domingo, 12 de julho de 2009

A idolatria das massas

A dimensão do espaço mediático expande-se incomensuravelmente. Parece que não tarda a abranger o mundo inteiro e a cantar vitória definitiva. Será então o momento de vermos em cena o Espectáculo Único transmitido em directo para o palco mundial.
Dois casos recentes o demonstram e anunciam: a apresentação de Ronaldo em Madrid e a morte e funeral de Michael Jackson. Canais de televisão, rádios e jornais competiram freneticamente para manter as massas, dias e dias, de olhos em alvo. Cheios até à cegueira total.
No primeiro caso, exibia-se o jogador de futebol como um troféu conquistado porque o clube paga por ele a brutalidade de uns 95 milhões. E o rapaz lá foi recebido no estádio com aplausos de 85 mil espectadores - que bem já o conheciam e que, felicíssimos, se deslumbraram vendo-o dar uns breves toques na bola - ao mesmo tempo que milhões de outros telespectadores de uma longa série de canais de tv e rádio transmitiam a cena na hora.
O segundo tomou a morte e a vida do cantor pop como os animais necrófagos devoram na selva as carnes putrefactas. Não vão largar o pitéu enquanto multidões inteiras não vomitarem de nojo e repulsa. As tristezas e misérias da vida do cantor, tal como algum misteriozinho notado na sua morte, até serviram para que o seu funeral fosse outro espectáculo gigantesco transmitido em directo.
Estes dois casos ocuparam imenso espaço mediático durante dias, num ensaio geral do que promete implantar-se e ser o Espectáculo Único. As massas estão a ficar prontas e maduras. Os senhores do mundo têm vindo a trabalhar para isso, a massificação (que, lembre-se, resulta numa tirania), avança.
As massas, porém, precisam de ídolos. Os ídolos, por sua vez, precisam de adoradores, adoração. O que foi possível ver no estádio que vitoriou Ronaldo foi, por um lado, os milhões que ele recebia pelo seu jogo de pernas, e por outro, a promessa sonhada de que outra pessoa, por exemplo tu ou eu, podem tornar-se milionárias, com um pouco de sorte, neste mundo que é um estádio onde se jogam os golos do futebol da vida.
Um ídolo é elevado à altura de um deus, categoria que um certo jornal dito de referência atribuiu a uns tantos numa página onde coube uma farturinha de «deuses». A um ídolo pop, que vendeu milhões de discos e faleceu deixando o mísero corpo crivado por incontáveis agulhas, também não falta magia trespassada pelo drama. No fim de contas, em última análise, as massas adoram estes ídolos como bezerros de ouro.
Diz-se por vezes que é ínfima a distância que vai de um ídolo a um deus e que as massas criam os deuses e os monstros de que necessitam para justificarem as suas esperanças, medos e terrores. Ora os problemas deste nosso tempo não pernitem grandes esperanças. Uma nuvem densa de medos e terrores avança sobre as massas cativas e subjugadas, que se resignam a consumir o que lhes levam à boca e metem pelos olhos - mais e mais do mesmo, cada vez mais do mesmo, a indigesta palha com sabores e cheiros de antigamente.

6 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Como é importante difundir as tuas observações! Este tempo tem grandes males mas também pode ter grandes remédios...
Abraço,
Rui

A. M. disse...

Caro Rui:

Que bom encontrar-te sempre atento, atento e sempre apressado. Agradeço-te o apoio e mando-te um abraço cordial. Avante com esse trabalho!

Fernando Sosa disse...

Mais uma vez sobressaem as nossas semelhanças no que à Comunicação Social diz respeito, caro amigo.
Assino abaixo daquilo que escreve.

Heróis ou figuras excepcionais são importantes para nos fazer sonhar e para no motivar, porém aqui não é o heroísmo que está em causa, são antes os lucros e a lavagem cerebral.

Por mero acaso, sinto-me duplamente defraudado: é que para além de me tentarem lavar o cérebro, não me revejo em nenhuma das 2 figuras referidas.


Cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

É pelo diálogo que as coincidências e as divergências se revelam. Precisamos igualmente de umas e outras, pois ambas são parte integrante do dinamismo da vida. Mas é, mais uma vez, grato para mim registar a sua visita e concordância com o escrito. Agradeço-lhe o comentário e o apoio amigo!
Abraço cordial.

Henrique Dória disse...

Nós(?) somos o alimento destes ídolos: o dinheiro.
O seu valor: o dinheiro.
O seu fim: o dinheiro.
Um abraço

Arsenio Mota disse...

Caro Henrique Dória:

Como se o dinheiro fosse a trave mestra de todas as existências, não é? A mercantilização geral também mercantilizou o dinheiro... mas quem pode esquecer que as coisas mais importantes da vida continuam a ser, justamente, as não mercantis nem mercantilizáveis?
Apareça sempre, caro amigo!
Abraço cordial.