quinta-feira, 15 de abril de 2010

Mulheres confrontam homens

A maioria das pessoas que vemos à espera de consulta num centro de saúde, num lar ou em qualquer outro local onde se concentrem os idosos, são mulheres. Achamos isso tão natural que quase nem vemos o que é visível. Habituámo-nos longamente à desproporção sabendo todavia que o normal é nascerem mais rapazes do que meninas.
A explicação que havia para o facto de a maioria inicial do género masculino depois se perder na demografia nacional apontava para as baixas que os rapazes iam sofrendo enquanto não saíam do período da juventude. Grande razia! Tão grande que entrava também na explicação uma superior resistência das mulheres aos achaques: mulher doente, mulher para sempre, dizia-se.
Mas o paradoxo não está aqui. Começa a aparecer em dados recentes do INE que mostram as mulheres com mais desemprego, aguentando também velhas desigualdades salariais. Trabalhando, ganham menos do que os colegas machos, mas elas são de facto, no conjunto do país, a maioria da população: em 2005 seriam 5,5 milhões, algo como 51,6%.
Segundo o INE, a desproporção aumentou entre 1975 e 2005: ficámos com 94 homens para cem mulheres. Na verdade, estas aumentaram para sete anos a sua esperança média de vida. As raparigas casam-se mais cedo do que os rapazes e, enquanto estudantes, por sinal até se distinguem com melhores classificações.
Apesar de tudo, algo nos escapa na situação. A diferença numérica existente entre os sexos, favorável às mulheres, não ajuda deveras a entender o que se nos oferece à vista. Abunda bem mais o sexo feminino que ensina nas escolas ou trabalha nos empregos mal pagos (caixas de supermercados, cafetarias, lojas), em centros de diversão noturna, etc., e vai-se multiplicando nos recintos desportivos como praticantes ou espetadoras.
Abunda, aliás, por todos os lados: nas enfermarias, repartições públicas, redações dos jornais, forças de segurança, além de escritórios, fábricas... As raparigas correm para fora de casa, enchem a paisagem. E se, comparativamente, casam mais cedo, talvez admitam o enlace com rapazes uns anos mais novos.
Por tudo isto, parece estar a instalar-se a impressão de que é o sexo feminino que sobressai hoje, avultando sobre o masculino. Este como que se encolhe (apenas numericamente?) em face do avanço impetuoso a que assiste, numa especial inversão dos papeis sociais que os dois géneros desempenharam até anos recentes. Mas acaso estará contido nesta anotação um qualquer preconceito machista?
Nem de longe. O que pode fazer-se lembrado é o aviso de que certos plásticos diluídos na água dos rios estarão a contribuir para a multiplicação de espécies de peixes com aparentes dificuldades de gerar machos e portanto de se manterem como espécies. Estudos posteriores, bem mais alarmantes, apontam o mesmo efeito provocado na espécie humana: numa comunidade sob investigação, salvo erro canadiana,  cresce a desproporção dos sexos, pois nasciam cada vez mais meninas e menos rapazes.
Admiração, nenhuma. As cidades pequenas e grandes bebem dos rios. Os químicos presentes nos vulgares plásticos, diluídos, espalharam-se nas águas, nas terras, nos ares... e a espécie humana, com toda a sua imensa e poderosa sabedoria, talvez venha a ter, nos próximos séculos, tanta sorte como a dos peixinhos em degenerescência...

3 comentários:

Fernando Sosa disse...

Assustadora a ideia de que o que bebemos possa ter tais repercussões.
Mas relativamente à análise central deste seu texto, sinceramente não é um assunto que me prenda sobremaneira. Embora existam diferenças físicas e intelectuais entre homens e mulheres, a espécie é a mesma: humana. É com o todo que me preocupo mais, mas sem menosprezar a evolução individual de ambas.

Noutra direcção, atentei na palavra "espetadoras". Não parece mesmo espectadoras pois não Caro Amigo? Parece antes que alguém anda a espetar em algum lado. Desculpe-me esta nota, mas ainda ontem à noite tive uma pequena conversa entre colegas sobre o acordo da polémica. E tenho até um outro colega brasileiro que me garante ler "cês" antes de outras consoantes que nós, portugueses, não lemos. E no meio disto admito ficar eu bastante confuso relativamente à forma de como devo passar a escrever.

Um abraço.

A. M. disse...

Não se assuste mais do que é assustadora a própria realidade em que vive e vivemos! Inquiete-se «apenas» com a realidade que, sendo real, lhe e nos é sonegada... para depois nos tomar de assalto!
Acordamos sempre tarde quando anestesiados, distraídos, sem memória...
De qualquer modo, caro amigo, o tema central do texto para mim é só um. Procuro ligar uma evidência ao que se anuncia para, nessa base, futurar...
Outro assunto.
Anunciei no blogue, há poucas semanas, que iria aplicar aqui a nova ortografia em vigor. Com falhas, certamente, que tentarei corrigir a pouco e pouco. Discorda assim tão acerrimamente do Acordo? Não o acha aceitável de modo nenhum?!
Espero que não veja ali um cavalo de Tróia, como o meu amigo Vasco Graça Moura!
Cumprimentos.

Fernando Sosa disse...

Como também já aqui escrevi neste seu espaço, nem concordo nem discordo. Não tenho conhecimentos suficientes, quer linguísticos quer políticos, para tomar posição - ainda.

Apenas acho que algumas palavras vão começar a ser lidas de forma diferente por nós, portugueses, pois muitos "cês" e "pês" tinham uma clara influência nos sons das palavras. E ainda não percebi quais os que se mantêm e quais os que desaparecem. Tenho que comprar um dicionário novo...

Cordiais cumprimentos.