domingo, 7 de março de 2010

Hipnotização pela tv

Detenho-me diante de um ecrã de televisão. Como traça voadora,  fico de olhar atraído por uma sucessão vertiginosa de imagens ali a derramar-se em cachoeira. O ritmo frenético mantém-se, perdura, transforma-se mesmo na característica principal do programa.
As imagens em torrente não me deixam pensar. Nem posso respirar. Encadeado, vejo-as alternarem-se sem tempo para poder percebê-las, pois outras imagens se sucedem, e mais outras, e outras, num corrupio sem fim... 
Afasto o olhar, saio do local e liberto-me da sufocação. Aguentei-o apenas um minuto e todavia ainda o recordo. Aquele programa, àquela hora da tarde, destinava-se a público muito jovem, ávido de velocidade e vertigem tanto como de cérebro esvaziado, comida rápida e batata frita.
As suas imagens soltas eram outros tantos planos que se mantinham no ecrã por uns segundos brevíssimos. Ofereciam-se ao olhar sem lhe permitirem um visionamento mínimo, pois logo outra imagem-plano surgia em catadupa. Não davam a ver: cegavam, hipnotizando.
Considerei então que naquele programa se continha uma impressionante manifestação da doideira geral que avassala o mundo. Lembra, por contraste, a aceleração que todos os aspectos da nossa vida quotidiana vem sofrendo desde os anos '50. Aceleração brutal, podemos senti-lo hoje, revendo velhos programas televisivos que se conservam no celuloide ou filmes, por exemplo de Carl Theodor Dreyer (1889-1968) ou de Manoel de Oliveira.
Alguns filmes destes realizadores contém cenas com planos fixos que chegam a manter-se durante largos minutos e atingir mesmo quase meia hora. Evocam assim algo inerente ao palco de teatro que chama o espectador a uma participação o mais possível aprofundada e inteligente. Mas o advento da televisão popularizou o pequeno ecrã, impondo como se sabe a estética do grande plano e, em seguida, encurtando a respectiva duração.
Escasseiam os convites para «ver», ver realmente, e para pensar. Talvez isso possa incomodar o sono dos senhores do mundo e fazer doer alguma cabeça que pensa! Logo, aí temos o programa de ritmo alucinante na vanguarda, a abrir ou a sondar caminho.
Notem-se os últimos avanços das neurociências. Investigam até ao supremo requinte da minúcia, apurando como funcionam as emoções e os impulsos mais íntimos a que obedecem os seres humanos. A publicidade e o marketing interessam-se por tais avanços (aliás, desde o princípio do século XX), avanços que fazem crescer a manipulação dos comportamentos ao serviço dos dominadores do mercado e das consciências.

2 comentários:

Anónimo disse...

“Aquele programa, àquela hora da tarde, destinava-se a público muito jovem, ávido de velocidade e vertigem tanto como de cérebro esvaziado, comida rápida e batata frita”.

Caro Amigo, Arsénio Mota:

Retirei da sua crónica esta epígrafe porque ela fará a súmula do meu comentário.
De facto, hoje, como durante a nossa juventude, só estamos bem, se acompanhados de ruído.
Recordo, enquanto jovem, estudava em casa ao som estapafúrdio do rádio, ou no café “Pigalle” em Coimbra, rodeado de barulho e de gente. O meu prato favorito era as batatas fritas e ovos estrelados, que a minha avó e a minha mãe tão bem cozinhavam para me agradar. Odiava bacalhau, sardinhas assadas, pão de milho.
Mudei com o tempo. Hoje prefiro, enquanto estou em casa, estar em silêncio, quando muito, acender a lareira, ouvir o crepitar da lenha a arder, ouvir o melro no jardim a cantar. Os meus filhos, chegados a casa da escola, é o botão da TV que primem, em primeiro lugar, e, ainda antes de pousar a mochila, é o comando da TV que pegam para logo lhe aumentar o volume do som.
E, hoje, sabe quais são os meus pratos favoritos? Pois, é bacalhau com batata a murro, sardinhas assadas, broa ou pão de centeio.
Obrigado pela sua crónica que faz todo o sentido, apesar de tudo, no mundo agitado em que vivemos.
Um abraço,
João Cruz

A. M. disse...

É verdade, caro amigo João Cruz. Mudamos com o tempo, mas isso acontece, acho eu, nos melhores casos, quando a idade nos aproveita para amadurecer. Gostaria, daria mesmo qualquer coisa de mim, para poder acreditar que o movimento é esse: ascensional, libertador... e assim poder negar as evidências. Temo que estas mesmas evidências sejam perceptíveis por cada vez menos «visuais», pois a massa parece ter olhos abertos, sim, mas cegos, hipnotizados.
Parabéns pelo seu «Ao redor dos muros», que já li!
Abraço cordial.