sexta-feira, 2 de abril de 2010

Portugueses: estúpidos e mansos?

Circula na Net um texto curioso, daqueles que grupos de amigos compartilham e que faz comparações entre o que é viver em Portugal e nos Estados Unidos. Um novaiorquino, bom conhecedor do nosso país, discute com um português que considera sermos um país pobre. Conclusão do visitante, previsível: «Vocês não são pobres, gastam é muito mal o vosso dinheiro.»
Porquê? Vem no remate do texto a «explicação»: porque nós, portugueses, somos estúpidos ou mansos, ou, digo eu, uma qualquer mistura de tais atributos consoante cada visão: mais mansos que estúpidos, ou a inversa. E os norte-americanos mostram-nos toda a sua esperteza...
O que abordagens deste tipo têm de lamentável é a superficialidade que revelam. Contribuem para alimentar nos portugueses o criticismo negativista que justifica a desistência e a convicção de que, entre nós, nada é já remediável. Promove a desmobilização geral e o pessimismo fatalista.
Todavia, neste caso, apetece tomar nas mãos a abordagem para a dissecar em cima da mesa, no teatro anatómico. Começando por perguntar, logo de entrada, os verdadeiros motivos por que os norte-americanos pagam o litro de gasolina por menos do triplo do preço que os portugueses; um automóvel que lhes custa 8.320 dólares, pagamo-lo por mais de 20 mil euros; as tarifas de electricidade e de telemóvel ficam para nós 80% mais caras do que nos EUA; comissões bancárias custam-no o triplo conforme o texto proclama.
Continuando com o «sonho americano»: em Nova Iorque, atendendo à sua «pobreza», o governo estadual cobra IVA de apenas 2% e 4% de imposto estadual  (total: 6%!), a comparar com «os 20% dos ricos [sic, a piada é esta] que vivem em Portugal»... e «pagais ainda impostos municipais». Continua: «Além disso, são vocês que têm "impostos de luxo" como são os impostos na gasolina e no gás, álcool, cigarros, cerveja, vinhos etc., que faz com que estes produtos cheguem em certos casos até [...] 300% do valor original, e outros como imposto sobre a renda, impostos nos salários, impostos sobre sobre automóveis novos, sobre bens pessoais, sobre bens das empresas, de circulação automóvel.»
Neste ponto não restará qualquer dúvida: do lado do Tio Sam vive-se bastante melhor. Mas os portugueses nem estúpidos nem mansos sabem que esse bem-estar não chega a todos, lá na pátria das maiores desigualdades do mundo; e que esse bem-estar não é separável do papel de potência imperial que os States desempenham com toda a convicção sempre que podem.
Naturalmente, as mil bases militares que o Tio Sam espalha pelo mundo e o esforço inteiro da sua «Defesa» têm um peso esmagador no orçamento federal.  Para terem gasolina e automóveis baratos, entre outros bens de consumo, andam a impor-se crescentemente como «polícia mundial» de revólveres nos coldres e até invadiram um país com pretextos mentirosos, destruindo o seu povo e cultura milenar ao cheiro do petróleo de qualidade bebido à flor da terra.
Mas nem vale a pena falar de crimes de guerra, de atropelos a direitos humanos fundamentais, da nação que é a mais poluidora do planeta ou até a mais endividada posto que não a obrigam a declarar falência em atenção aos revólveres que mostra nos coldres... Porque não basta ter boca e cara para dizer diante das câmaras e microfones que o quadrado é redondo. Sem esquecer que foram os States os primeiros a acudir a bancos falidos pela prática de «uma espécie de casino» e  logo protegidos, também pelos sobrinhos do Tio Sam, igualmente «com o dinheiro que enviam para o Estado»...
As classes médias, que suportam a canga do Estado, que fazem as guerras «de interesse nacional» e com elas sofrem, lá como aqui empobrecem e desaparecem, dizimadas pelas políticas neoliberais dos governos ostensivamente vitimizadoras lançadas contra elas. Abram os olhos, livrem-se da canga e das moscas se acaso o rabo ainda mexe!

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