sexta-feira, 9 de abril de 2010

IURD: em nome do Senhor

São marcados por estranhos e inquietantes sinais estes nossos tempos. Fantásticos mirabolantes, feitiçarias medievais, magias negras, terrores delirantes de mentes sem mais imaginação e fantasias inconsequentes invadem a rodos o cinema e a literatura. Está em moda a irracionalidade supersticiosa que, por exemplo, leva tanta gentinha a consultar astrólogos, videntes, quiromantes, adivinhos, bruxas e professores Caramba.
O fenómeno parece apontar para este outro, contraditório: o do enfraquecimento do poder efetivo da Igreja e da religião católica que de algum modo assiste à instalação e expansão de novas seitas. Uma delas, muito notada, é a designada Igreja Universal do Reino de Deus, vinda do Brasil para Portugal, aparentemente inspirada num credo (pentecostal) nascido nos Estados Unidos em meados do século XX. Recusa os santos (incluso a pontapé), centrando a fé em Jesus e no seu poder triunfador.
Estarão as formas da religiosidade popular tradicionais a enfraquecer-se, a desaparecer? Ou, simplesmente, a modificar-se (para corresponder a uma procura, sem dúvida mais cega, de respostas teístas)? Até que ponto aí se manifestam: um remanescente dos anos da ditadura salazarista, a mudança para as grandes cidades de massas camponesas em fuga das zonas rurais em extinção, a situação de carência social originada pela crise económica, o desemprego, o desvalimento, a solidão?
Difícil responder. Admito, todavia, que no presente caldo cultural tudo isso se mistura. As religiões «oficiais» perdem influência e avançam as superstições mais grosseiras. Mas os crentes, que exclamam «graças a Deus!» à saída de qualquer dificuldade, continuam a agradecer a «salvação» teimando em não perceber de onde lhes veio a aflição...
As «missas» da IURD são, sem segredo, autênticos espetáculos com cenas emocionantes e «milagres» de encher o olho ceguinho. Frequenta-os gente da mais modesta e mesmo humilde condição. Serão já uns 30 mil, que sustentam mais de cem templos, ditos centros de ajuda espiritual, criados no país desde 1989.
Em cerca de vinte anos, a nova seita estendeu-se pelo país graças ao dízimo que uma falange de «dizimadores» aplica de garra e verbo afiado à freguesia em nome do Senhor que é preciso adorar, pagando dez por cento do salário, pela nossa pessoal salvação. E agora está para breve a inauguração, no Porto, da primeira catedral construída no país ao custo de uns 18 milhões. É edifício imponente, dotado com estúdios de tv e rádio (pudera não!), apartamentos residenciais, etc.
Depois dos conflitos e escândalos, entre acusações de lavagem de dinheiro, a IURD ergue à máxima altura a afirmação de que cresce mesmo no meio da cidade do maior desemprego, da pobreza e da miséria. Se isto não nos deixa pensativas as cabeças, então já não há mais cabeças pensantes. E a religião pode assumir qualquer coisa de sobrenatural para trazer para a realidade o vampirismo. [Cartaz da IURD no Brasil. Clique na imagem para ampliar.]

2 comentários:

Fernando Sosa disse...

Caro Amigo,

Desde já lhe digo que tenho uma ideia geral sobre as religiões bastante negra. E esta ideia prende-se às duas correntes que melhor conheço: cristianismo e islamismo.

No que a essas concerne, palpito que tiveram início nas palavras de aldrabões, e que continuam a ser usadas para servir elites e comandar os povos, embora na actualidade menos do que há uns séculos, mesmo que ainda existiam demasiados países como excepções.

Cada um acredita no que bem entender, desde que não prejudique os que o rodeiam: com isto vivo eu muito bem. Agora, tentar ludibriar os crentes e maldizer os que têm outra visão do mundo é, no mínimo, execrável.

Cumprimentos.

A. M. disse...

Aceito perfeitamente as ideias que exprime sobre crenças religiosas, lembrando que já marquei neste blogue a minha posição em diversos ocasiões. Mas é irrecusável, o Homem procura Deus desde sempre querendo saber donde vem ele próprio, a vida, o Universo. Todavia, Deus conserva-se mudo. Logo, as teologias são contraditórias entre si e as crenças individuais, «apostas».
Porém, graças aos avanços da ciência, temos hoje a compreensão correcta, cabal e demonstrável do que as teologias, base de cada religião, pretendem explicar (na minha opinião, mal) sobre o que é p ex. a vida, a origem e destino do Homem, o Universo.
Enfim, caro amigo, haja liberdade - de confissão e de expressão!
Saúdo-o cordialmente.