sábado, 12 de setembro de 2009

A caça aos «conteúdos»

Aconteceu novamente. Pessoa conhecida abordou-me para perguntar onde poderia adquirir uns livros meus de que tivera notícia. Pergunta cândida tanto quanto simpática. Respondi-lhe francamente: Não sei.
Ando há anos, muitos anos, a advertir e a comentar a deriva que tem vindo a mudar a exposição do Livro e, por aí, a relação dos autores com os editores, os distribuidores e os livreiros. Apontei a alteração que tudo isso provocaria e até já provocava na qualidade geral do panorama literário. Notei a banalização do Livro, que deixava de valer como objecto cultural por excelência para circular como vulgar mercadoria consumível e logo descartável.
Persistia-se, entretanto, neste velho e pequeno país, em publicar a monstruosidade de mais de mil edições novas de livros por mês. Cansei-me a repetir: alguém pode crer que seja possível termos ainda nas livrarias, à disposição do freguês que entra e quer ser atendido, já não a totalidade dessa avalancha mensal de livros, o que seria toleima, mas pelo menos uma parte seleccionada com algum critério? Solução de recurso: encomendar ao livreiro os que interessassem ou pedi-los directamente à editora.
E foi assim, com os editores a fugir para a frente para escapar à tempestade, que se consumou no país a cambalhota: de repente, as principais chancelas mudaram de dono e ficaram em pouquíssimas mãos. O que atrairia tão eficazmente o capital estrangeiro para o campo da edição nacional de aparência tão enfezadinha?
Aberto ficava o caminho para introduzir cá mais e mais traduções em português dos best-sellers de autores antes editados pelos novos proprietários das nossas editoras nas respectivas sedes. E os nossos poucos autores com projecção internacional, ligados àquelas mesmas editoras, ficavam também com via aberta de acesso recíproco. A literatura declarou-se então negócio à escala do marketing continental ou transcontinental... e ficámos perante esta literatura de consumo adaptada ao mercado a invadir todos os lusos recantos ao ponto de colocar na zona do invisível a literatura «literária». (A literatura de consumo ocupa hoje o lugar da literatura popular deixando perceber que não existe mais nenhuma.)
No entanto, estas mudanças careciam de uma compreensão mais aprofundada que só perante alguns desenvolvimentos recentes ficou acessível. A compra e concentração de tantas editoras pelo capital que se verificou na Europa traz à colação o esforço gigantesco desenvolvido pelo projecto da Google da biblioteca digital referido no post anterior. Mas o caso não se queda por aí, vai mais longe.
Enquanto a poderosa Google amontoa milhões de obras digitalizadas no catálogo da sua biblioteca para venda online, os editores europeus preparam-se para a organização de uma plataforma similar deste outro lado do Atlântico. A caça aos «conteúdos» literários está desencadeada (um pouco à semelhança, por exemplo, do que ocorreu com o sistema de localização geográfica, ou GPS).

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