segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Homens que faltam à vida social

Não vão bons os tempos para uma certa estirpe de homens de qualidade. Isto é perfeitamente claro mas, ainda assim, a consciência da falta que deles se avoluma na vida social parece facilitar pouco a definição do seu perfil. É, ou pode ser em partes desiguais, um misto de intelectual-cidadão, escritor-artista, pensador-interventor...
Também pode agregar, conforme os casos, algo de monástico. A figura do monge mistura-se razoavelmente com o perfil geral da estirpe dos homens que faltam. É alguém que vive na Cidade e, simultaneamente, à margem, como que ostracizado por decisão própria.
Talvez haja por aí algum homem destes e não consigamos senti-lo entre o vozear tumultuoso que nos envolve. É por certo um desconhecido quase ignorado. Não habita no espaço público embora o frequente e é um desconhecido porque foge da esfera mediática.
A disciplina a que se obriga separa com clareza a cultura de massas (que encobre a cultura popular tradicional em extinção tal como a sua matriz, os espaços rurais, substituídos pela invasão do suburbano) da cultura culta. A de massas, para ele, é o consumismo consumidor, o reino do espectáculo alienante e da mediocridade instalada pelo negócio.
Os homens que fazem falta à vida social aparecerão com figura bastante anacrónica e, todavia, podem ser de vanguarda. Avaliam quanto teriam de perder desde logo em autêntica liberdade mental e em coerência ética se embarcassem nas vulgares aventuras. Não lhes interessa a fama, o poder ou o dinheiro - interessa-lhes, por definição, afirmar em plenitude a liberdade criadora do que é humano, do que é estético e deveras redentor.
Quem respira o oxigénio da esfera mediática sujeita-se aos ditames do mercantilismo, da concorrência, das imagens de marca em circulação "pós moderna". Ora o mercado coisifica o que nele entra; o dilema consiste portanto em alguém se deixar coisificar ou não. O intelectual-cidadão (compósito do escritor-artista, do pensador-interventor, etc.) recusa subverter a sua lucidez, a sua independência de espírito na agitação estéril do espectáculo
permanente que serve hoje para o que serviu outrora o "ópio do povo".
A vida social precisa angustiosamente de homens assim, com mentalidade e cultura humanista para opor eficazmente à mentalidade e à cultura tecnocráticas. Capazes de permanecer em retiro, atentos aos sinais do mundo, sempre disponíveis para descer à praça a clamar J'acuse!, e afastarem-se em seguida. Homens de modéstia mas também de altiva dignidade e coragem suficiente para responder ao rei que apenas querem que se desviem um bocadinho e não lhes façam sombra...

8 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Amigo,

Mais uma vez, estamos em sintonia. Deixe-me apenas dar uma achega: se esses Homens quiserem realmente mudar o meio em que estão inseridos, então necessitarão de dar um passo superior às acções individuais que já vão tomando: deverão unir esforços para uma Mudança efectiva.

Esta é a minha opinião e não são meras politiquices.

Um abraço.

A. M. disse...

Parece que continuamos a restar apenas nós ambos nesta plataforma de diálogo. Aceite, caro amigo, os meus agradecimentos pela boa companhia que me faz!
Agora quanto à sua achega, permita-me dizer-lhe que, pelo menos na aparência, estará a pôr uma certa «condição» a tais Homens (usa maiúscula, concordo), porque, como sublinha, se «quiserem realmente mudar o meio», «necessitarão de dar um passo superior às acções individuais». Ou seja, têm que aderir a algo que já estará a fazer parte de uma realidade que decerto tais Homens estarão a recusar em bloco... E esses Homens prezarão acima de tudo a independência toda que manifestam...
Isto para significar que não vale a pena perder tempo a esperar que alguém, da parte dos «outros», venha pôr-se ao nosso lado. Todos temos obrigações recíprocas mas é aí nesse ponto que começa a política a enredar-se...
Eis o que posso responder-lhe, caro amigo, no prazer de trocar umas ideias consigo.
Aceite um abraço.

A. M. disse...

Volto a este cantinho e confirmo uma suspeita. Não desembrulhei minimamente o que acima pretendi exprimir. Porque, em especial: 1 - Importam decerto mais aqueles Homens, onde quer que estejam e façam o que fizerem, do que qualquer tentativa de os «organizar»; e 2 - As solidariedades que valem a pena pela sua eficácia constroem-se pela acção e não pela estratégia. Acrescento isto sentindo quanto de essencial fica de dizer...

Fernando Sosa disse...

Bom Caro Amigo,

Por certo que se esses Homens fossem regra e não excepção, então nenhuma união seria necessária para endireitar as sociedades contemporâneas: todas as acções individuais, involuntariamente conexas, suportariam a estabilidade da comunidade.

O problema é que dado o alheamento dos cidadãos em geral em relação à coisa pública, ao Bem-Estar Social, as acções individuais de uns poucos reduzida probabilidade terão de mudar efectivamente tudo o que condiciona a evolução positiva da Humanidade.
Unam-se sob o signo de um Partido, se for esse o caminho do progresso. Mas por mim tanto me faz se é um Partido, uma ONG, um Ideal, uma Cor, um Nome, um Símbolo, etc. Sabe, ainda que parcialmente, o meio que escolhi para almejar a Mudança, mas se existir outro melhor, então, Homens voluntariosos e corajosos unam-se e alcancem resultados efectivos!

E, como costumo dizer, esta é apenas a minha opinião...

Cumprimentos.

Fernando Sosa disse...

Ah, e já agora, não tenciono afirmar que seja necessário cada um perder a sua liberdade de pensamento e acção em nome de uma qualquer união.
Penso que existe espaço para a convivência entre ambas as partes.

Um abraço.

Henrique Dória disse...

Precisamos tanbto de homens assim, meu caro Arsénio!

Paula disse...

Em 1979, resistindo a este "fenómeno" que denomina "coisificar" Miguel Torga escreve o seguinte:"Telefonema dum prócere político. Parecia uma namorada do lado de lá da linha. Mas quanto mais ele adoçava as palavras mais eu lhes sentia o travor da insinceridade. Nesta terra (e certamente nas outras), quando um governante bate à porta de um poeta nunca é para render preito à poesia. É para tirar partido do algum prestígio que ela ainda tenha. Era precisamente o caso. E troquei as voltas ao sujeito com uma pequena ironia: - Não, não conte comigo. A sua eloquência dispensa a minha gaguez..." Sem dúvida que a nossa Sociedade precisa urgentemente de homens assim...

A. M. disse...

Muito grato fico por esta visita e pelo apoio que manifesta ao meu post. Oxalá se repita em breve para que possa apurar que Paula tenho a sorte de encontrar nesta amiga...
Até breve, sim?