quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quem diz «Adeus»

Hoje vou ceder a palavra a alguém. Alguém que se despede e, portanto, vira as costas e se distancia. Mas vai transido. E, de mordaça na boca, deixa-nos palavras vivas e escaldantes, dramáticas como a situação real de crise (ética, financeira, económica) em que estamos a viver. Poucos que sejamos, temos de as atender.
As palavras são de Paul Craig Roberts, economista norte-americano, lembrado autor de How the Economy Was Lost, que foi editor do «Wall Street Journal», elemento preponderante de vários outros jornais, como o «Washington Times», assistente do secretário do Tesouro dos EUA, colaborador emérito da imprensa, etc. Porém, desde há seis anos, não tem um único espaço onde escrever. Por isso diz «Adeus», assim:

«Houve um tempo em que a caneta era mais poderosa do que a espada. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam na verdade e a encaravam como uma força independente e não como um auxiliar do governo, classe, raça, ideologia, interesse pessoal ou financeiro.
Hoje os americanos são dominados pela propaganda. Os americanos têm pouco respeito pela verdade, pouco acesso a ela e pouca capacidade para a reconhecer.
A verdade é uma entidade importuna. É perturbadora. Está fora dos limites. Aqueles que a exprimem correm o risco de serem marcados como "antiamericano", "anti-semita" ou "teórico da conspiração".
A verdade é uma inconveniência para promotores públicos que querem condenações, não a descoberta da inocência ou da culpa.
A verdade é inconveniente para ideólogos.
Hoje, muitos daqueles cujo objectivo era outrora a descoberta da verdade são agora generosamente pagos para a esconderem. "Economistas do mercado livre" são pagos para vender a deslocalização ao povo americano. (...)
Economistas que outrora foram respeitáveis ganharam dinheiro a fim de contribuir para este mito da "Nova Economia". (...)
Todas as vezes em que o dinheiro é insuficiente para enterrar a verdade, a ignorância, a propaganda e a memória curta acabam o trabalho. (...)
Como economista, fico estupefacto pelo facto de os profissionais da Ciência Económica americanos não terem consciência de que a economia dos Estados Unidos foi destruída pela deslocalização do PIB dos EUA para países além-mar. As corporações dos EUA, na busca da vantagem absoluta ou dos mais baixos custos do trabalho e dos máximos "bónus de desempenho" dos seus presidentes, transferiram a produção de bens e serviços vendidos a americanos para a Chinaa, Índia e outros lugares no exterior. Quando leio economistas a descreverem a deslocalização como comércio livre baseado em vantagens comparativas, percebo que não há inteligência ou integridade na profissão americana da Ciência Económica. (...)
Os americanos, ou a maior parte deles, demonstraram ser maleáveis nas mãos da polícia do Estado. (...)
Nos últimos seis anos fui banido dos media de referência. A minha última coluna no «New York Times» apareceu em Janeiro de 2004, em coautoria com o senador democrata Charles Schumer, representante de Nova Iorque. Tratámos da deslocalização dos empregos estado-unidenses. O nosso artigo na página editorial provocou uma conferência na Brookings Institution, em Washington D.C. e uma cobertura ao vivo do C-Span. Foi lançado um debate. Nada disso poderia acontecer hoje.»

Lamento reproduzir apenas uns trechos, não o artigo na íntegra. É importante. Mas pode ser lido inteiro no endereço http://www.counterpunch.org/roberts03242010.html [Foto: criação de Erik Johansson.]

1 comentário:

Anónimo disse...

Então agora é assim na terra da liberdade e da democracia? Para onde vamos?
Cliquei no endereço, entrei no site e encontrei o artigo e o programa traduziu-o, um pouco mal é certo, fiquei varado!
E alarmado também, é mesmo caso disso