sexta-feira, 12 de março de 2010

Tantos livros! Asfixiantes?

Sabemos que as mudanças são cada vez mais velozes e que, em onda, envolvem «tudo». Mas não continuaremos a ver o objecto Livro de olhos fechados? Quantos advertem as mudanças radicais surgidas nestes últimos vinte, trinta anos?
As mutações foram radicais porque alteraram os sectores da edição literária, distribuição e comercialização do livro, redes de leitura. O factor mais expressivo do quadro das alterações encontra-se no aumento da quantidade de editoras em actividade, da respectiva concentração operada pelo grande capital, da diversificação das chancelas editoriais. A situação permite atingir e exceder a cifra de 1200 novas edições por mês, cerca de 15 mil por ano...
Cifra espantosa num país pequeno, sem grandes hábitos de leitura e fraco nível médio de rendimentos, que nem sequer exporta livros em quantidade significativa. Todavia, nesta base é que poderemos entender o motivo por que têm baixado constantemente as tiragens das novas edições. Mas, por isso mesmo, tem subido o seu preço (o que, por outro lado, multiplicou as feiras dos saldos e já leva editora a guilhotinar restos de edições armazenadas para poupar espaço).
Portanto, editam-se cambulhadas loucas de livros que têm tiragens cada vez mais reduzidas ou mesquinhas. Muitos não aparecem nas livrarias nem entram no mercado, onde «os que se vendem» precisam de se impor na primeira semana porque, quatro semanas depois, serão «velhos», mercadoria descartável. A rotação dos títulos e das edições vai em aceleração, o mercado fica invadido por uns poucos autores mediáticos com grandes vendas (um ou outro português, os restantes estrangeiros).
O livro transformou-se assim numa vulgar mercadoria e quase tão perecível como as couves da horta ou os iogurtes do supermercado. Faltam leitores para toda a imensa literatura que se publica. Cada autor fica na realidade contido pelo mero círculo das suas relações pessoais, a lembrar o argumento neoliberal de que «são os autores que vendem as suas obras»...
Em suma, abundam as editoras literárias activas, abundam as livrarias, abundam os postos de venda de livros e os autores a promover a venda dos seus livros no terreno... Negócio lucrativo! (E, todavia, só ingénuos estranham que tenham de ir aos alfarrabistas para encontrar as obras que querem ler porque nelas sentem a palpitação vibrante que parece ter-se perdido à medida que os novos autores aprenderam «escrita criativa».)
Há editoras que vêm publicando originais na condição de os autores adquirirem, pagando, uma parte substancial da edição. (O dinheiro de prémio literário antes recebido suportava a factura.) E agora avança-se um pouco e aparecem «editoras» que editam por encomenda directa do autor os exemplares da sua obra que ele pagará. É o print-on-demand, a suprema maravilha!
Os efeitos perversos destas mudanças são variados e são visíveis. Haja olhos.

2 comentários:

Fernando Sosa disse...

A ficção criada por Umberto Eco, no Pêndulo de Foucault, em que a editora Manuzio ludibriava autores esotéricos fazendo-os pagar os livros que nunca seriam vendidos, torna-se quase realidade nos dias que correm. Até porque autores existem demasiados, muitos empertigados por demais.

Juntam-se autores sem talento, criatividade, sapiência e bom senso a editoras/livrarias sem pudor para apenas aceitar obras dignas de um, residual que seja, crédito e temos o cenário que o Caro Amigo descreve.

Mas há muito alimento para os acima descritos: os pseudo-intelectuais que têm que dizer aos colegas de trabalho que já leram a fabulosa obra "X" de Dan Brown ou um qualquer livro de etiqueta (Paula Bobone?); os desesperados por emagrecer ou se tornarem mais belos para atrair o sexo oposto procuram livros de título sugestivo, mas de conteúdo incipiente; outros compram as biografias de jogadores de futebol ou actores de cinema mais ou menos talentosos; existem também os que procuram atingir um nível espiritual superior, lendo desenfreadamente muitas mentiras, algumas meias-verdades e, quiçá, umas raríssimas verdades; etc, etc, etc!

Maus e bons livros sempre houve e sempre haverá, só é pena é que se ofusquem os bons por muitos outros de menor qualidade.

Poderá aparecer no futuro uma empresa que, englobando "sectores da edição literária, distribuição e comercialização do livro", restitua a credibilidade aos livros e respeite o intelecto dos leitores? (mesmo que alguns não o tenham)

Cumprimentos e espero poder voltar a este espaço mais vezes do que nas últimas semanas.

A. M. disse...

O seu comentário (que agradeço, pois o trouxe de volta a este nosso cantinho), além de concordância, deu-me às tantas vontade de sorrir. Caro amigo, alude à situação actual, notando até a quantidade incrível de autores literários que entre nós hoje escrevem e querem publicar. Nesse ponto lembrei-me do que em vão tenho vindo a repetir desde 1994, advertindo exactamente que estávamos a caminhar para a situação que é a nossa actual.
A presente crónica teve como ponto de partida o «print-on-demand» que mesmo grandes editoras entraram agora a praticar.
Caro Fernando Sosa, fez bem em citar Humberto Eco evocando (creio que misturando nesse livro ficção e realidade), Manuzio (Aldo Manuzio), importante impressor italiano, isto é, figura histórica, ao qual todos ficámos a dever relevantes avanços culturais com realce imorredouro.
Quanto a «jogos de cintura» dos editores no baile mandado com os autores... isso é pano para mangas largas, não cabe aqui. Fica, porém, a piada.
Abraço cordial.