segunda-feira, 6 de julho de 2009

Não sou feliz com barbeiros

Queixam-se de que são uma classe profissional em vias de extinção e, de facto, são cada vez mais raras as barbearias. Não será isso apenas para nos obrigarem a estender a procura e a caminhar? Há motivos de sobra para dizer que não sou feliz com os barbeiros.
Podem fugir-nos de ao pé da porta para algures, longe, e rarearem como cervejas frias no deserto que nem por isso baixam o preçário. Fazem-nos esperar nos assentos da resignação uma hora, despacham-nos em sete minutos e pagam-se por este tempo à razão de um euro por minuto. No fim, de escova na mão, com toques simbólicos na indumentária, avezam mais um de gorjeta.
Um euro por minuto equivale a sessenta por hora. Nada mau para um fígaro, pois o aproxima em ganhos de especialistas, catedráticos e sumidades diversas. Tesourar uns pêlos reveste-se assim de uma auréola especial própria do oficiante que nos recebe, iniciado em arte cheia de mistérios.
Desde que, pela mão do meu pai, comecei a ir ao barbeiro e pela primeira vez me sentei na cadeira propiciatória, encolhi-me sob o manto que me envolveu como veste talar. Tinha a cara no espelho grande e, vendo-me, não me reconheci. Ouvia o tric-tric da tesoura, as suas batidas no pente junto das orelhas entre as conversas dos homens que prosseguiam apenas para disfarçar a solenidade do acto da criança inicianda.
Levo longos anos encolhido sob o manto, a celebrar o ritual sacrifício. Encaneceram-me os cabelos, luziu-me a calvície, alastrou a dita em coroa como incêndio na floresta. Restam-me umas dúzias de pêlos bem contados e nem assim me vejo livre das barbearias.
Diz o povo que os barbeiros têm pacto com o demo: sabem fazer-se indispensáveis nem que seja pela simples mancheia de penugem que nos reste. E têm artes de, em unânime consenso, quererem cortar-nos os cabelos dos cantos, nas têmporas, ainda que digamos que os queremos tal como estão. Trata-se, sem dúvida, de uma expropriação abusiva de um bem pessoal levado pela lâmina, o que levanta uma suspeita: o que ganharão os fígaros com isso?
Admirável é o consenso estabelecido pela classe quanto a desbastar a eito uns milímetros nos cantos. Falam pouco ou nada uns com os outros, devem dispor de técnicas de entendimento tácito que encontram paralelo apenas nuns tiques novos de expressão vocabular que de repente toda a gente partilha: falam de «mídia» em vez de media, «sendo que» em vez de porquanto, e sempre à última «da» hora...
Se há quem pense ainda que é difícil, hoje em dia, pôr um povo a falar pelos canais mediáticos a uma só voz, ponha o sentido neste milagre. Mas não sou feliz com barbeiros porque conversam com o freguês e, quando o diálogo fica interessante, perde-se em evasivas. Um deles abriu-se um dia e falou-me das cabeças tortas que com arte endireitava. Nunca mais consegui retomar tão fascinante conversa e nunca mais encontrei outro disposto a falar das cabeças tortas que lhe iam às mãos... [Ilustração: extraída de PowerPoint; sem indicação de autor.]

6 comentários:

Fernando Sosa disse...

Bom, qualquer profissional que me exija gorjeta (e por vezes são amadores...) irrita-me profundamente, não sendo os barbeiros excepção.

Falando do barbeiro português tradicional, ele está em risco como tantas outras profissões tradicionais que não conseguiram adaptar-se a novos concorrentes, não só concorrendo pela imagem, mas também pelo aumento de bem-estar do cliente, que deveria ser a sua prioridade.

Assim, vão restando uns aqui e outros acolá, não sabemos por quanto mais tempo. Que perdurem os bons e os maus, que pedem gorjetas e se queixem de tudo a toda a hora, podem muito bem meter os papéis para a reforma.

Mas mais irritante que pagar 1€ por minuto por corte de cabelo, é pagar 60€ por menos de cinco minutos num ortopedista, que foi o que me aconteceu há já uma meia dúzia de anos (felizmente foi o Seguro que abriu os cordões...). Ah! E o Sr. Dr. - que tem que ser sempre venerado por estas terras lusas - mal me tocou; desconfio até que mal me olhou.


Cumprimentos.

Anónimo disse...

Caro Amigo, Arsénio:

Eu escrevi, em tempos idos, alguns textos sobre a temática em causa, pois o espaço de estética (ou de higiene pessoal), o espaço social, cultural... da barbearia, aquela que marcou a nossa infância junto ao largo da igreja da nossa terra, foi e continua a ser, ainda hoje, de um fascínio impressionante. Continuo a ir ao barbeiro (com muito gosto, e que seja por muito tempo), faço-o mensalmente, junto ao local onde trabalho: passe a publicidade, “Barbearia Ideal” na Praça Marquês de Pombal, em Aveiro.

Acresce, que a barbearia tem daqueles cheiros, odores, perfumes antigos, que se apegam a nós para vida, acompanham-nos, largam-nos e, um lapso de tempo depois, desejamos voltar a imergir neles.

Será possível, Mestre Arsénio (deixe-me tratá-lo assim), escrever, muito antes, frases e passagens que se lêem depois num ou noutro livro, e que por acaso são iguais, parecem mesmo plagiadas?

Aconteceu-me, há dias, sobre esta temática, ler o conto de Manuel da Fonseca, «O Mestre Finezas», incerto no livro “Aldeia Nova” e ver repetidas frases e caracterizações “ipsis verbis” do que já havia escrito ou pelo menos muito parecido.

Isto da literatura e da escrita (talvez como na ida mensal ao barbeiro), é um mundo que gira, redondo, onde tudo se repete e volta ao ponto inicial... como um ritual...

Obrigado, Arsénio, por mais este belo texto.
Cumprimentos,

João Cruz (António Canteiro)

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

Confesso que esta crónica foi escrita a brincar, por desfastio. Creio que o tom brincalhão transparece no texto. Nas isso não retira lugar nenhum às suas observações. Então a referência que faz a esse especialista (ortopedista) vem a propósito e é de facto muito pertinente. Há clínicos privados que dão consulta de três minutos e cobram à grande, aproveitando-se das falhas do SNS. Conheço histórias...
Ainda assim, acho curiosa a opinião do barbeiro que compunha as cabeças tortas e ainda não consegui entender bem o que os leva a todos a reduzir-nos sempre a altura dos cantos nas têmporas contra o nosso pedido em contrário! Puseram-se todos de acordo!!
Abraço cordial.

A. M. disse...

José Cruz, caro amigo:

Levanta uma questão curiosa que ninguém ainda conseguiu resolver. De facto, têm aparecido uns casos de textos semelhantes que permitem suspeitas de plágio. Eu próprio já referi em tempos, neste blogue, alguns exemplos ocorridos comigo. Quase apetecia afirmar, num ou noutro caso, que tinha havido algo parecido com «plágio». E lembro outras situações semelhantes do meu conhecimento.
Quanto ao caso que aponta, diria que pode tratar-se de uma simples semelhança temática e o resto advir por acréscimo natural. Li em tempos que já lá vão esse livro do Manuel da Fonseca e... quem imitou quem? Exemplo eloquente, extraído da história literária: foi Machado de Assis quem imitou Eça de Queirós, ou a inversa?
Foi um prazer vê-lo aparecido por aqui. Volte sempre.
Abraço.

Anónimo disse...

Nos anos 60/70, na Rua do Avis no Porto, o meu barbeiro tinha sido, há muito, o barbeiro de Teixeira Lopes. Ia, todos os sábados, de bicicleta, da Foz do Douro à Rua Marquês de Sá da Bandeira, em Gaia (onde hoje é a Casa-Museu).
Um dia, enquanto eu esperava, apercebi-me dum cliente que, com uma revista na mão, lhe disse que queria um corte como o da foto que lhe mostrou.
O meu barbeiro respondeu-lhe que aquele corte não era adequado à sua cabeça. O cliente saíu zangado, sentei-me eu na cadeira.
E tive o privilégio de o ouvir contar que, um dia, Mestre Teixeira Lopes lhe dissera:
"Sabes, a tua arte é parecida com a minha. Tens de olhar para cada cabeça e pensar no corte que lhe ficará bem. Recusa o que não achares adequado".
Quanto aos preços actuais, podemos fazer funcionar o "mercado de concorrência" (aqui sim, não nos bancos, no petróleo, na siderurgia, ...): um anterior levava-me 24,00 euros por cabelo e barba. Agora outro leva-me 9,00 euros e recusa gorjeta. E nenhuma amiga nota a diferença!
Abraços, Caro Arsénio e óptimos comentadores,
Rui

A. M. disse...

Caro Rui:

A tua evocação do barbeiro de Teixeira Lopes é expressiva. Valia bem a pena registá-la. Demonstra a visão precisa do artista que modela a figura a reproduzir do real mas com exclusão de qualquer excrescência. Quereria ele significar que arte é depuração, síntese?
Um abraço fraterno para ti.