Quantos de nós terão partilhado um anexo de e-mail que, muito solícito, nos pedia para identificarmos os três últimos símbolos do código de barras? A ideia seria boa. Identificávamos o que era da produção nacional. Consumindo o que produzíamos, apoiávamos a nossa economia e combatíamos o desemprego.
Mas o que seria boa ideia, nesta cabeça irremediável, emperrou. Cogitando, não partilhei a mensagem com ninguém. Acusem-me agora de boicotar os esforços portugueses para sair da crise.
É que a sugestão para apoiarmos desse modo a produção nacional trouxe à lembrança outras sugestões recentes igualmente positivas. Uma apresentação (ou pps) sobre a «pegada humana» referia que deitamos fora, para o lixo, a cada cinco minutos, dois milhões de vasilhas de água - garrafas de plástico - (isto sem esquecer os maços de cigarros, os telemóveis, etc.). A mensagem era clara: devíamos banir a compra de água envasilhada em garrafas de plástico.
Beberemos então a água directamente da canalização? Errado. Outra presentação anunciou que cada pessoa ingere com a água, num ano, um quilo de excrementos. Logo, optemos por beber vinho; mas...
Foi preciso parar neste ponto. A estranhar, como o menino estremunhando do seu sono. Então agora é assim?!
Então o Estado, administrado pelo Governo nacional, que tem autoridade para nos compelir a pagar impostos, já não tem autoridade nem vontade para nos garantir a máxima segurança quanto ao ambiente, à saúde, à formação escolar, à justiça e à paz no território? Se o vasilhame de plástico é problema, por que não impor o de vidro (reciclável)? Se a água do abastecimento público anda cheia de matérias fecais pois os rios se transformam em canos de esgoto, por que não aplicar regras normativas severas e eficazes que os protejam? Se os maços de cigarros e os telemóveis usados são montanhas de lixo, não vê isso o Estado tão ágil e pressuroso a salvar bancos falidos?
Quer dizer, é a nós, consumidores individuais, que compete ter consciência dos problemas sociais e meios para os resolver? Motivados um a um (isto é, verticalmente) por mensagens deste género, bem intencionadas mas condenadas ao fracasso? Quando o Estado, administrado pelo Governo, tem na mão os instrumentos operatórios para abranger com a máxima eficácia, no plano horizontal, toda a população? Afinal, para que lado governa o Governo que deixa aos consumidores o encargo de atender aos problemas colectivos?
Estas interrogações trouxeram à memória a fábula proposta há tempo por Olivier Clerc, escritor (e muito etc.) nascido em 1931 em Genebra, Suíça. Se a rã que nada na panela sentir a água a 50º, salta fora para não se queimar; mas se a temperatura for subindo pouco a pouco... Escreve ele (texto revisto da tradução brasileira): «Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento, escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, reacção alguma, oposição alguma, ou alguma revolta. / Se olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que nós estamos sofrendo uma lenta mudança no modo de viver, com o qual estamos a acostumar-nos. / Uma quantidade de coisas que nos teriam causado horror há 20, 30 ou 40 anos, foram pouco a pouco banalizadas e hoje apenas incomodam ou deixam completamente indiferente a maior parte das pessoas.» Legenda da ilustração original , em italiano: «Vejam: se a água aquece muito lentamente, a rã não se apercebe de nada!»
E, todavia, sentem o escaldão a crescer cada vez mais pessoas. Rãs apanhadas na panela com todas as outras, são opinião pública amordaçada pelos abastecedores da opinião publicada.

6 comentários:
É uma espécie de "a gente se acustuma".
Felicidades e sucessos para 2010.
Emails de lado, parece-me que tanto governos como cidadãos devem partilhar responsabilidades na forma como tratam todo o meio que os envolve.
Assim, para se exigir mais de qualquer Governo têm também de existir eleitores conscientes e que actuem, efectivamente, para manter e/ou melhorar (de preferência esta última) as condições da sociedade e meio ambiente em que se insere.
O problema é quando o Governo não dá o exemplo, nem a população exige melhoras para o Bem-Estar global da sociedade (umas greves ainda vá que não vá, mas mais do que isso enfada...).
Abraço e bom 2010!
Os e-mails com anexos que partilhamos reflectem um pouco as ideias que borbulham à tona dos dias. Daí a minha abordagem.
Parece importante «avisar a malta». Somos rãs na panela e, ao que parece, já nem forças temos para saltar fora e nos livrarmos da cozedura.
O amigo Manel percebeu o toque, a gente vai-se acostumando, acostumando... até horrores de ontem parecem suportáveis. Caro Fernando Sosa, penso que os eleitores não conseguirão ser mais e melhores cidadãos se desistirmos de os prevenir do panelão fervente em que fomos metidos. Talvez juntos, unidos, com imensos sacrifícios, possamos um dia?...
Mas iremos sair através de eleições? Desiluda-se, gente ingénua-de-olhos-tapados! Vejam as lições da História! Aprendam de uma vez por todas que as eleições servem para legalizar o poder da direita, e quando corre ao contrário, truz, deixam logo de ser boas. Lembrem-se do golpe de Pinochet que dizimou a democracia de Salvador Allende e instaurou a ditadura no Chile, lembrem-se do recente golpe de Estado nas Honduras, lembrem-se da Espanha republicana que foi para a guerra civil e a ditadura de Franco, etc. etc. Lembrem-se! Deixem-se de lirismos e cresçam
Sim Caro Arsénio Mota, acho que devemos continuar a alertar os eleitores. As ideias de cada um para influenciar os outros terão sempre um toque pessoal, mas desde que sejam bem intencionadas e racionais levar-nos-ão a bom porto.
Se o caro Anónimo permite, cresceria também um pouco se dê-se um nome, fictício que fosse, à sua pessoa enquanto comentador.
Consegui só agora vir a este cantinho.
Concordo com o que Fernando Sosa observa em relação ao Anónimo. Usar um pseudónimo seria decerto mais... (mais quê?)
Pensando bem, quem sabe agora se o Anónimo não nos quis significar: 1 - que não lhe resta liberdade real para assumir as suas opiniões por escrito; 2 - que pretende deixar-nos avisados disso?
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