terça-feira, 1 de setembro de 2009

Jornal do dia

As notícias de hoje lembram o início da Segunda Grande Guerra há 70 anos, o acordo de paz assinado pela União Soviética de Estaline com a Alemanha de Hitler e a perda de leitores que os jornais portugueses continuam a registar nestes últimos tempos. Talvez tudo isto seja fio do mesmo novelo.
Uma certa especulação de direita compraz-se em pôr Hitler e Estaline lado a lado. Não prima pela lucidez nem pelo rigor mas, pela força da insistência, parece convencer alguma opinião vulgar ainda marcada pela repressão salazarista. Desse ponto de vista, qualquer governante socialista democraticamente eleito é um ditador com a mesma lógica que transforma em «comunista» qualquer revolucionário e o «comunismo» uma ameaça à nossa paz onde quer que surja.
Eu, quando a guerra terminou, tinha 15 anos e disso (em alívio e festa) me lembro perfeitamente, mas não me perguntem pelo acordo de paz, o menino que era brincava jogando o pião. Ainda assim, graças à biblioteca enorme que tem vindo a ser formada desde então, pode concluir-se com segurança que a guerra iniciada com a invasão da Polónia teve como objectivo último liquidar o regime soviético contando desde sempre com a concordância tácita dos países europeus.
Nesta situação, o acordo tão criticado serviu para dar à União Soviética tempo suficiente para se armar e preparar para a guerra. De facto, foi o povo deste país que, morrendo no mais elevado número, com heróicos sacrifícios, derrotou os exércitos invasores e livrou o mundo do nazismo. Quem cobre de críticas e impropérios o acordo revela, ao mesmo tempo, que gostaria de ver o nazismo vitorioso instaurado no país dos sovietes... e no mundo.
Seria óptimo que factos desta relevância fossem equacionados pelos jornais. Em sintonia cerrada com o que se diz em Washington, celebram como amigas as «caras lindas» e diaboliza as caras restantes por mais democráticas ou dignas que na realidade sejam. A manipulação da informação cresceu até ao ponto de manter em circulação apenas mentiras e meias verdades entre pura e descarada propaganda.
A melhor informação que podemos obter, agora, é a que consegue fugir da informação deformadora. Por algum motivo os jornais estão a desacreditar-se perante os seus leitores habituais. Nem os gratuitos se salvam de baixar as tiragens. Não querer saber nada dos acontecimentos para além do nosso bairro, para manter o intelecto limpo, talvez seja uma resposta!

5 comentários:

Fernando Sosa disse...

Olá Caro Amigo! Há quanto tempo... As férias foram boas?

Bom, desinformação jorra por todo o lado. Até já vi um esquerdista defender que a demonização de Estaline foi feita somente pela classe capitalista e que tal senhor até foi bom para o seu povo...

Um abraço,
Vítor Soares.

A. M. disse...

Caro amigo:

Permita-me lembrar-lhe o que sabe muito bem: não conhecemos algo que seja completamente bom ou completamente mau. Se considera que um político como Estaline não fez nada de positivo para o seu povo e mesmo, pasme-se, para a humanidade, então valerá a pena compará-lo com um monte de político ocidentais posteriores muito incensados como «democráticos» e mesmo «líderes admiráveis», por exemplo da América.
Para além disto temos a desinformação a jorrar, lavando páginas da história escritas a sangue e sofrimentos terríveis que todavia uns poucos vão lendo...
Aceite um abraço.

Fernando Sosa disse...

Não sendo um especialista da biografia de Estaline, parece-me que qualquer líder que tenha reprimido o seu povo como ele fez, ofusca qualquer bem que possa ter feito anteriormente. Repito, qualquer bem.

Cumprimentos.

A. M. disse...

Concordará decerto comigo neste ponto: diabolizar Estaline sem mais é o lema do discurso predilecto que corre por todo o lado como verdade assente e mesmo irrefutável. Não teremos então que lembrar os benditos democráticos que não são diabolizados, antes pelo contrário, e cometem atrocidades sem julgamento nem punição?
Enfim, caro Fernando Sosa, é sempre bom conversar consigo.
Saudações cordiais.

Fernando Sosa disse...

Que os supostos democráticos não são devidamente falados sei eu... Mas parece que há muita gente que não sabe. E cada vez mais.

Cumprimentos e, claro, também tenho muito gosto em ler as suas palavras.