luz do sol concentra-se na gota até a fazer brilhar como um diamante. Se a encontramos a repousar em cima de uma folha verde, mostra-nos as nervuras dessa folha. Ajuda-nos, portanto, a ver com mais luz essa imagem ampliada.

8 comentários:

Anónimo disse...

Lindo texto, para falar da "desvergonha cïvica nacional".
Abraöo,
Rui

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

A sua crónica sobre essa "gota", que tão bem conhece por a observar através duma janela com 50 anos de largura, nesse "mar" urbano. Mostra que o "mundo é feito de mudança" e reflecte a, não rara, capacidade humana de forçar a mudança torcendo-a e contorcendo-a, é necessária muita perspicácia e apurado espírito crítico e de observação, o amigo tem-na, para ver o oceano através duma gota de água, como Galileu, que na cela da inquisição, via o universo através duma gota de mel.
Se apanhei, como penso, o sentido da crónica. Através dessa "gota de água" vê-se todo o oceano constituído com infinitas e iguais gotas de água, a avenida, repete-se por todo o lado. Sobre o rio de Heraclito há 2500 anos, apetece dizer, é impossível atravessar a mesma avenida duas vezes, tudo muda, pena é que a maioria das coisas mude para pior.

Um abraço Cordial
Carlos Rebola

A. M. disse...

Caro amigo Rui:

Sejas bem aparecido! E obrigado pela denúncia, mais uma, da «desvergonha cívica nacional»!
É preciso gazer-lhe frente.
Abraço muito apertado.

A. M. disse...

Caro amigo Carlos:

É especialmente grato para mim registar este seu comentário, como foi também vê-lo a animar de novo o seu blogue. Haja saúde, portanto!
Evidentemente, percebeu bem o sentido da crónica. As mudanças, sim. Mas que poucos conseguem ver! Nuns breves vinte ou trinta anos, houve uma tremenda revolução, esta «revolução» no mundo que nos atinge a todos da forma que sabemos.
Mudanças para pior, portanto. Mudanças malignas e, todavia, parece que invisíveis...
Saudações e abraço.

Fernando Sosa disse...

Poderá essa avenida ter apenas mudado para pior?
Serão efectivamente más todas as mudanças que referiu, caro amigo?

Por exemplo, o trânsito passou de dois sentidos para apenas um, onde agora pode encontrar filas de automóveis. Do meu ponto de vista, é mau que a poluição tenha aumentado, mas por outro lado ainda bem que alguém teve a racionalidade de melhorar o tráfego (presumo eu, que na minha pouca vivência julgo nunca ter visitado tal avenida).

As contrariedades são muitas, mas nem todos remam para o lado da destruição: ainda há quem tenha valores "à antiga". A minha motivação pode ter muitas fontes, uma delas talvez a inexperiência, mas acredito que o Futuro poderá ser globalmente melhor que o Presente e o Passado.


Cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

Eu creio que as mudanças, todas as que conheço, nunca são completamente boas nem completamente más. Podem é ter, caso a caso, de boas ou de más, digamos muito ou meramente uns simples resíduos para confirmar a regra. Portanto, caro amigo, poderemos então discutir aqui até que ponto esta ou aquela mudança resultou assim ou assado. E poderemos divergir, coisa perfeitamente natural. De qualquer modo, confesso que tomei o «sentido único» da avenida como metáfora, vendo-o como sinal dos nossos tempos. Até nos passeios, com pessoas a caminhar a pé, se estabelecem na prática os «sentidos únicos», que possivelmente iremos interiorizando...
Poderia alargar isto lembrando a perda crescente da biodiversidade, mas fico-me por aqui. Sei que me entende.
Abraço muito cordial e um voto: continue a acreditar nas boas mudanças do futuro! Precisamos delas!

Manel disse...

Mais uma maravilha do grande Arsénio, um prazer de leitura.
Aquele abraço amigo,
Manel

A. M. disse...

Olá, amigo Manel, seja bem-vindo!
Entre as engenharias, as guitarradas (construídas e arrancadas à unha para ouvidos ávidos), as convivências saborosas... ainda teve tempo para passar por aqui?!
Deu-me muito prazer, agradeço.
Abraço apertado do seu pequenote-grande apreciador e regular visitante do seu blogue!