quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Obama: o homem no lugar

Quem acreditou que «o homem faria o lugar» vê Obama no poder há uns meses e já tem ao seu alcance razões sobejas para se corrigir. O lugar também  faz o homem. Porém, se estivermos diante da Casa Branca, onde mora com vasto clã o bastonário do império global, teremos de perceber que o homem é ali bem menos determinante que o lugar.
O abençoado Nobel da Paz, premiado em glória entre nuvens de incenso e cânticos de louvor à América, concorda em dotar o Pentágono com o maior orçamento militar de sempre. A América, portanto, arma-se não para impor a paz, mas para expandir a guerra. Não se pode ser império global sem assumir como obrigação sagrada o combate ao «terrorismo» onde quer que levante a crista.
Acertou na previsão quem se limitou a dizer que Obama tentaria melhorar algo da situação social interna (apesar de calamitosa, a reforma da saúde para os necessitados ficou reduzida à expressão mais simples - contempla uns poucos milhões - mas demonstra quem manda realmente no país), para deixar sem alteração todo o plano da política externa. Certo, houve uma alteração: decidiu o envio de 35 mil tropas mais para «segurar» o Afeganistão em queda.
Dissipa-se o encantamento, abrem-se os olhos. Talvez os profetas que anunciam por aí que é no Afeganistão e no Iraque que o império já está a partir e a deixar os dentes não encontrem ninguém capaz de os seguir. O ambiente mediático anda repleto de histórias mal contadas, não seremos só nós os confusos e mal informados, também os próprios profetas.
Estendem-se os conflitos pela região do Médio Oriente. O império resolve intervir no Iémen, buraco do qual em breve não saberá igualmente como sair, e controla por inteiro o corno de África. Mantém alta a pressão sobre o Irão e o apoio sem restrições à política israelita.
Apenas más línguas, com maléfico gosto pela difamação, poderão alegar que tantos conflitos imperiais se estendem na região do petróleo fácil e baratinho. Querem saber que rendimentos do seu petróleo recebeu nestes anos de guerra, até hoje, o povo iraquiano.
Entretanto, o modelo democrático que a prática política do império vai tendo em clara preferência aponta para regimes como o afegão, o paquistanês, o colombiano. A Venezuela, rica em ouro negro, sente-se rodeada por um círculo de bases militares estado-unidenses. O presidente Zelaya, das Honduras, continua refugiado na embaixada do Brasil no seu país depois de ter sido derrubado por um golpe militar que Obama não condenou e parece admitir após uma farsa eleitoral.
O homem no lugar ainda mal o aqueceu, o ano novo apenas começou, mas num instante tudo fica frio e velho sem esperar pelo tempo.

8 comentários:

Fernando Sosa disse...

Penso que no ano passado também lancei dúvidas no blogue em que participo sobre a mudança que tanta gente dizia que ia acontecer na política externa (e também interna) dos EUA com a eleição de Obama.

Se Al Gore já ganhou o Nobel da Paz, compreende-se que Obama também o tenha ganho: nenhum dos 2 merecia tal distinção, nem de perto.
Se Al Gore nunca o fará por merecer, duvido que o actual Presidente dos EUA também o faça.

E, sim, nos EUA, como em muitos outros países ocidentais, o Presidente está longe de ser um dos homens mais poderosos do país.

Cumprimentos.

Anónimo disse...

Amigo Arsenio,

A tua opiniao sobre o que tu chamas "imperio global" americano, deixa muito a desejar. A America nao e o que parece nem parece aquilo que e. E um pais complexo e nao perfeito, constituido por bastos e diversos interesses, nem sempre trabalhando em harmonia uns com os outros ou guiados por mesmo objectivos. Mas, apesar de todos os seus defeitos, a America sempre foi e continua a ser um pais de bom acolhimento para milhoes e milhoes de individuos oriundos de todas as partes do globo. Mais, ha muitos paises que devem a sua existencia e liberdade a ajuda da America. Nao ha duvidas que o pais tem cometido erros no passado e provavelmente ira cometer erros no futuro, mas isso nao quer dizer que a America seja a fonte de todos os males e problemas que confrontam a humanidade, como tu insinuas na tua opiniao.
Seria bom se a tua opiniao tivesse tido o beneficio de mais objectividade.
Um abraco.
Alcides Freitas

A. M. disse...

Caro Fernando Sosa:

Acima de tudo, é grato para mim notar a excelente companhia que me dá. Mas não é menos agradável sentir a convergência das nossas atitudes e expectativas perante a nova Administração americana.
Continuemos, pois, prontos para superar quaisquer divergências que possam surgir entre nós (e que sem dúvida existem), apreciando sempre, em primeiro lugar, o «diálogo» de posições.
Abraço cordial.

A. M. disse...

Caro Alcides:

Ainda bem que o meu post te trouxe até ao desabafo. Nada há de melhor do que o confronto vivo de opiniões e isso torna-se mais e mais desejável nos tempos que correm. Mas, meu caro amigo, deixa-me dizer-te com a franqueza que longamente me conheces, que no teu desabafo não mostras mais objectividade do que eu.
Vês os Estados Unidos pelo lado de dentro, o que é importante, mas não vês «tudo». Falta-te a visão externa. Distanciada.
Desde logo, Alcides, acho que terás de admitir a sério que até os autênticos amigos da América têm o direito de fazer reparos e críticas (no caso, a aspectos parciais). E que isso não os transforma em «inimigos» da América, pelo contrário. A América não é o paraíso na terra, como bem sabes e até dizes, logo, tem problemas, contrastes chocantes, contradições. Com os seus reparos e críticas, são os amigos que contribuem para resolver as questões e melhorar as coisas. Nada ajudam, suponho, quantos calem a boca e deixem correr, com medo de não serem mais vistos como «amigos».
Sabes bem, porque nos conhecemos e estimamos há longos anos, que admiro a América sem restrições, tudo o que aí tem de admirável, lamentando tão-só, como leste, as realidades feiosas que mancham o quadro.
Abraço apertado, amigo!

Fernando Sosa disse...

Muita da música que aprecio é norte-americana, a maior parte dos filmes que já vi dos EUA vieram, não me importava nada que muitas características do sistema judicial norte-americano fossem importadas para Portugal, admiro a diversidade cultural existente nesse país, etc.

Mas, na política interna, encontro censura e sensacionalismo por demais nos meios de comunicação social, vejo uma população que é completamente ignorante em relação ao que se passa fora do seu país, leio casos de pessoas que morrem de doenças curáveis só por não terem seguro de saúde, etc.

E, na política externa, posso deixar aqui alguns casos das últimas décadas, que não são nada poucos e fazem a regra da política norte-americana fora de portas:
-Afeganistão e Iraque que já nós conhecemos;
-Irão (finais de 70 princípios de 80, salvo erro, com o contributo do Reino Unido);
-Guatemala (anos 60);
-Honduras (anos 80);
-Vietname (anos 60-70);
-Egipto (anos 50);
-Sudão (ataque, em 1998, com mísseis cruzeiro a uma fábrica de medicamentos baratos para tratar malária e tuberculose; o gás tóxico que supostamente ali se fabricava nunca foi encontrado, tal como provas que o indicassem);
-etc, etc, etc.

Cumprimentos.

Fernando Sosa disse...

E, Caro Arsénio Mota, tudo o que escreveu sobre a nossa relação na blogosfera pode apenas por mim ser sublinhado.

Forte Abraço.

A. M. disse...

Tenho que vir dizer, por desnecessário que seja, que a reafirmação (acima) das opiniões de Fernando Sosa foram absolutamente espontâneas. Os visitantes fiéis deste blogue tem-no lido. É pessoa que defende as suas ideias porque nelas acredita tal como eu. Mas ainda nem nos conhecemos pessoalmente. Julgo que é jovem, interessado nos estudos e na cultura em geral, agora, desde há uns meses, ausente de Portugal, suponho que a trabalhar e estudar algures na União Europeia. Jovem promissor, portanto. Agradeço-lhe o apoio que dá ao que escrevi e mando-lhe um caloroso abraço.
Viva, caro amigo, e resista bem a todo este frio!

Fernando Sosa disse...

Caro Amigo,

tais palavras aquecem-me, pelo menos, o ânimo!

E nada precisa de agradecer, os comentários que aqui vou deixando são feitos com o maior prazer e interesse.

Abraço.