terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Entre dois terramotos

Poderá dizer-se que a maluqueira humana rivaliza com um terramoto em poder destruidor? Se alguém o diz, obviamente, exagera a bandeiras despregadas. Mas acontece, uma pessoa ouve o dito e descobre, passado algum tempo, que o dito lhe mói o ouvido, fazendo-a pensar.
Recorda-se a pessoa, perante a hecatombe haitiana, que nem é preciso um terramoto em solo português para deitar abaixo uma quantidade de construções festivas e grandiosas. Bastam os camartelos municipais. Para aliviar os orçamentos camarários em asfixia das despesas correntes insuportáveis.
Sim, está a lembrar-se de uns seis estádios desportivos do celebrado conjunto de dez recém-construídos em Aveiro, Leiria e etc. Sabe quanto empenho político e ginástica financeira essas construções exigiram na convicção geral de que viriam atender uma necessidade vitalíssima para a afirmação e o desenvolvimento do país.
Era, em suma, dinheiro bem gasto ainda que obtido a crédito. E agora, seis em dez estádios são para demolir - porque se mantém às moscas e não rendem por escassez de público pagante. Irão desaparecer para ficarem a demonstrar que nem precisamos de terramotos para arrasar o que foi mal feito.
Limpar os terrenos dos trambolhos inúteis vai também custar mais dinheiro e elevar as dívidas. Mas estancam-se as sangrias orçamentais incómodas, põem-se a trabalhar as equipas das demolições e os transportes dos escombros, oferecem-se novas perspectivas risonhas às empresas construtoras. Parece até que todos saem a lucrar!
Porém, o que impede a pessoa que vê futebol no televisor de se sentir entre dois terramotos? E de ter ainda uns restos de memória na cacholinha? Nesta cidade, por exemplo, outra construção está destinada à demolição. É o notável Edifício Transparente, concebido pelo notável arquitecto que desenhou a gloriosa Casa da Música e que foi implantado, entre aplausos frenéticos, na frente marítima do Parque da Cidade.
O mamarracho nunca teve qualquer serventia ou utilidade. Em poucos anos, naturalmente, degradou-se. Teve obras, intervenções de recuperação, projectos diversos, tentativas... e nada.
Vai acabar, tudo o indica, no mesmo destino dos seis estádios «a mais». Só dá despesa, inclusive para desaparecer da vista - como mamarracho que é.
Eis o que nos deixam ficar por cá aqueles que depositam num instante nove mil milhões de euros em «paraísos fiscais». Para fugir aos impostos que nós pagamos. Para podermos compreender bem, até ao tutano, o lamiré que nos deixou aquele senhor, o tal que disse: sem corrupção, Portugal poderia ter o nível de vida dos países nórdicos.

5 comentários:

Fernando Sosa disse...

Juntou-se futebol, politiquice e construtoras: um mix fantástico para o dinheiro dos contribuintes ser deitado à rua. Pelo menos 1 em cada 100 mil portugueses deve ter ganho alguma coisa com isso...

E quiçá daqui por 20 anos não veremos uma linha de TGV ao abandono.

Melhores cumprimentos.

A. M. disse...

Sim, caro amigo, é torrencial o dinheiro público que se esvai em obras mal feitas ou mal concebidas, periodicamente «recuperadas» (obras de conservação) um pouco por todo o país. Temos um país contantemente «em obras», a «mexer» para drenar o dinheiro para os bolsos certos. Sim, há interesses especulativos de mistura. Mas, por exemplo, muitas pontes permanecem sem restauros, ao abandono.
Cá pela cidade temos à vista outros casos clamorosos: dois mercados, o do Bolhão, eem plena Baixa, e o do Bom Sucesso, junto da rotunda da Boavista estão na mira dos grandes negócios...
Como poderá este país, este povo assim tão distraído, sair do atraso e da pobreza?!
Eternas questões, é certo.
Saudações.

Fernando Sosa disse...

Bem, Caro Arsénio, sobre planos "urbanísticos" no Porto pouco sei, mas compreendo a sua preocupação. Como podia não compreender...

Esperemos que quando este povo for forçado a despertar não escolha o líder errado...(mais errado ainda)


Forte abraço.

Diogo disse...

Deduzo q esteja a falar da cidade do Porto, assim sendo, fica apenas uma pequena correcção.

O arquitecto do edificio transparente não é do mesmo arquitecto que a "gloriosa" casa da música (Rem Koolhaas), mas sim do arquitecto espanhol Solá-Morales e após a recuperação pelo arquitecto nacional Carlos Prata. O edifício tem tido alguma utilização, pelo menos das últimas vezes que lá passei vi restaurantes, bares e lojas abertos... (assim como uma infeliz publicidade tapando por completo a transparência do edifício)

A. M. disse...

Agradeço a correcção e peço desculpa pela demora havida na edição do seu comentário. O sistema por vezes prega-nos partidas... e foi o caso.