terça-feira, 10 de novembro de 2009

No meu prédio estou no meu país

Tenho habitação num prédio em regime de propriedade horizontal. Estou aqui - porque daqui vejo o mar - há mais de trinta anos e ando agora a remoer uma ideia esquisita. O meu prédio lembra-me o país em ponto pequeno e os associados no condomínio parecem-me cada vez mais uma amostra elucidativa do povo portuga.
O prédio é muito mal administrado e não é lá grande coisa quanto a categoria. Falta-lhe ambiente cuidado porque reina indisciplina nas partes comuns. Há obras que são autênticos despedícios. Até a limpeza e a arrumação são medíocres.
Todavia, a administração faz-se pagar. A despesa do condomínio sobe constantemente. Todos reclamam e protestam quando o elevador avaria ou umas lâmpadas fundidas demoram a ser substituídas nas escadas, murmuram e cochicham de boca na orelha apontando o preço alto das últimas obras e dos remendos por tapar que essas obras deixaram à vista. Mas é difícil convencer um condómino a aceitar o cargo de administrador.
As assembleias são demoradas, fatigantes e, no entanto, improdutivas. Fala-se muito para o ar, em queixas e queixinhas de uns contra outros que nada têm a ver com a ordem de trabalhos. Ignoram-na tão irremediavelmente como ignoram a regulamentação legal dos condomínios. Querem sentir-se livres para avançar por cima do que der jeito.
Nas reuniões não abrem o bico para soltar reparos sérios, críticas pertinentes. Guardam isso para as suas conversas de corredor ou desvão de porta, onde repudiam decisões que antes aprovaram em reunião. E foi assim que concordaram com uma proposta surpreendente, para pagarem melhor a administração, e dizem agora que o senhor ganha muito e quase nada faz.
O telhado reclama revisão e conserto urgentes há muitos anos... e nada. Um condómino ousou pensar numa solução e expôs formalmente em assembleia o projecto que resolveria decerto o problema sem gastar dinheiro: estudar ali a instalação de painéis fotovoltaicos. A microgeração seria financiada por banco, a exposição solar do prédio e as dimensões da instalação eram verdadeiramente apropriadas, o contrato tinha boas garantias e até o velho problema do telhado ficaria resolvido...
Mas era um projecto extraordinário. Prometia um rendimento bonito para o prédio? Cuidado, portanto!
E os meus vizinhos continuam beatificamente a ver as telenovelas e o futebol, a espiar o que faz ou não faz a vizinhança e a mexericar pelos cantos. Tão entretidos no dia a dia que nem vêem o que pagam e ainda sem medir o que poderiam poupar... para viver melhor.

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Afinal sempre vamos tendo algumas migalhas de disponibilidade! Ainda bem.
Abordas doutra forma o teu tema "Pertenço aos meus lugares", de 2008-05-28.
Tens toda a razão. No condomínio deveria começar o civismo básico, mas foram 48 anos de escuridão que continuam a emperrar.
Continuemos a luta! Com algum sacrifício, claro, dinamizei o meu de Gaia durante 14 anos e, curiosamente também há 14 anos (faço agora as contas), este em Matosinhos, e algum fruto vai surgindo...
Abraços,
Rui

A. M. disse...

Amigo Rui:

És companheiro fiel e também com umas migalhas de tempo para vir até aqui. Sê, pois, bem aparecido... e, claro, volta sempre!
No post, bem viste, tomei o meu prédio como metáfora do nosso país. Não pude entrar em pormenores, seriam descabidos. Mas entendemo-nos mesmo quando pareces manter a metáfora como que regressando do país ao prédio (um qualquer). É neste trânsito local-nacional que o povo adormecido poderia aprender a abrir os olhos. Se acaso quisesse dar-se ao trabalho...
Abraço apertado.