quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Rãs a cozer na panela

Quantos de nós terão partilhado um anexo de e-mail que, muito solícito, nos pedia para identificarmos os três últimos símbolos do código de barras? A ideia seria boa. Identificávamos o que era da produção nacional. Consumindo o que produzíamos, apoiávamos a nossa economia e combatíamos o desemprego.
Mas o que seria boa ideia, nesta cabeça irremediável, emperrou. Cogitando, não partilhei a mensagem com ninguém. Acusem-me agora de boicotar os esforços portugueses para sair da crise.
É que a sugestão para apoiarmos desse modo a produção nacional trouxe à lembrança outras sugestões recentes igualmente positivas. Uma apresentação (ou pps) sobre a «pegada humana» referia que deitamos fora, para o lixo, a cada cinco minutos, dois milhões de vasilhas de água - garrafas de plástico - (isto sem esquecer os maços de cigarros, os telemóveis, etc.). A mensagem era clara: devíamos banir a compra de água envasilhada em garrafas de plástico.
 Beberemos então a água directamente da canalização? Errado. Outra presentação anunciou que cada pessoa ingere com a água, num ano, um quilo de excrementos. Logo, optemos por beber vinho; mas...
Foi preciso parar neste ponto. A estranhar, como o menino estremunhando do seu sono. Então agora é assim?!
Então o Estado, administrado pelo Governo nacional, que tem autoridade para nos compelir a pagar impostos, já não tem autoridade nem vontade para nos garantir a máxima segurança quanto ao ambiente, à saúde, à formação escolar, à justiça e à paz no território? Se o vasilhame de plástico é problema, por que não impor o de vidro (reciclável)? Se a água do abastecimento público anda cheia de matérias fecais pois os rios se transformam em canos de esgoto, por que não aplicar regras normativas severas e eficazes que os protejam? Se os maços de cigarros e os telemóveis usados são montanhas de lixo, não vê isso o Estado tão ágil e pressuroso a salvar bancos falidos?
Quer dizer, é a nós, consumidores individuais, que compete ter consciência dos problemas sociais e meios para os resolver? Motivados um a um (isto é, verticalmente) por mensagens deste género, bem intencionadas mas condenadas ao fracasso? Quando o Estado, administrado pelo Governo, tem na mão os instrumentos operatórios para abranger com a máxima eficácia, no plano horizontal, toda a população? Afinal, para que lado governa o Governo que deixa aos consumidores o encargo de atender aos problemas colectivos?
Estas interrogações trouxeram à memória a fábula proposta há tempo por Olivier Clerc, escritor (e muito etc.) nascido em 1931 em Genebra, Suíça. Se a rã que nada na panela sentir a água a 50º, salta fora para não se queimar; mas se a temperatura for subindo pouco a pouco... Escreve ele (texto revisto da tradução brasileira): «Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento, escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, reacção alguma, oposição alguma, ou alguma revolta. / Se olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que nós estamos sofrendo uma lenta mudança no modo de viver, com o qual estamos a acostumar-nos. / Uma quantidade de coisas que nos teriam causado horror há 20, 30 ou 40 anos, foram pouco a pouco banalizadas e hoje apenas incomodam ou deixam completamente indiferente a maior parte das pessoas.» Legenda da ilustração original , em italiano: «Vejam: se a água aquece muito lentamente, a rã não se apercebe de nada!»
E, todavia, sentem o escaldão a crescer cada vez mais pessoas. Rãs apanhadas na panela com todas as outras, são opinião pública amordaçada pelos abastecedores da opinião publicada.

6 comentários:

Manel disse...

É uma espécie de "a gente se acustuma".
Felicidades e sucessos para 2010.

Fernando Sosa disse...

Emails de lado, parece-me que tanto governos como cidadãos devem partilhar responsabilidades na forma como tratam todo o meio que os envolve.

Assim, para se exigir mais de qualquer Governo têm também de existir eleitores conscientes e que actuem, efectivamente, para manter e/ou melhorar (de preferência esta última) as condições da sociedade e meio ambiente em que se insere.

O problema é quando o Governo não dá o exemplo, nem a população exige melhoras para o Bem-Estar global da sociedade (umas greves ainda vá que não vá, mas mais do que isso enfada...).

Abraço e bom 2010!

A. M. disse...

Os e-mails com anexos que partilhamos reflectem um pouco as ideias que borbulham à tona dos dias. Daí a minha abordagem.
Parece importante «avisar a malta». Somos rãs na panela e, ao que parece, já nem forças temos para saltar fora e nos livrarmos da cozedura.
O amigo Manel percebeu o toque, a gente vai-se acostumando, acostumando... até horrores de ontem parecem suportáveis. Caro Fernando Sosa, penso que os eleitores não conseguirão ser mais e melhores cidadãos se desistirmos de os prevenir do panelão fervente em que fomos metidos. Talvez juntos, unidos, com imensos sacrifícios, possamos um dia?...

Anónimo disse...

Mas iremos sair através de eleições? Desiluda-se, gente ingénua-de-olhos-tapados! Vejam as lições da História! Aprendam de uma vez por todas que as eleições servem para legalizar o poder da direita, e quando corre ao contrário, truz, deixam logo de ser boas. Lembrem-se do golpe de Pinochet que dizimou a democracia de Salvador Allende e instaurou a ditadura no Chile, lembrem-se do recente golpe de Estado nas Honduras, lembrem-se da Espanha republicana que foi para a guerra civil e a ditadura de Franco, etc. etc. Lembrem-se! Deixem-se de lirismos e cresçam

Fernando Sosa disse...

Sim Caro Arsénio Mota, acho que devemos continuar a alertar os eleitores. As ideias de cada um para influenciar os outros terão sempre um toque pessoal, mas desde que sejam bem intencionadas e racionais levar-nos-ão a bom porto.

Se o caro Anónimo permite, cresceria também um pouco se dê-se um nome, fictício que fosse, à sua pessoa enquanto comentador.

A. M. disse...

Consegui só agora vir a este cantinho.
Concordo com o que Fernando Sosa observa em relação ao Anónimo. Usar um pseudónimo seria decerto mais... (mais quê?)
Pensando bem, quem sabe agora se o Anónimo não nos quis significar: 1 - que não lhe resta liberdade real para assumir as suas opiniões por escrito; 2 - que pretende deixar-nos avisados disso?