quarta-feira, 3 de março de 2010

Cantinho livre só escondido

O entrevistador experiente sabe como o político é hábil a responder a tudo menos ao que lhe perguntou e valeria a pena saber limpamente. Mas a habilidade de quem fala «à política» alargou-se e anda agora na boca de qualquer língua de pau. Perguntamos se amanhã vai chover a quem logo nos pergunta se precisamos de guarda-chuva... porque tem loja de guarda-chuvas.
O espaço da comunicação interpessoal, sobretudo, encheu-se de ruídos fáticos, viciosos e parasitários, sem qualquer função apelativa, que enredam e atrapalham ou chegam mesmo a obliterar o sentido das mensagens. A comunicação social também se deixou invadir pelo gosto da desconversa malandra e assim se encheu a actualidade de questões distorcidas. Preso numa espécie de jogo de espelhos deformantes, o país informativo pôde equacionar durante uma semana se haveria em Portugal défice de liberdade de expressão...
Porém, não era esse o tema em foco, o que importava analisar. Era desconversa malandra. Existe liberdade de expressão, liberdade de imprensa, mas o nó do problema (logo submergido pelas enxurradas no Funchal) era outro e mal foi aflorado.
Realmente, o que mais importa nem sequer consiste em averiguar se temos em circulação uma informação pluralista. Acima de tudo, importa saber se essa informação é tão abundante e variada quanto convém ao pluralismo e à participação cidadã. Primacialmente, que qualidade e grau de transparência autêntica atinge esse pluralismo concretizado.
Neste ponto, sim, estava o busílis. Visível como o icebergue que mostra apenas uma pequena parte do volume que esconde na água.
A informação tornou-se cada vez mais homogénea devido ao seguidismo dos órgãos (é possível, por exemplo, ver em noticiários da tv um mesmo tema tratado da mesma forma e simultaneamente por diversos canais). Nos jornais e na rádio reina idêntica homogeneização, produtora de monotonia. Deve-se isso ao conformismo instalado e à concentração dos órgãos numas poucas mãos "idóneas" (que alterou o panorama nacional dos media).
A ideologia que os factos noticiados transportam em textos e imagens, para além de uma evidente parcialidade, assume claras orientações de direita. Todavia, o alinhamento eleitoral da maioria dos cidadãos é de esquerda, donde se conclui que o público consome imprensa de direita, sendo maioritariamente de esquerda, talvez por não ter outra.
Impôs-se, portanto, uma uniformização da informação predominante. Uns órgãos que aparecem a parangonar escândalos avivam a concorrência meramente em busca de audiências ampliadas ou tiragens extra da última edição. Alvejam o que se lhes afigura «de esquerda», no interesse de certos partidos conservadores, enquanto cuidam do próprio negócio.
Assim, a informação que circula por aí revela escasso pluralismo. A uniformização trouxe uma normalização com marcas conservadoras de direita. Algum motivo têm, então, quantos opinam que a informação e o jornalismo estão a entrar em descrédito e falência, considerando que os espaços de verdadeira liberdade que restam são cantinhos escondidos como este onde podemos encontrar-nos e dialogar entre nós.

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Bem verdade.
Abraço,
Rui

A. M. disse...

Pois é, caro amigo Rui: quanto mais cresce a influência pública que um órgão atinja, mais lhe custará segurar a desejável independência. É esta, afinal, a história do fim do negregado «Jornal de Sexta»...
Abraço.