sexta-feira, 19 de março de 2010

O que sabemos

Recapitulando a matéria como em prova de cultura geral.

Sabemos que o simples rótulo de «terrorismo» mudou de mãos. Antes serviu para denunciar acções ilegais (isto é, criminosas) dos Estados lançadas contra cidadãos. Depois passou a servir os Estados para acusar cidadãos patriotas em luta acesa contra dominação ou prepotência ilegítima.  
Sabemos que a ideologia «neoliberal» se foi instalando por força de interesses dos mais poderosos com directa influência nos governos eleitos pelo povo mas obedientes aos senhores. Leis, regulamentos e comportamentos foram abrindo caminho às «reformas» a fim de permitir uma mais rápida e voraz acumulação da riqueza. A ganância surgiu então como objectivo único a alcançar a todo o preço, incluso ao preço de fraudes colossais impunes e descaradas que desestabilizaram não apenas os sectores financeiros mundiais e desencadearam a presente crise socioeconómica.
Sabemos que a designada «globalização» encobriu, pela deslocalização das empresas, a procura e exploração de mão de obra barata onde quer que existisse, fosse quase escrava ou fosse infantil. Forçou países altamente industrializados, como os Estados Unidos, a suportar importações maciças, crescente desemprego, menos impostos cobrados, dívida pública externa galopante. A corrupção (de políticos, banqueiros, traficantes) fez multiplicar os paraísos fiscais.
Défices das contas públicas então cresceram e tornaram-se crónicos porque os senhores do dinheiro quiseram e foram conseguindo expandir isenções fiscais e receber mais apoios. Para «tapar» os buracos orçamentais, os governos venderam bocado a bocado património público do mais lucrativo e mesmo vital, por isso cobiçado pelos senhores do dinheiro que já dispunham de meios financeiros acumulados suficientes para todas as privatizações. O poder dos Estados enfraqueceu-se, depauperou-se o património público, inchou até à desmesura o poder do sector financeiro privado ao ponto de em breve se pôr a questão decisiva: o que vale um Estado que (património de um lado, dívida pública do outro) quase nada possui e continua a subir os impostos? 
Sabemos que a versão oficial dos atentados com aviões civis que inauguraram o século XXI, pulverizando três edifícios emblemáticos no centro de Nova Iorque e atingindo o Pentágono, já parece incapaz de convencer alguém com juízo próprio independente. São cada vez mais numerosos os grupos de pessoas e meios de comunicação social que levantam dúvidas avassaladoras sobre múltiplos aspectos estruturais do caso. Sugere-se assim que se tratou de mais uma conspiração horrenda levada a efeito lá onde presidentes federais e mesmo líderes religiosos como Martin Luther King são abatidos e tudo acaba envolto em mistério.
Sabemos que o unilateralismo resultou de uma superpotência que a conjuntura mundial favorável fez emergir e logo se convenceu do papel redentorista que iria cumprir no plano da história. Mas o imperium bellum cresceu desmesuradamente para dominar o mundo e já mostra não ter forças suficientes para ambição tão gigantesca. Nações rivais já lhe disputam a primazia... e torna a repetir-se a fábula: sic transit gloria mundi.
Sabemos tudo isso e o mais que fica omisso. E sabemos também que poucos somos a sabê-lo, entre as maiorias que votam escolhendo quem lhes vai dirigir os destinos e depois decide enviar para a guerra exércitos de pobres do seu país para, longe, destruirem bens e outros pobres. Se, calculando ad hoc, considerarmos que um por cento da nossa população está esclarecida e sabe, realmente sabe, teremos de reconhecer que nem toda essa população, talvez nem a metade, desejará algo que não seja a conservação da situação presente...
A política transformou-se num espectáculo, e espectáculo sobretudo televisivo, dos que têm «voz para falar». Os negócios do Estado são reservas para iniciados, não para o nível popular educado na alienação cidadã. Tudo isto adensa e atrai o perigo de uma espantosa hecatombe planetária (a final?). [Clique sobre a imagem de cada post para a ampliar.]

3 comentários:

Fernando Sosa disse...

Bom, com um post tão abrangente fica difícil fazer um comentário que englobe tudo aquilo que gostaria de exprimir.
De qualquer forma, o Caro Arsénio já vai sabendo aquilo com que sou capaz de concordar ou discordar.

Quero apenas deixar a minha opinião no ponto em que crítica o neoliberalismo. É que pela História da Humanidade já passaram imensos tipos de regime/hierarquia/organização e o neoliberalismo que aponta foi apenas mais um desses modelos a ser usado por gente sem escrúpulos. Tendo em conta o século Passado, vimos (e quem não viu, leu) que tanto à Direita como à Esquerda, existiram regimes e lobbies a lutar pelo domínio das massas, vezes sem conta chegando-se a um estado de escravatura.

Cumprimentos e um bom fim-de-semana!

A. M. disse...

Meu caro, o designado neoliberalismo não caiu do céu. Foi elaborado e praticado, desde o século XX, por quem sabia o que queria e por onde iria atalhar. Foi, em suma, a estratégia nefasta que melhor serviu quem queria servir-se... com o estendal de todos os custos sociais e humanos que se vêem. Corresponde a um passo bravio dado no caminho da maior e mais acelerada acumulação da riqueza.
Pelo menos, é assim que entendo o caso. Se discorda, estará a usar da mesma liberdade que lhe permite concordar aqui e ali. Logo, tudo bem!
Mas note como aparecem em conjugação os variados aspectos temáticos que contemplo no post (e o prezado amigo até falou de «abrangência», embora focando apenas o neoliberalismo).
É sempre um prazer dialogar consigo. E, claro, gradeço e retribuo os seus votos.

Fernando Sosa disse...

Não discordo que se tenha usado o neoliberalismo para tais fins, Caro Arsénio. O que penso é que não é o neoliberalismo em si o culpado, mas sim quem dele se serviu e quem viciou as regras do jogo.
É que mudando-se o modelo sem se mudar a tipologia das personagens, a história acaba invariavelmente por ser sempre a mesma.

Cumprimentos.